Documentário interessante que encontrei sobre as nações de candomblé do Rio de Janeiro. O que me chamou a atenção em particular foi a fala do Ferreti acerca da prática da Cabula no RJ pós abolição da escravatura. Muito embora a fala seja breve, explica a razão da separação entre candomblé e "umbanda" (na época, cabula) por meio da separação entre centro urbano e subúrbios.
27 de mar. de 2017
20 de jan. de 2017
Iroko - Tempo - kitembo
Difícil traçar exatamente a data do meu interesse por esse Orixá que não é cultuado na umbanda. Provavelmente meu interesse começou por causa de um sonho, há alguns anos atrás, onde eu via esse orixá sem ao menos saber que era "Ojá" o nome da faixa que o vestia. No sonho ele lembrava uma árvore, mas tinha feições, como tantos outros que me apareceram no mesmo sonho. Fiquei na dúvida e extremamente intrigada, pois ele era alto, tão alto, que eu não conseguia ver onde ele terminava. Lembro que foi uma amiga do terreiro que eu frequentava na época que, após eu narrar o sonho, me falou que provavelmente era Tempo representado em meu sonho. Mas o fato da umbanda não cultuar esse orixá, unido à outras tantas atividades, me fez colocar Tempo em segundo plano.
No final de 2016, por outras razões, Tempo apareceu novamente trazido por um preto velho. Lembrei desse sonho de muitos anos atrás e fui em busca do Tempo e tropecei numa árvore (logo eu, tão afeita às árvores, às plantas, à terra...rs). Qual era ela, Gameleira Branca? Ficus Religiosa? Cajazeira? Até em Mangueiras Tempo pode encontrar culto. A ideia de haver um Orixá em uma árvore de cara me fascinou. E que essa árvore deveria ser tão alta, mas tão alta, a ponto de ligar a terra e o céu, explicava porque no sonho eu não conseguia ver o topo daquele que vestia o "Ojá" (vamos chamar assim, já que hoje sei o nome certo da faixa).
Lá fui eu atrás de tempo e comprei um livrinho da Coleção Orixás da Editora Pallas, que sinceramente recomendo a quem se interessar pelo Orixá. Eu já havia comprado o livro de Exu da mesma coleção e gostei muito, muito embora o texto tenha perfis diferentes. Exu é escrito por um antropólogo e, por isso, tem um tom mais técnico que reúne diferentes concepções de Exu (o que é muito bom, também). Iroco tem um ritmo diferente, pois tem dois autores que pertencem ao candomblé. O livro me esclareceu muito acerca do Orixá em algumas questões, por exemplo, em Angola onde Tempo é inquice e rei da nação, ele pertence a família de Omulú (Cavungo), melhor dizendo, é irmão de Omulú.
Mesmo tendo lido atentamente o livro ainda é difícil fazer uma postagem a respeito do Orixá que mora na árvore. Existem sutilezas referentes às diferentes tradições em que esse Orixá/Inquice/Vodun pode aparecer. O livro trata um pouco dessas sutilezas, muito embora deixe claro desde o começo que os candomblés do Brasil, nos dias de hoje, sofreram um sincretismo interno, associando à um único Orixá características que podem ser de inquices e de Voduns. Maior exemplo disso, a meu ver, é Nanã Buruquê, que "originalmente" é um Vodun, mas que é cultuado nos diversos candomblés e na umbanda também. Tendo essa premissa podemos pegar algumas características de Iroco, Loco, Tempo e sintetizá-las no culto à àrvore. Quais características são essas? Segue um pouco do que entendi.
Tempo não apenas é alto, tão enormemente alto, a ponto de ligar o céu (Orun) e a terra (Ayê). Tempo também é velho, muito velho. Tão velho que diz um dos primeiros Itãs de Ifá descritos no livro citado que foi ele quem deu a Oxalá o seu Opaxorô. Por isso mesmo, Tempo guarda também os ancestrais, os mortos, pois existe e vive desde o início do mundo. Foi pelos galhos de Tempo que os Orixás desceram à terra. Tempo conhece os segredos da vida e da morte, junto com Orumilá, de quem também é irmão.
