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19 de jun. de 2015

A umbanda e as diferenças socioculturais

Essa semana foi atípica para os que militam na seara espiritualista. Uma menina de 11 anos, candomblecista apedrejada no subúrbio do Rio, um templo apedrejado no humaitá, zona sul do RJ. Ainda no RJ um médium da casa de Frei Luiz foi brutalmente assassinado, a razão ainda é desconhecida. E mais o túmulo de Chico Xavier foi danificado à pauladas. Nas redes sociais há uma grande mobilização de umbandistas, espíritas, candomblecistas e até mesmo alguns evangélicos, contra ações violentas que atingem as religiões espiritualistas, principalmente as de matriz afro.

Simultaneamente a isso, algumas velhas observações vieram à tona em minha mente, as quais quero compartilhar aqui.

Já tem tempo que observo que a umbanda não é mais uma religião "popular" e feita "para todos". Muito embora as portas dos templos umbandistas estejam abertas para qualquer um que queira entrar -  sem distinção de classe social, econômica ou cultural - é fácil observar que os principais adeptos e frequentadores da religião nos dias de hoje são pessoas, em sua maioria, de nível sócio-cultural razoável. Com isso digo, pessoas alfabetizadas, com ensino médio completo e algum curso complementar (curso técnico, superior, etc...). Enquanto isso, nas igrejas evangélicas que se proliferam à olhos vistos, vemos maior incidência de pessoas com classe sócio-cultural mais baixa. Antes que alguma inferência equivocada surja, não pretendo dizer que os índices de violência estão relacionados à classe sócio-cultural das pessoas. Não, não é isso! Meu objetivo é, na verdade, questionar o que nós possamos estar fazendo de errado para que, em uma dada comunidade ou bairro, uma maioria menos culta prefira à igreja que o terreiro.

Não é incomum vermos entre os evangélicos depoimentos sobre passagens à terreiros de umbanda  e candomblé que antecederam o seu ingresso na igreja. Uma parcela abandonou os terreiros por não se adaptarem aos preceitos que exigem, muitas das vezes, uma mudança radical nas concepções de comunidade: exemplo, antes de ser um Yaô, no barracão de candomblé, deve-se comer no chão e com as mãos... No terreiro de umbanda, deve-se aprender a servir na cambonagem e em outros serviços da casa, antes de ser um médium de atendimento. Outra parcela abandona pela insatisfação de não verem seus problemas resolvidos de forma imediata. Em ambos os casos, falta instrução sobre a religião. E, de fato, vemos muitas casas que pecam em relação a isso: ou pecam pela ausência absoluta de informação, tanto para os médiuns quanto para a assistência; ou pecam pela informação transmitida de forma inadequada, em linguagem "erudita" demais. No segundo caso, a erudição nem está no vocabulário usado ou coisa parecida, mas na forma de transmissão.

Eu sempre relembro as histórias do início da umbanda de Zélio de Morais "umbanda simples de coração, para os simples". Mas os simples de 1918, já tinham uma cultura um pouquinho melhor que os simples de hoje. Talvez falte adaptação da umbanda ao meio... Se por um lado já não se pode mais trabalhar na umbanda sem nenhum estudo, por outro um estudo demasiado teórico não facilita a comunicabilidade com esses setores mais carentes. Será que a umbanda de hoje é, de fato, para os mais simples? Fica aqui a dica para reflexão! 

Minha reflexão é crítica sim, mas crítica no sentido de repensarmos a prática dos terreiros e a forma de lidarmos com as pessoas. Não creio que apenas a falta de cultura seja determinante para a disseminação do ódio generalizado que as Igrejas pregam. Mas acho que há algo, também, no que move a procura e a permanência das pessoas nesses locais. Deve existir algo, algum diferencial na forma de comunicar de um pastor evangélico, em relação à forma como a umbanda hoje comunica a sua doutrina. Se até mesmo a igreja católica conseguiu repensar seus dogmas e seus ritos em função do crescimento do protestantismo, porque nós, umbandistas e espiritualistas não podemos, reflexivamente, repensar e tentar identificar pontos de mudança na nossa forma de lidar com as pessoas?

Fica a sugestão de reflexão...



8 de fev. de 2015

Intolerância Religiosa - Parte II - As Relações de Poder

Quem nunca ouviu a frase "política e religião não se misturam"?

Quem pensa isso se engana! Toda a história de repressão às religiões de matriz africana passa, também, pelas relações de poder entre dominador e dominado, entre o senhor e o escravo. 

Na postagem anterior mencionei o caso carioca do Juca Rosa. Sobre a figura dele pairava um ar de mistério e de poder, poder concedido por conhecimentos mágicos de "feitiços". Uma das causas da prisão de Juca Rosa, muito embora não pudesse constar nos autos, era essa relação de temor e poder que o colocava como subjugador de seus seguidores.


