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24 de fev. de 2011

Quem influenciou quem? (parte 1)

Uma coisa bem curiosa dentro da umbanda é o fato dela ser classificada como religião "afro-brasileira". Claro que as "influências" africanas são incontestáveis uma vez que há a louvação aos Orixás. Por outro lado, a influência da pajelança é também incontestável, não pelo fato de entidades caboclas trabalharem na umbanda, mas por algumas característica do trabalho de umbanda.

A pajalença a qual me refiro como possível influência é que trabalha com os encantados, já caracterizada como cabocla e não indígena propriamente dita. Esta influência pode ser afirmada pelo fato de haver, nesse tipo de pajelança, características que também podem ser encontradas na umbanda: 1) O pajé é medianeiro para os chamados "Caruanas" (encantados) que trabalham na cura das pessoas. Esta característica, segundo HAUÉS (1998), foi herdada dos índios Tupis e configuram uma pratica diferenciada de xamanismo em relação a outros povos indígenas; 2) O trabalho com o fumo; 2) trabalho com ervas; 3) a dança ritual característica de certos caruanas, que nada tem a ver com a dança dos Orixás dentro do candomblé; e 4) a crença em locais mágicos como a Jurema (na umbanda una-se também Aruanda, Humaitá, etc.) onde certas entidades residiriam - característica que não é comum ao candomblé, por exemplo.

O artigo "Pajelança e encantaria amazônica", do pesquisador mencionado acima, parece mesmo frisar a dificuldade de se encontrar hoje em dia a pajelança tal como praticada originalmente nas tribos, já que desde tempos remotos (sec.XVII e XVIII) eram enviados agentes do Santo ofício fiscalizar as regiões Amazônicas a fim de censurar a prática da Pajelança. Segundo o pesquisador, até tempos mais recentes os Pajés tinham que buscar autorização policial para exercer sua prática.

O resultado desta perseguição, foi a mistura da cultura indígena original, com traços europeus (muito mais traços do Sebastianismo Português), com traços africanos. Mais recentemente, nos dois casos das pajés femininas retratadas no artigo citado, identifica-se a mistura entre "umbanda", pajelança e até mesmo traços do kardecismo na forma pessoal como uma das pajés explica a dedicação que tem à pajelança.

O propósito do artigo é, no final das contas, traçar pontos comuns nas variações encontradas entre as pajelanças pesquisadas. Porém, o que eu gostaria de trazer à reflexão, a partir deste artigo, é o amalgama que vai aparecendo da pajelança, muito em função da criminalização que esta sobreu desde tempos remotos. Uno a essa reflexão a experiência pessoal de conversas que travei com uma indígena Fulni-ô, além de alguns traços que pude obserservar presentes em outras tribos indígenas como os Xukurú (Pesqueira/PE) que aparecem em vídeos como os que colocarei mais abaixo nessa postagem.

O artigo citado começa justamente separando o tipo de pajelança estudada, o da encantaria e rituais da jurema, daquela pajelança indígena propriamente dita. Ao mesmo tempo, é apresentada uma "historia" breve da criminalização da pajelança, cuja consequência foi o massacre dessa cultura e a consequente mistura ocorrida entre pajelança, religiões afros e cultura européia.

Minha questão versa justamente sobre a possibilidade de podermos separar nos dias atuais a pajelança dos ritos de jurema, daquela pajelança praticada pelos descendentes diretos de etnias indígenas.

Comecei a me fazer essa pergunta quando conheci uma descendente direta da tribo Fulni-ô de PE. Uma Pajé, conhecedora das ervas e dos rituais de cura de sua tribo, que para poder sobreviver a partir de sua terapia, resolveu estudar reiki para, junto com o reiki, poder atender também com o conhecimento adiquirido em sua tribo. Certamente é uma pessoa especial, com papo agradabilíssimo, por quem tenho grande apreço. Por duas vezes, ao conversarmos sobre o conhecimento dela de ervas e coisas afins, me intrigou algumas colocações dela: uma foi ela frisar que no caso de certas "macumbas" as ervas são usadas de formas distintas. Até aí tudo bem, pois, entre Umbandas de escolas diferentes as ervas são usadas de formas distintas. Mas realmente fiquei intrigada quando ela mencionou, rapidamente, que o seu talento para a pajelança estava relacionada ao fato dela ser filha de "EWA". Quase tomei um susto! EWA afinal é um orixá.