Tempo é livre, não gosta de lugares fechados. De sua liberdade segue que não tem pudores. Pode ser um grande refúgio para os filhos de Axé, mas à noite esconde em suas copas os segredos das Iyamís, das grandes feiticeiras.
Tempo é movimento, transformação. Elemento ar.
Tempo é fértil, sendo frequentemente procurado por aqueles que desejam ter filhos fortes.
Tempo se comunica com todos os Orixás por meio do vento que embala suas folhas, nas folhas, no tronco, na água que bebe, na terra que lhe dá a vida. Podemos encontrar nele a síntese da vida!
Tempo é lindo e dele depende tudo. Não é à toa que é o Rei do povo de Angola.
E o melhor de tudo, ele está na árvore, reside nela e é o pai de todas as árvores que existem. Tanta coisa em algo tão simples como uma árvore!
Mas logo a seguir me veio a seguinte questão: será que podemos encontrar tempo em qualquer árvore?
Quando pensamos nisso a coisa se torna ainda mais interessante. Porque há também associação entre árvores e Orixás:
Apaocá - Jaqueira - é atribuída as Iyamís, mães ancestrais. No livro acima é associado a uma qualidade de Iemanjá.
O Flamboyant é relacionado à Xangô.
O Cajazeiro aparece no Livro como uma das residências de Tempo no Maranhão. Mas em outro livro (que já, já citarei aqui) é colocado como ancestralidade de Ogum.
A Amendoeira também é associada às Mães ancestrais.
A Mangueira, também citada no livro como uma possível residência de Iroko, é atribuída à Ogum. Muito embora na umbanda suas folhas representem Oxossi.
E por fim a Gameleira Branca, popular em várias casas de candomblé, e árvore mais encontrada em qualquer pesquisa Google relacionada à Tempo.
Porém, nenhuma dessas árvores aqui mencionadas são originárias da África, de onde Iroco, Loco, Tempo vieram. Como ocorre essa associação com as árvores "nativas"? Dá pra saber um pouco mais sobre isso nesse artigo "intercânbio de folhas na diáspora" do Blog Gunfaremim (blog que recomendo a leitura pra quem quer saber de folhas).

Dentre tantos encontros e desencontros com Iroco/Tempo, encontrei a chave da resposta em outro livro: A Floresta Sagrada de Ossaim, o segredo das folhas, de José Flávio Pessoa de Barros, também editado pela Pallas (que já quase me levou à falência...rs). Nesse livro encontrei as IGI, as grandes árvores que são consideradas as moradas dos ancestrais e de alguns Orixás. São as arvores de grande porte e cujo tempo de vida perpassa gerações. O Baobá é, até hoje, uma IGI cultuada e respeitada na África.
E aqui no Brasil?
Considerando todas as informações desencontradas sobre "onde" tempo reside, e as variações tantas que encontramos em diferentes casas tradicionais de candomblé de raiz Bantu e Jege, podemos formular uma hipótese: qualquer árvore que possua uma ancestralidade de Orixá e, principalmente, tenha o tempo (cronológico) e o porte necessários podem ser residências de Tempo. Basta que se prepare a árvore e suas raízes adequadamente para servir a essa finalidade. Nos terreiros tradicionais encontramos além da Gameleira, a Mangueira e o Cajazeiro. Mas poderia ser Jequitibá, Baobá, Seringueira, etc...
Tempo é raiz, é tronco, é folha, fertilidade gerada em frutos. Ter Iroko em um terreiro significa proteção e longevidade (é a raiz quem sustenta o tronco e as folhas), sinônimo de tradição e fundamento. Iroko comunica Céu e Terra, traz a força de todos os Orixás (por isso em alguns lugares ele traz em si todas as cores). É um Orixá de movimento, nada calmo. Orixá fun fun (que veste branco) na nação Angola, a quem se pede calma, pois pode ser implacável. Tempo protege, porque conhece todos os segredos ancestrais. Se relaciona com as Iyamis, os abiku, e demais espíritos das florestas. Sua presença em uma casa significa também a possibilidade de transmutar qualquer energia ruim em coisas boas...