Além do caso de Juca Rosa, temos na literatura a descrição do Pai Raiol, feiticeiro, no romance "As Vítimas Algozes" de Joaquim Manoel de Macedo, escrito em 1869, antes da abolição da escravatura. O ponto de partida do autor é a escravidão como algo que corrompe a essência do negro. O negro se torna mau, cruel, como uma consequência dos maus-tratos da escravidão e, por isso indigno da confiança de seu senhor. O negro escravo, por causa da sua condição, sempre será aquele que conspira contra o seu senhor. Não é diferente no caso do Pai Raiol. Pai Raiol é um negro que conhece rezas e segredos das ervas e que com isso dominava outros negros e era temido por eles. Descrito como um "bruxo", capaz de matar só com um olhar qualquer um que atrapalhasse seus planos, Pai Raiol se envolve em uma trama cujo objetivo é tomar a fazenda do seu proprietário. Em resumo, Joaquim Manoel de Macedo, descreve o negro bruxo como capaz de tomar o poder de seu senhor. Na trama, Pai Raiol não consegue seus objetivos, mas não porque seu poder fosse falho, mas porque é assassinado por um outro escravo. Mas, antes desse assassinato consegue destruir a família do seu senhor, retirar-lhe a dignidade fazendo-o se envolver e ter filhos com uma escrava e dando-lhe ervas venenosas que o colocaram fraco e doente. Enfim, Pai Raiol teria conseguido seu objetivo se não o tivessem assassinado.

Na história temos a Revolta dos Malês, que completa 180 anos este ano. Negros, principalmente muçulmanos, mas também alguns nagôs, se reuniram em um levante que pretendia instaurar um governo malê em Salvador. Um dos fatores que possibilitou a realização desse levante, foi o fato de serem os malês, negros instruídos. Sabiam ler e escrever em árabe, o que evitou que o movimento fosse descoberto antes do tempo. Em reportagem recente do Jornal O Globo, "Revolta dos Malês, 180 anos" é dito:

De acordo com historiadores sobre o tema (não gosto dessa expressão, porque sempre quero saber quais historiadores disseram) a Revolta dos Malês foi fortemente reprimida. Das seis centenas de revoltosos, 73 foram mortos em enfrentamento, além de dez oponentes ao levante. Os derrotados foram condenados a penas de açoite, prisão, banimento e até morte. A partir dali, a população africana passou a ser submetida a uma vigilância e repressão abusivas.

Dizem, também, que os Malês eram "bruxos", os ditos kimbandas, como também já publiquei aqui no blog. Pairavam sobre eles, segundo João do Rio, o mesmo ar de mistério que cercavam figuras como Juca Rosa e o personagem Pai Raiol.

Esses exemplos mostram como a relação entre a proibição da prática de rituais africanos e, consequentemente, os rituais que mantém essa matriz africana no Brasil, está intimamente ligada com a relação de poder entre o negro e o branco. Retirar do negro a sua prática religiosa, colonizá-lo, era também uma forma de impedir que o negro, seja por atuação em rebeliões, seja por magia, pudesse tomar o poder dos brancos.  Se buscarmos na história do Brasil, vemos que muitas das organizações religiosas negras tiveram, também, como função, organizar os negros na luta pela liberdade e autonomia, como por exemplo, a irmandade da Boa Morte. 

Enfim, as organizações religiosas negras e a perseguição a elas sempre esteve ligada à relações de poder e, consequentemente, a políticas que visavam coibir o negro escravo e manter o poderio branco. Então, por qual razão hoje afirmamos, com tanta veemência, que política e religião não se misturam? Por que questionamos tanto políticos que levantem a bandeira das religiões afros? E por que não questionamos quando algum político se elege sob a bandeira cristã? Por que, mesmo tendo partidos como o PSC (Partido Social Cristão) elegendo candidatos, insistimos na ingênua ideia de que vivemos em um país laico? Por qual razão casos de agressões à terreiros são tratados de forma diferenciadas pela polícia e pelo poder público em geral?

A resposta à essas questões envolve, novamente, a cultura que já ficou enraizada no inconsciente de grande parte das pessoas: catolicismo, cristianismo são normais, enquanto que as religiões de matriz afro são "negras", são mágicas e envolvem poderes desconhecidos os quais devem ser temidos! O que não é posto de forma consciente, e que subjaz essa ideia, é o fato dela expressar uma relação de poder, consequentemente, uma relação política.