Depois disso, em um documentário "índios do Brasil" (a parte que mencionarei aqui está no final do vídeo) que aborda parte da religiosidade de tribos indígenas, mostra, entre outras práticas e concepções de sacralidade, a prática da tribo dos Pankararú, (PE). Os Pankararú, assim como outras tribos da região nordeste, cultuam os "encantados". O curioso é observar as formas como esse culto ocorre, os Pankararús mantém até mesmo um "Peji" (termo africano que designa uma casa, local, onde se guardam o assentamento dos Orixás), onde estão "todos os encantados" e onde reside toda força dos rituais. Curiosa é a forma como essa casinha é descrita pela Pankararú do vídeo: "aí dentro dessa casa tem um oratório com um cruzeiro, com cruz, com santo, com todo mundo e tem eles aí. Quem passa e não sabe não diz nada, mas a força todinha tá aqui."

Algumas tribos cultuam seu sagrado com nítidas influências afro. Outras, como as tribos Xukurú que vivem na Serra do Ororubá em Pesqueira, PE, guardam fortes influência da encantaria "moderna". Usam velas, cantam pontos da Jurema Sagrada e Pontos de caboclos que possuem saudações à Oxossi. Isso pode ser atestado nos seguintes vídeos:

XUKURÚ ORORUBÁ - Teaser


O CANTO XUKURÚ


Creio que entre povos, principalmente da regiao do nordeste (curiosamente os 3 povos mencionados são de PE), ocorreu um tipo de "sincretismo próprio" nas religiosidades indígenas. Entendendo por sincretismo, claro, qualquer traço de mistura de assimilação de sentidos entre elementos de culturas diferentes, coisas do tipo.

Ao ver os vídeos acima, me perguntei se eles tem consciência deste sincretismo formado. No caso da Fulni-ô conhecida minha, há essa consciência. Ela mesmo adimite que, mesmo nascida na tribo, tendo recebido os ensinamentos de sua cultura, é impossível que em 500 anos de história essa cultura não encontre traços de misturas.

A primeira conclusão desta reflexão é que não sei se concordo com o pressuposto do artigo mencionado aqui, que separa a pajelança indígena da pagelança da encantaria.

A segunda conclusão é poder considerar válido sincretismos fora da esfera da umbanda., em religiosidades que podem ser consideradas mais "puras". Não é novidade que há no candomblé sincretismo, mas me parece uma informação nova que haja tantos sincretismos dentro das religiosidades pertencentes aos nossos "nativos". É sincrética toda religião que assuma para si sentidos e significados que não lhe são originais, mais que migraram de outras culturas, ou de outras religiosidades. Pensando dessa forma grande parte das religiões existentes hoje possuem algum traço de sincretismo.

A terceira conclusão, a mais interessante, é perceber que se a cultura indígena formou sincretismos e foi, com o tempo, se moldando e internalizando elementos da cultura africana e do que hoje é chamado de encantaria cabocla (e não indígena). Traçando uma escala "progressista" - como às vezes se faz com as antigas macumbas e candomblés de caboclo, dizendo que eles "progrediram" para a umbanda - pode ser possível concluir que a umbanda nasceu da pajelança.

Enfim, sendo ou não sendo essa a Origem da umbanda, encontramos nos trabalhos de umbanda pelo menos de 50% à 30% de práticas comuns a encantaria. Isso conforme for maior ou menor a influência desta sobre a umbanda. Do mesmo modo podemos encontrar de 50% a 30% de práticas comuns aos candomblés, de acordo com a influência que esta umbanda sofra do candomblé.

Interessante notar que a idéia de incorporação de espíritos que atuem sobre o Pajé não parece ter sua origem no kardecismo. Segundo o artigo aqui mencionado e linkado, se há influência do kardecismo este se restringe a concepção pessoal pela qual cada uma das Pajés mencionadas no texto entenderá seu caminho particular dentro da encantaria. Assim, se considerarmos a umbanda como religião derivada ou dos candomblés, ou da pajelança, não podemos considerar totalmente que o kardecismo realmente faça parte constitutiva dos ritos praticados na umbanda.