Tempo o Orixá/Inquice das transformações, mas que sempre estende um mastro com uma bandeira branca para que seus filhos não se percam.
Nas palavras de um preto-velho, "sem tempo nada se faz".
Curiosamente, depois que o preto-velho trouxe novamente tempo pelo braço, àquele mesmo Tempo com o qual eu já havia sonhado e esquecido, uma série de mudanças radicais aconteceram. Hoje, depois dessas mudanças, vejo que estou cercada de Mangueiras em minha residência. Mangueiras que devem ter bem mais de 50 anos. Mangueiras ancestrais de Ogum e que também servem de residência pra Tempo. É impossível para mim olhá-las e não cantar:
Ê tempo macura dilê, ê tempo macura tatá...
Mesmo tendo lido atentamente o livro ainda é difícil fazer uma postagem a respeito do Orixá que mora na árvore. Existem sutilezas referentes às diferentes tradições em que esse Orixá/Inquice/Vodun pode aparecer. O livro trata um pouco dessas sutilezas, muito embora deixe claro desde o começo que os candomblés do Brasil, nos dias de hoje, sofreram um sincretismo interno, associando à um único Orixá características que podem ser de inquices e de Voduns. Maior exemplo disso, a meu ver, é Nanã Buruquê, que "originalmente" é um Vodun, mas que é cultuado nos diversos candomblés e na umbanda também. Tendo essa premissa podemos pegar algumas características de Iroco, Loco, Tempo e sintetizá-las no culto à àrvore. Quais características são essas? Segue um pouco do que entendi.
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| Iroco e os espíritos ancestrais que residem nele. |
Tempo é livre, não gosta de lugares fechados. De sua liberdade segue que não tem pudores. Pode ser um grande refúgio para os filhos de Axé, mas à noite esconde em suas copas os segredos das Iyamís, das grandes feiticeiras.
Tempo é movimento, transformação. Elemento ar.
Tempo é fértil, sendo frequentemente procurado por aqueles que desejam ter filhos fortes.
Tempo se comunica com todos os Orixás por meio do vento que embala suas folhas, nas folhas, no tronco, na água que bebe, na terra que lhe dá a vida. Podemos encontrar nele a síntese da vida!
Tempo é lindo e dele depende tudo. Não é à toa que é o Rei do povo de Angola.
E o melhor de tudo, ele está na árvore, reside nela e é o pai de todas as árvores que existem. Tanta coisa em algo tão simples como uma árvore!
Mas logo a seguir me veio a seguinte questão: será que podemos encontrar tempo em qualquer árvore?
Quando pensamos nisso a coisa se torna ainda mais interessante. Porque há também associação entre árvores e Orixás:
Apaocá - Jaqueira - é atribuída as Iyamís, mães ancestrais. No livro acima é associado a uma qualidade de Iemanjá. O Flamboyant é relacionado à Xangô.
O Cajazeiro aparece no Livro como uma das residências de Tempo no Maranhão. Mas em outro livro (que já, já citarei aqui) é colocado como ancestralidade de Ogum.
A Amendoeira também é associada às Mães ancestrais.
A Mangueira, também citada no livro como uma possível residência de Iroko, é atribuída à Ogum. Muito embora na umbanda suas folhas representem Oxossi.
E por fim a Gameleira Branca, popular em várias casas de candomblé, e árvore mais encontrada em qualquer pesquisa Google relacionada à Tempo.
Porém, nenhuma dessas árvores aqui mencionadas são originárias da África, de onde Iroco, Loco, Tempo vieram. Como ocorre essa associação com as árvores "nativas"? Dá pra saber um pouco mais sobre isso nesse artigo "intercânbio de folhas na diáspora" do Blog Gunfaremim (blog que recomendo a leitura pra quem quer saber de folhas).