Essa diferença entre as religiões afro e brancas, exprimem antigas diferenças entre senhores e escravos, que eram relações políticas. A diferença entre as religiosidades expressa, ainda hoje, as diferentes relações de poder da época da escravidão no Brasil. Sim, ainda hoje! Ainda hoje vemos praticantes da umbanda viverem como viviam as mulheres da Irmandade da Boa Morte na Bahia: na frente a igreja, atrás, nos fundos, o candomblé, a matriz africana! Essa diferença entre dominador e dominado ainda é uma realidade, infelizmente, nos dias de hoje. Espero que um dia eu veja isso mudar!

Ainda sobre as relações entre religião e poder, posto abaixo dois documentários interessantes que podem ajudar na reflexão sobre o tema:

Irmandade da Boa Morte:

Parte 1: 





Parte 2: 





Parte 3: 






Alagoas: O Quebra de Xangô:















Intolerância Religiosa - Parte I - Entre o Silêncio e o Medo

Essa semana um fato pegou de surpresa a todos que pertencem ao centro onde trabalho há três anos. Uma das filiais da casa teve a porta arrombada e quebraram imagens de pretos-velhos e exus da entrada. Tudo indica que o invasor iria quebrar o congá e as demais imagens do interior da casa, quando desistiu da ideia, largou um pedaço de pau no meio do terreiro e saiu. Não houve furto de dinheiro e nem da comida que existia lá dentro, fazendo com que os policiais concluíssem que não se tratava de um assalto, mas de um ato pontual, cuja finalidade era atacar os símbolos do terreiro: imagens de exus, pretos-velhos e orixás.

http://extra.globo.com/casos-de-policia/centro-de-umbanda-no-cachambi-alvo-de-depredacao-ato-de-maldade-diz-dirigente-15239467.html



O caso foi identificado como intolerância religiosa e ganhou os jornais, TVs e redes sociais, com uma força impressionante! A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, membros de diferentes religiões, foram à filial atacada prestar solidariedade. O vereador Átila Nunes organizou junto à casa um ato de desagravo que ocorreu neste último sábado, 07/02 na rua em que se localiza a Filial. 

Seguindo o que a minha consciência mandava como umbandista e filha da casa que sofreu a agressão, compareci ao ato e me surpreendi com o fato de poucas pessoas terem comparecido. Minha expectativa era que houvesse um número maior de pessoas, pelo menos, um número maior de médiuns da casa presentes. Saí de lá refletindo sobre a razão disso. A indignação pelas redes sociais foi enorme, mas, na hora de comparecer a um ato público, poucos foram... Perceber essa desunião me colocou uma pulga atrás da orelha. Qual seria a verdadeira causa disso? E é a reflexão sobre a causa dessas ausências que pretendo expor aqui. Essa reflexão leva, automaticamente a uma explicação do porquê, mesmo sendo sabido que a invasão de propriedade é crime, pessoas que não são em sua raiz "criminosas" acabam vendo nos terreiros um caso onde essa invasão é permitida, e até mesmo aceita como correta! A questão é religiosa? Sim! Mas não é apenas isso, trata-se, também, de uma questão cultural construída ao longo da história.

Existe, entre os umbandistas, uma cultura do silêncio. 

Quem entre nós nunca ouviu frases como "centro bom, é centro longe!" ou ainda "debaixo da batina tem dendê". Essa última frase, aliás, aprendi com a minha mãe, que frequentava a umbanda como assistente, quando eu era criança, e ia ao Mosteiro de São Bento na missa da páscoa. Ensinava que não era bom dizer que ia na umbanda, pois as pessoas reagiriam mal a isso. Sim, era exatamente isso que eu ouvia. Cresci entre o banquinho do preto velho e as missas de domingo! Essa cultura de que a umbanda não pode ser dita é que alimenta a ideia de que invadir um terreiro e quebrar suas imagens pode não ser um crime, mas algo que pode ser feito.

Durante anos da história do Brasil, em vários estados, incluindo Rio de janeiro, as religiões afro foram perseguidas e coibidas. Ser de uma religião afro implicava lidar com "forças ocultas do mal". Muitos eram acusados de bruxaria e contravenções. Já publiquei aqui nesse blog o caso carioca do Juca Rosa, no período do Império pré-abolição, que fora condenado por estelionato, já que na época ainda não havia leis que impedissem as praticas religiosas dos negros. Após a abolição da escravatura, leis que proibiam as práticas de candomblé e da capoeira foram aprovadas. 