13 de ago. de 2009

Sobre Cabolcos...


Os caboclos são entidades que se manifestam na umbanda e em alguns candomblés, que representam as origens indígenas do povo brasileiro. Isso a maioria dos adeptos de ambas as religiões sabem. O que talvez não saibam é que a forma de apresentação destes caboclos, sua dança, gestual, objetivos e forma de trabalhos variam conforme as casas onde trabalham.

No candomblé de caboclo, muitas vezes, estes caboclos aparecem com caracterizações próprias e um modo mais solto de lidar com o público e pessoas da casa. Muitos médiuns ventem-se de acordo com o desejo manifestado pela entidade.

Caboclo de pena (indígenas), com as penas que o caboclo pedir.
Caboclo de couro (boiadeiros e representantes do lado sertanejo, caboclo propriamente dito) com chapéus de couro e outros acessórios que marquem a sua identidade sertaneja.

A diferença é marcada também na dança e no gestual....

Em casas de umbanda não é habitual caracterizar estas entidades com vestimentas próprias, ficando a sua identidade demarcada apenas pela sua dança e gestual.

A forma de trabalho também varia, até onde pude entender. Na umbanda que conheço, caboclos ditos "boiadeiros" tem seu lugar reservado a trabalhos de descarga, eliminação de energias negativas, tanto do médiun que trabalha com ele quanto daqueles que procuram o auxilio dessas entidades. Os caboclos "de pena" tem atribuições mais variadas como, trabalhos de cura com ervas e cantos, magnetização e equilíbrio psíquico, conselheiros, além dos trabalhos de descarga.

No candomblé de caboclo, a diferença entre estes tipos de trabalhos se torna menor, e podemos encontrar caboclos de couro manipulando ervas entre outras coisas...

Segue abaixo um vídeo que mostra um pouco da figura do caboclo nos candomblés de caboclo:

Caboclos de um Brasil Caboclo




O documentário mostra um pouco do que é a figura do caboclo no candomblé de nação Angola e sua forma de trabalho.

Achar um vídeo sobre caboclos e sua manifestação na umbanda e forma de atuar na umbanda que dê conta da diferença que pretendo pontuar aqui é mais difícil. A maioria dos documentários e vídeos instrutivos voltam-se mais ao candomblé como expressão de cultura brasileira, esquecendo algumas outras tantas manifestações religiosas.

Muitas vezes noto uma preferência antropológica à religiosidades que mostrem de forma mais "simbólica" a "cultura" do povo brasileiro mestiço, mantendo um distanciamento etnológico entre o que é "Brasil" e "derivado dos povos africanos". Uma abordagem muitas vezes etnocêntrica que põe o brasileiro "de fora" da sua própria nacionalidade.

Há uma crítica aqui? Sim, há. Esta crítica tem um duplo direcionamento: o primeiro direcionamento volta-se sobre o olhar academicista diante da cultura e expressão religiosa como objeto, que torna as formas de abordagens antropológicas muitas vezes vaga, quando não exaltam apenas o aspecto "pitoresco" dando um ar de "primitivismo" a estas expressões que, antes de serem culturais, são religiosas e, como tais, possuem uma unidade doadora de sentido e de realidade. Esta unidade doadora de sentido, não é mais africana, nem católica, nem kardecista, nem tampouco "afro-brasileira" - que dá um sentido de segunda África - mas eminentemente brasileira. Elas expressam um modo de viver e de pensar que é própria da nossa nação, que não é africana, não é indígena e nem européia.

A segunda crítica vai para os adeptos da umbanda e até do candomblé que, muitas vezes iludidos pela falta de um corpo doutrinário escrito de nossa religiosidade, se voltam aos estudos antropológicos e tentam reproduzí-los em suas concepções pessoais da religião.

O importante destacar nesta postagem é que por caboclos, entendende-se bem mais que índios, ou entidades que representam antepassados indígenas. Ao contrário é na figura do caboclo que se destaca de forma mais veemente a identidade brasileira, do mestiço.

As diferenciações vistas nos terreiros de umbanda, não "simbolizam" a diferença de sua origem, mas sim a diferença de formas de trabalho e funções exercidas em nossa religião.