Dentre tantos encontros e desencontros com Iroco/Tempo, encontrei a chave da resposta em outro livro: A Floresta Sagrada de Ossaim, o segredo das folhas, de José Flávio Pessoa de Barros, também editado pela Pallas (que já quase me levou à falência...rs). Nesse livro encontrei as IGI, as grandes árvores que são consideradas as moradas dos ancestrais e de alguns Orixás. São as arvores de grande porte e cujo tempo de vida perpassa gerações. O Baobá é, até hoje, uma IGI cultuada e respeitada na África.
E aqui no Brasil?
Considerando todas as informações desencontradas sobre "onde" tempo reside, e as variações tantas que encontramos em diferentes casas tradicionais de candomblé de raiz Bantu e Jege, podemos formular uma hipótese: qualquer árvore que possua uma ancestralidade de Orixá e, principalmente, tenha o tempo (cronológico) e o porte necessários podem ser residências de Tempo. Basta que se prepare a árvore e suas raízes adequadamente para servir a essa finalidade. Nos terreiros tradicionais encontramos além da Gameleira, a Mangueira e o Cajazeiro. Mas poderia ser Jequitibá, Baobá, Seringueira, etc...
Tempo é raiz, é tronco, é folha, fertilidade gerada em frutos. Ter Iroko em um terreiro significa proteção e longevidade (é a raiz quem sustenta o tronco e as folhas), sinônimo de tradição e fundamento. Iroko comunica Céu e Terra, traz a força de todos os Orixás (por isso em alguns lugares ele traz em si todas as cores). É um Orixá de movimento, nada calmo. Orixá fun fun (que veste branco) na nação Angola, a quem se pede calma, pois pode ser implacável. Tempo protege, porque conhece todos os segredos ancestrais. Se relaciona com as Iyamis, os abiku, e demais espíritos das florestas. Sua presença em uma casa significa também a possibilidade de transmutar qualquer energia ruim em coisas boas...
Tempo o Orixá/Inquice das transformações, mas que sempre estende um mastro com uma bandeira branca para que seus filhos não se percam.
Nas palavras de um preto-velho, "sem tempo nada se faz".
Curiosamente, depois que o preto-velho trouxe novamente tempo pelo braço, àquele mesmo Tempo com o qual eu já havia sonhado e esquecido, uma série de mudanças radicais aconteceram. Hoje, depois dessas mudanças, vejo que estou cercada de Mangueiras em minha residência. Mangueiras que devem ter bem mais de 50 anos. Mangueiras ancestrais de Ogum e que também servem de residência pra Tempo. É impossível para mim olhá-las e não cantar:
Ê tempo macura dilê, ê tempo macura tatá...
27 de out. de 2016
Pontos Riscados
Uma das coisas na umbanda que intriga os neófitos são os pontos riscados. Fazendo uma busca na web sobre o tema, encontramos algumas coisas a respeito, mas tenho dúvida se essas coisas traduzem o que é o ponto riscado. Encontramos muito frequentemente, na maior parte das vezes, que um ponto riscado é uma assinatura da entidade de umbanda.
Nos terreiros, ouvimos muitos aconselhamentos que nos alertam sobre "os perigos" em buscar pontos riscados, bem como a compreensão deles via internet. Isso ocorre por duas razões básicas:
1) existem vários espíritos agrupados em um mesmo nome de falange (exemplo: caboclo 7 flechas); isso não significa que exista uma única assinatura de falange. Cada caboclo 7 flechas terá o seu ponto riscado, individual e intransferível. Por essa razão os terreiros, de modo geral, desaconselham seus neófitos a buscarem na internet. Isso, de certo modo, pode dificultar o processo do desenvolvimento, uma vez que falte uma compreensão adicional (que exporei a seguir).
2) Pontos riscados possuem uma gramática própria e nem todos são uma "assinatura" da entidade. Existem pontos de firmeza, pontos de descarga, pontos de energização e assim por diante... O fato é que cada ponto riscado tem como objetivo formar um amálgama, uma síntese das energias que serão usadas em determinado trabalho, de forma que nenhuma outra possa vir interferir.