No caso de Juca Rosa, fica claro que o temor relativo à pratica religiosa era o de um "poder" concedido pela prática de "ocultismo" para a resolução dos casos que chegavam até ele. Casos que não eram restritos às classes menos favorecidas, alguns nobres o procuravam, também, às escondidas. Esse poder não era, certamente, um poder político ou financeiro, mas algo de "sobrenatural" que as pessoas temiam. Um negro com poder? Algo inconcebível em uma época onde era quase consensual ser o negro inferior ao branco. Este é um debate que vale à pena ser desenvolvido, mas que deixarei para outra ocasião. O que importa é que esse "poder" não podia existir. A melhor maneira de reprimi-lo era reprimir as práticas que dessem algum "poder" a esses negros. 

O mesmo tipo de perseguição ocorreu na época da fundação da umbanda. Atabaques, se fossem ouvidos, eram apreendidos e as casas fechadas. Grande parte das casas antigas têm nomes sem relação direta com umbanda ou práticas religiosas negras: Tenda Espírita N. Sra. da Piedade, Tenda Espírita Mirim, Centro Espírita Caridade de Jesus, são exemplos de centros de umbanda que surgiram nas três primeiras décadas do Século XX e que não traziam em seu nome referência à umbanda. Alguns centros, tinham suas sessões públicas na cidade, sem atabaques, mas as sessões de terreiro, com cânticos aos orixás e atabaques, aconteciam longe dos grandes centros, para que não houvesse problema com a polícia (daí a expressão que centro bom é centro longe!) São várias as histórias que narram casos de prisões de dirigentes de centros de umbanda no começo do século XX.

O umbandista, desde o seu início, sempre se escondeu. Com exceção daqueles que tinham missão de levar a religião adiante. Nunca foi cobrado do umbandista um comprometimento maior com a sua religião, tal qual acontece com outras religiões. E isso ocorre por ser a essência da umbanda prestar a caridade sem cobrar nada em troca. Assume a umbanda quem quer, assume quem escolhe fazê-lo e, infelizmente, nem todos o fazem. Aliás, o certo, até como uma espécie de proteção contra o preconceito, era esconder a umbanda. Outra razão pela qual o centro bom era aquele longe, mais fácil de manter o umbandista escondido.

Enquanto essa era a postura da umbanda, a ideia de que as religiões que cultuam orixás são "malignas" vai se criando mais forte no inconsciente popular. Tem gente que nunca soube nem a razão pela qual teme a umbanda, a "macumba", mas teme. Alguns, são indiferentes. E é isso que faz com que um terreiro de umbanda depredado não gere uma comoção tão forte a ponto de mobilizar, no mundo real, fora das redes sociais, as pessoas. Se por um lado as redes sociais servem para propagar fatos de forma viral, serve, também como máscara, como um escudo que esconde a covardia das pessoas diante do mundo!

A cultura do silêncio é, e sempre foi, ligada a cultura do medo. Medo de ser rejeitado, agredido, perseguido pelas suas crenças. Se historicamente as religiões negras foram massacradas, historicamente também foi construída uma aceitação tácita desse massacre como algo natural. E é essa aceitação que faz com que alguém considere menor que um crime comum, a invasão de um terreiro de umbanda e a depredação de suas imagens. E, infelizmente, essa ainda é uma realidade.

Sobre o caso do TCP, Templo a Caminho da Paz, espero que toda a movimentação pública, política, midiática, sirva para, pelo menos, pressionar as autoridades para a solução do caso e a punição dos culpados. Enquanto tais ataques permanecerem nas manchetes, sem que seja noticiada a punição de seus autores, permanecerá no imaginário doente de algumas pessoas que a invasão a esses locais é algo diferente de um crime!

Nota do Jornal "O Dia" 08/02/2015





19 de fev. de 2014

Linha de Atendimento e suas funções (Parte I)

                 Recentemente ganhei alguns livros sobre umbanda e religiões afro brasileiras e, em um deles Rituais Negros e Caboclos de Nívio Ramos Sales, li algo sobre o qual eu discordei durante um bom tempo:

Na economia existe a lei da oferta e da procura, na umbanda, infelizmente, por diversos fatores, essa lei é usada como uma constante. O imediatismo, o agora é o predominante. O indivíduo busca respostas várias e solução de problemas que a sua sociedade não consegue responder, tampouco solucionar. 
             
            Eu sempre critiquei, e acredito que todo umbandista que ingresse em um terreiro aprende essa crítica, a busca de resultados imediatos para os problemas. Nem sempre a coisa acontece dessa forma e, em muitos casos essa acaba sendo a razão da descrença de muitos. Umbanda é magia, sim, mas não para se conseguir tudo o que se quer. Conseguir ou não o que se busca, depende de muitas variáveis e, na maioria dos casos, não basta ir uma vez a uma consulta com caboclos, pretos-velhos, ou exus. 
            Há no imaginário popular uma visão da umbanda como a prática de trabalhos para suas realizações, esse imaginário dá margem a muitos charlatões que acabam usando o nome de nossa religião para praticar trabalhos nada louváveis (amarrações, trabalhos para o mal, etc.) e até mesmo cria o espaço propício para que charlatões de diversos tipo se aproveitem dos interesses daqueles que acreditam ser essa a função da umbanda. 
            A briga entre umbandistas sérios e as pessoas que usam mal o nome da umbanda é grande, é longa e histórica. Não são poucos os livros de antropologia que destacam a umbanda como um "culto confuso" e sem definição. No livro Vovô Nagô e Papai Branco, que já comentei aqui, a Mãe de Santo do terreiro pesquisado do Recife diz que a umbanda é a religião que "tem muita invenção" [sic], além de ser a religião que "cobra dinheiro da irmandade"[sic]. Além dessa descrição, há a comparação entre a umbanda e as antigas macumbas cariocas que foram muito perseguidas por serem "religiões negras" -  no sentido literal, pois eram os negros que frequentavam; e no sentido metafórico, indicando que era uma forma de magia usada como vingança para perseguições e combate à inimigos.
             São muitas as causas da confusão que se faz ao pensar a umbanda como religião imediatista. No entanto, há algo na afirmação citada ao início desse texto que não é totalmente errada:  O indivíduo busca respostas várias e solução de problemas que a sua sociedade não consegue responder, tampouco solucionar. 
         O público que busca a umbanda é, hoje, muito diversificado. Ainda há a necessidade de esclarecer as pessoas que buscam a umbanda em relação à sua função, mas acredito que grande parte dessa visão estereotipada que mencionei aqui já está desfeita. Apesar disso, acredito que a afirmação de Nívio está correta, pois não são poucos os casos em que as pessoas que procuram um centro de umbanda pedem orientação, ajuda até mesmo para soluções jurídicas, buscam compreender sua condição. O público da umbanda, como disse, é bem diversificado. vai do pequeno empresário pedindo proteção e ajuda nos negócios, à faxineira, ao morador da favela que tenta driblar suas dificuldades diárias em relação à violência e falta de infraestrutura. Vai do mocinho ao bandido, e tudo isso seguido de um aconselhamento amigo das entidades que não julgam. Não veem cara, apenas o que há no coração das pessoas, tentando resgatar-lhes a autoestima, a força para continuar a caminhada. Para, muitas das vezes, resgatar a dignidade perdida em meio a tantas adversidades.
            Se há algo que o médiun de umbanda que vai para a linha de atendimento aprende muito rápido, ou pelo menos espera-se que aprenda, é que não se pode julgar as pessoas sem saber o que se passa no coração delas...
             Já fui muito contrária à falas como as de Nívio, pelas razões que aqui expus. Hoje repenso falas como essa e vejo que há, no fundo, uma razão de ser. Não que a umbanda vá resolver cada um dos problemas que chegam até ela, mas auxilia, acaba sendo um braço amigo que integra pessoas que são excluídas, que consola o sofrimento e resgata muitas vezes a dignidade que a sociedade não dá.
               Essa é a reflexão de hoje!


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

7 de nov. de 2013

A relação indivíduo, entidade de umbanda e terreiro.

Sônia reclamava muito de seus guias, inclusive de seu preto velho, o qual, quando incorporava, jogava-a no chão, machucando-a, e resolveu um dia não recebê-lo mais se ele continuasse a fazer isso. Seu meio problema, no entanto, era seus guias não falarem. Este fato significava que não possuíam, não incorporavam integralmente o cavalo, ficando apenas encostados nele. 
Essa preocupação de Sônia reafirma o que foi dito no capítulo II sobre a identidade do médium como pessoa. Essa identidade se constrói a partir da relação do cavalo com seus guias. Se essa relação não é completa, o médium perde a possibilidade de, através dessa máscara, ou seja, de seus guias, integrar seus diversos papéis sociais. Sônia não conseguia essa relação e, portanto, não conseguia definir sua identidade como pessoa [dentro do terreiro].
Maggie,Y; Guerra de Orixá, 3a. Ed. Ed. Zahar, 2001, pp. 102,103.

Já tem algum tempo que li o livro "Guerra de Orixás" da Yvonne Maggie. Na ocasião achei o livro tenebroso. Mas depois dos últimos acontecimentos percebo que tem boas deixas a pesquisa realizada pela Yvonne. Uma delas, e a meu ver o principal, é a forma como a identidade pessoal do médium se constrói dentro da religião (e algumas vezes fora, também). Essa questão aparece na parte final do livro e é descrita de duas formas: a) a identidade se constrói pela eficiência da relação do médium com seus guias; b) a identidade se constrói pelo reconhecimento do "poder" dos guias deste médium (e consequentemente, do médium) pelo grupo.