Dessa forma notamos que nos casos dos pontos riscados das entidades de umbanda, cada uma delas trará em seu ponto riscado as energias que elas podem vir manipular. Esse ponto pode ser diferente, por exemplo de um ponto de proteção dado pela entidade. Assim nem sempre que um neófito recebe por intuição, ou em sonho, um ponto riscado significa que este é o ponto de "identificação" de uma entidade. Da mesma forma nem sempre ao encontrarmos um desenho de ponto riscado na internet, atribuído a uma guia de uma certa falange, esse ponto será o ponto da nossa entidade e/ou o ponto de identificação da entidade.
Pontos riscados são formados de acordo com uma gramática que APENAS as entidades de umbanda conhecem. Algumas vezes os próprios guias nos permitem conhecer um pouco desses pontos, mas a gramática mesmo as entidades sabem.
Há também na web algumas tabelas que associam símbolos de pontos riscados à linhas de trabalho e à Orixás. É interessante saber esses significados, sim. Mas sempre levando em consideração que qualquer um desses símbolos pode adquirir outro significado dependendo da posição em que aparece no ponto, dependendo, inclusive, da direção do traço na hora da riscagem.
Em resumo: saber parte do símbolos e significados frequentes nos pontos riscados é útil, mas não resume o que é o ponto riscado.
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27 de ago. de 2016
Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)
Essa postagem é um pouco inspirada no artigo "Eram os gregos macumbeiros?". Porém em uma vertente diferente.
Ultimamente tenho me voltado bastante para filosofia grega e dentre tantos preparos para aula, pensei: porque não aproveitar o ensejo para pesquisar algo que me interesse? E assim comecei um estudo que já tem alguns anos eu desejava fazer. Tentar entender um pouco melhor o conceito de DAEMON no pensamento socrático, tal qual reproduzido por Platão (e Xenofantes, também, muito embora não tenha me aprofundado nesse segundo autor).
No meio dos meus estudos lembrei que no Evangelho Segundo o Espiritismo há um tópico, logo na introdução, só sobre como Sócrates teria sido um "precursor" das ideias cristãs - acho (meio hereticamente) que não é bem assim, e espero poder falar disso mais a frente. Mas importa, nesse primeiro momento que o Espiritismo considera Sócrates como um dos primeiros pensadores a falar sobre reencarnação e sobre espíritos que nos acompanham, DAEMONES, que seriam, na visão kardecistas como mentores espirituais.
Os artigos que encontrei sobre o tema mostram que parte da condenação de Sócrates envolve não apenas o fato dele ser considerado um "aliciador de jovens", no sentido de disseminar entre eles a reflexão, o questionamento sobre temas básicos como "a justiça", "o bem", etc. Está presente também na condenação de Sócrates a acusação de subverter as crenças estabelecidas, o que alguns interpretam em como não crer nos deuses e de substituí-los por outros seres (que seriam os daemones). Para compreender melhor isso é necessário entender: (1) se tais entidades já estavam presentes na religiosidade grega; (2) a forma como Sócrates pessoalmente se relacionava com seu daemon. Ao falarmos dessa segunda parte é que a questão do título desse post se coloca.
Sobre o tópico (1) podemos explicar em linhas gerais que desde Hesíodo (bem antes de Sócrates) os daemones já faziam parte da religiosidade grega. Eles eram subordinados à um Theos, um Deus. E eram responsáveis por acompanhar os homens (um para cada homem) para garantir que seu destino se cumprisse, mas sem interferir nisso. Ou seja, não havia nenhum tipo de comunicação entre um homem e seu daemon pessoal, nem para o bem, nem para o mal. No final da vida (e isso o kardecismo fala certo) é o daemon o responsável por conduzir a alma "do seu humano" pelo Hades.