Quando se entra em um terreiro como médium é como se começássemos uma vida nova, onde todos os nossos conhecimentos anteriores podem ser colocados em cheque a qualquer momento. Por essa razão é aconselhável ao médium novo que mude a sua postura dentro do terreiro: que seja mais receptivo, observador, que tente prestar mais atenção naquilo que se aproxima. Digamos que haja, nessa ocasião, um novo aprendizado: aprender a lidar com as chamadas "intuições" e com as energias que se aproximam a fim de saber classificá-las como positivas ou negativas. Digamos que este seja o momento "0" (Zero) do processo de aprendizagem. Usando a metáfora do filósofo Locke, no momento inicial, na ocasião do ingresso do médium ao terreiro, este deverá ser como uma tábula rasa onde as energias que cercam o ambiente possam deixar suas impressões. Eu poderia entrar aqui em diversas questões que colocariam em jogo o uso dessa metáfora, como, por exemplo, o fato de Locke ser um empirista, filosofia que parece avessa ao tipo de coisa que trato aqui. Porém, há algo a ser experimentado neste momento "zero", mas que não se parece em nada, absolutamente, com o conceito de experiência tratada pelo empirismo filosófico. Importa que, para fins didáticos, a metáfora é útil para exemplificar o que pretendo dizer.

A etapa que se segue é: ele começa a receber a energia dos seus guias, mas ainda não as identifica. Em seguida, passa a identificá-las e diferenciá-las - a energia do caboclo é diferente da energia do preto velho - antes mesmo que o médium incorpore esses guias. Esta segunda etapa é fundamental para o bom desenvolvimento do relacionamento do médium com o terreiro que o acolhe. O bom médium é aquele que sabe dar passagem à entidade certa na hora certa. Estes dois tipos de aprendizados aqui descritos são comumente chamados de "doutrina", dada ao médium para ele não cometa gafes e nem desequilibre a energia da corrente na qual ingressa.

As duas etapas são fáceis de serem atravessadas se auxiliado por um bom Chefe de Terreiro. A terceira e quarta etapas, que descreverei agora, é que são a meu ver, as mais complicadas.

A terceira etapa é o processo de incorporação. Geralmente é a primeira a ocorrer com o médium no terreiro. Normalmente neste processo ocorrerá uma repetição gestual, que fará com que o médium identifique qual entidade está incorporando, e se essa incorporação ocorre no momento correto. Exemplo: pretos velhos vem curvados, caboclos mancam e atiram flechas, Ogum porta uma espada. A variação gestual será pequena entre os médiuns de um mesmo terreiro. Aliás, esta é uma coisa interessante a ser observada: geralmente, um médium que venha de outro terreiro, terá neste processo um gestual diferente, aprendido no seu terreiro de iniciação e que servirá para o médium, individualmente, para identificação da entidade.

A quarta etapa é quando o médium começa a receber informações a respeito de suas entidades. Normalmente este processo é o mais confuso, pois nem sempre o médium está seguro dessas informações. Muitas das vezes a certeza vem, ou de um processo de repetição da informação para o próprio médium, ou da confirmação via fala da entidade incorporada, junto ao chefe da casa. Na maior parte dos casos, a segunda forma é a que dá maior segurança ao médium. Ou seja, mesmo que o processo de repetição tenha ocorrido, o médium depende da afirmativa de outro para dar segurança e "validade" àquela informação. Isso vai desde a identificação da entidade, até informações sobre situações e procedimentos específicos. Já nesta etapa, podemos identificar a dependência que o médium tem em relação ao contexto "social" onde ocorre a transmissão da informação.

A questão é que, quando o médium muda de terreiro, o seu "contexto social" muda. Nesta mudança outras podem vir a ocorrer. Há relatos de médiuns que ao trocarem de terreiro, trocaram de entidades. Há médiuns que acabam perdendo a confiança em si mesmo, como a médium retratada por Yvonne em seu livro, tornando frágil a relação com as entidades que já conhecia anteriormente. Há outros que, por vaidade, se afastam por senti-la ferida.  O fato é que dificilmente um médium passa absolutamente ileso de um processo de mudança.

Uma das coisas que contribuem para isso é a forma como, geralmente, as casas recebem médiuns que já vem de outras casas. Eles nunca, ou quase nunca, começam em uma casa nova no mesmo estágio em que pararam antes. Faz parte de um procedimento das casas um período de adaptação e "conhecimento" deste médium, para observação, garantindo, por um lado, a manutenção da seriedade do trabalho das casas e, por outro, que o médium ingressante se mostre sério e digno da confiança da casa. Este momento inicial funciona como uma espécie de "filtro" que evita que pessoas mal intencionadas ou ditas vaidosas permaneçam e quebrem a força da corrente da casa.

A questão que levanto é: como conciliar a necessidade de manter a seriedade e o equilíbrio vibratório de uma casa, com a necessidade que o próprio médium possui de reafirmar sua mediunidade e relação com entidades? Principalmente, quando as informações que o próprio médium possuem acabam sendo legitimadas pela confirmação do chefe da casa anterior, como manter essa certeza neste período incial onde tudo é colocado em cheque?

A única resposta que vejo como possível para este caso é que os médium mudem as suas posturas em relação ao desenvolvimento. Que pensem menos em confirmações externas para as informações que suas entidades passam, que aprimorem a sua percepção em relação às energias que virão a sentir, para saber, ele mesmo, diferenciá-las sem necessidade de outrem.  É um caminho complicado, mas muito necessário nos dias atuais onde a variedade de terreiros é enorme, não apenas em número, mas em formas de pratica umbandista. Caso o médium consiga esse equilíbrio interno, independente da casa onde esteja, ficará mais fácil se adaptar à contingência de uma mudança de casa, caso seja o necessário. Claro que em certas situações é necessário poder contar com alguém mais experiente, mas o médium não pode perder de vista que, mesmo a pessoa mais experiente não carrega as mesmas energias e necessidades que ele próprio. Não se trata apenas de autoconhecimento, mas de dar uma chance a um relacionamento com as entidades que não seja totalmente dependente da aprovação prévia do terreiro, tal como sentia a médium retratada pela Yvonne em seu livro. Enfim, é mais um conselho, que uma conclusão definitiva.



10 de jun. de 2010

Instruções do Caboclo Mirin



É sempre interessante refletir sobre a forma como nos comportamos dentro das seções e durante os trabalhos espirituais!

9 de jun. de 2010

Ensinamentos de Pai Agenor

Passo rapidamente aqui para postar um vídeo do pai Agenor, gravado pouco antes de sua morte.

Para quem não conhece Pai Agenor de Miranda Rocha, foi um estudioso das religiões afro, em especial o candomblé do qual era seguidor. Foi iniciado ainda criança para escapar de uma doença, e cresceu na religião tornando-se um dos babalorixás mais influentes da Bahia. Frequentemente convocado para decidir os rumos de grande partes dos terreiros de candomblé, foi ele quem determinou que Mãe Menininha presidiria um dos terreiros mais famosos da Bahia.

Este vasto currículo, na verdade, trata apenas da parte material que retrata a figura e a importãncia de Pai Agenor. No vídeo que segue, gravado pouco antes de sua morte em 2008, podemos testemunhar a razão de tamanha influência exercida no meio religioso. Tratava-se de uma pessoa esclarecida, com uma consciência de religiosidade de poucos. Vale a pena assistir:



Mesmo sendo um vídeo curto, vale destacar a humildade e os valores éticos e morais tratados neste vídeo, tão necessários a todos os terreiros e centros espirituais. Valores que muitas vezes faltam na mente dos praticantes de nossa religião.

Segue, também, para informação complementar a versão disponível no Google books do Livro:

As Nações Kêtu: origens ritos e crenças - Os candomblés Antigos do Rio de Janeiro.

É sempre bom termos vídeos como este e pessoas como Pai Agenor com quem possamos aprender um pouco mais.

Para conhecer um pouco mais da história de Pai Agenor, coloco aqui um documentário, longa metragem, que conta um pouco da vida dele e sua relação com o candomblé. Interessante para entendermos um pouco mais esta religião.

UM VENTO SAGRADO

Sinopse do filme: O longa-metragem documental Um Vento Sagrado retrata a vida e obra de Agenor Miranda, famoso jogador de búzios de candomblé. Nascido em Luanda, no dia 8 de setembro de 1907, o Pai Agenor, ou seu Santinho - como é conhecido - é filho de pai diplomata e mãe cantora lírica. Por volta dos cinco anos, escapou de uma enfermidade desconhecida quando, já desenganado pelos médicos, uma vizinha, filha de santo, convenceu seus pais a levá-lo ao candomblé. A partir daí, foi iniciado pela célebre ialorixá Maria Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha), fundadora de um dos mais antigos candomblés de Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Curiosidade: Um Vento Sagrado é a expressão usada por Agenor Miranda para definir os Orixás, divindades da tradição religiosa Ioruba da Nigéria, do Candomblé do Brasil e da Santeria de Cuba.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Walter Lima
Elenco: - Documentário -
Roteiro: Carlos Vasconcelos Dominguez, Walter Lima
Fotografia: Mário Cravo Neto
Duração: 93 min.
Ano: 2001
País: Brasil
Gênero: Documentário
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida

LINKS PARA ASSISTIR:

Parte 1:


Parte 2



Bom Filme!