A grande diferença que podemos encontrar entre os daemones clássicos e os que são referidos por Sócrates, é que, diferente do que diria a religiosidade, Sócrates conseguia "ouvir" conselhos de seu daemon. O daemon, não agia, deixava as escolhas por conta de Sócrates, mas o aconselhava de vez em quando. E é essa relação com o seu daemon pessoal que gerou a grande confusão. Como, de acordo com Hesíodo, os daemons apenas selam para que os destinos sejam cumpridos sem nunca interferir (nem comunicar nada), era uma afronta Sócrates estabelecer uma relação de camaradagem com seu daemon pessoal. Na cabeça dos gregos, Sócrates estava substituindo a crença nos deuses pela crença em seu daemon, como se ele fosse a divindade.
Alguns interpretes consideram que a acusação de Sócrates era equivoca, e que não se trata de uma "substituição de divindades", mas sim da ressignificação dos daemones, já que antes de Sócrates essa comunicação não ocorria (não que a gente saiba...rs) O próprio Sócrates, em sua defesa, argumentou que Daemones são mensageiros dos Deuses, cada um subordinado a um Deus, crer nos daemones, implica necessariamente crer nos deuses que os criaram e os colocaram para guardar os homens. A diferença é que Sócrates recebia e acolhia os conselhos dados por seu daemon (que pelo que li era enviado por Apolo). Enfim, o problema todo estava, na verdade, no fato de Sócrates se comunicar com esses ser "dividos" e tê-lo como conselheiro. E por isso veio a questão: Seria Sócrates um Médiun?
Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, sim. O contato de Sócrates com o daemon representa o que hoje se vê nos contatos mediúnicos com mentores espirituais.
Mas esse é um blog sobre umbanda, certo? Por que abordar esse tema aqui?
Cabe lembrar que proponho não um mero acordo com o Espiritismo (lá no começo do texto) mas uma leitura de certo modo herética do texto de Kardec.
Quando Kardec menciona Sócrates, o faz no sentido dele ser um precursor de idéias cristãs que estão presentes no espiritismo. Mas será que é isso mesmo? Vejamos: no espiritismo os mentores espirituais não são enviados por Deuses e nem subordinado à deuses. Já na umbanda podemos encontrar algo bem mais parecido com o que os gregos falavam sobre esses seres, uma vez que todos os espíritos trabalhadores de umbanda são agrupados em falanges que respondem a um Orixá (seja esse Orixá interpretado uma deidade ou como força da natureza). Talvez isso ocorra justamente por ter uma "raiz" pagã em ambos os casos: O panteão grego não era cristão, assim como o panteão dos Orixás não era cristão em sua origem.
Ao que diz respeito aos daemones, creio que eles sejam mais próximos dos guias espirituais de umbanda, que dos mentores espíritas, pelo fato deles serem ordenados, organizados, conforme os deuses do olimpo.
Mas o Evangelho afirma que Sócrates é um precursor das ideias do cristianismo. Afirma, também, que nada do que ele traz é absolutamente novo na história da humanidade. A própria proposta do Evangelho de Kardec é apresentar uma releitura de passagens do novo testamento à luz da doutrina espírita, mostrando que a doutrina não é contraditória com o texto sacro. Mas se é assim, porque ainda vemos tamanha resistência dos católicos em aceitarem a doutrina espírita? Seria puro preconceito? Será que Sócrates, os daemones, a reencarnação são compatíveis com os dizeres de Jesus, de acordo com o cristianismo apostólico romano que conhecemos? Não. E nem dá para afirmar que historicamente em algum momento o cristianismo tenha aceito teorias similares ao que prega o Espiritismo. É uma afirmação forte, sim. Mas uma afirmação baseada nas cruzadas que catequizavam pelo sangue, bem como nas perseguições e condenações das Heresias.
Historicamente o sec. XIII foi decisivo em relação à consolidação de determinadas doutrinas católicas. Dois eventos marcaram parte um momento de "depuração" da doutrina para transformá-la no que conhecemos hoje.
O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.
Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.
Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.
O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs
Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais!
O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.
Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.
Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.
O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs
Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais!
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