8 de jun. de 2010

Notas sobre comportamentos

Uma das coisas mais questionadas na umbanda é a ausência de uma doutrina.

Mas a grande questão é: de qual doutrina falamos? Qual a doutrina de que necessitamos?

Existem várias formas de se compreender o termo doutrina: 1) um corpo teórico, onde as diretrizes gerais de uma religião estão instituídas. Exemplos claros são o catolicismo (Novo Testamento), Judaísmo (Torah), hinduísmo (Vedantas), Budismo (os Sutras), Islamismo (Alcorão).
Neste sentido as religiões afro, de origem afro, ou com inspirações afro (como creio ser o caso da umbanda) não a possuem. Devido à origem tribal, e até alguns fatores históricos determinantes, todo conhecimento de "doutrina" é passado oralmente.
Explicando a frase antecedente: 1) origem tribal - pois os antepassados africanos passavam toda a sua cultura (não apenas religiosa, mas normativa em geral) oralmente; 2) fatores históricos - até a década de 50 a prática de religiões "afro" era terminantemente proibida. Seus membros, praticantes, eram presos e toques de atabaque, nem pensar. Por essa razão. devia-se ter cuidado para quem passar os "segredos", as "mirongas" e até mesmo com quem entrava e saia dos terreiros que, em sua grande parte, funcionavam de forma clandestina. Os centros "legais" recebiam o título de "espírita" para poderem funcionar, como até hoje pode ser visto em centros mais antigos. Confiar na pessoa errada era arriscado e podia gerar o fechamento do centro. Assim, a censura externa, acabou interiorizada na prática e na transmissão das informações; 3) "doutrina", entre aspas, por ser exatamente o que estamos questionando nesta postagem. Mas entendamos aqui, provisoriamente, doutrina como o conjundo de normas praticadas pelo religioso.
Enfim, falta na umbanda um corpo doutrinário uno, como há em outras religiões.

Outro sentido para o termo "doutrina", mais comum atualmente, é o de aprendizado, crescimento ou "evolução". Este sentido tem sua origem no Espiritismo, fundamentalmente, onde a doutrina não é apenas normativa, mas moral. Ou seja, trata-se da internalização de certos comportamentos para benefício próprio do médiun, ou do seguidor do espiritismo, que visam, não apenas a sua atuação dentro do grupo religioso, mas também na sua vida cotidiana.
Com isso, todo aquele que entra em um grupo espírita, tem, como primeira fase da sua inserção na religiosidade o aprendizado teórico e ideológico da moral necessária para a prática espirita.
O mesmo ocorre com os guias espirituais: para serem considerados "guias de luz" algumas regras devem ser atendidas, segundo a letra kardequiana.
Este sentido de "doutrina", também não existe na umbanda originariamente. Como religião tribal, toda a moral é aprendida na prática, a partir dos erros cometidos pelo praticante. É normal ouvir a expressão "levar pemba" a cada vez que é aplicado um corretivo. Corretivo este que é individual e geralmente aplicado pelo prórpio corpo espiritual, sem intervenção humana.

O que podemos concluir desta primeira explanação: a umbanda tem caráter subjetivo, pois envolve mais a interpretação individual que a coletiva. Tanto em relação à compreensão de seus preceitos (doutrina no primeiro sentido), quanto em relação ao comportamento moral do praticante (doutrina no segundo sentido). É este subjetivismo que vemos frequentemente criticado nos tempos atuais.

Como uma espécie de paliativo, alguns centros de umbanda mais novos, vem adotando a forma dos espíritas e fornecendo a seus praticantes palestras e ensinamentos de cunho moral, necessários para a prática cotidiana do terreiro. Subjaz a esta medida, uma concepção "nova" da umbanda, como vertente espiritualista. Os mais conservadores, os "tribalistas", que se maravilham com este aspecto "pitoresco" dos santos que dançam e riem como os humanos, julgam tal medida como um "embranquecimento" da umbanda, de tradição afro, mas que já não é mais o candomblé, que, por sua vez, também já não é mais a prática da "mãe África".
Sim, há ironia em minhas palavras. Pois se toda defesa "tribalista" tivesse um real cunho antropológico, seria mais fácil lidar com ela. Mas em alguns terreiros, para não dizer a maioria, a antropologia passa longe! Verger é um nome conhecido apenas de documentário, que pouco tem a ver com as práticas cotidiana. "Ele era amigo de Jorge Amado, não é?" Daí pra cair no papel de mera literatura de ficção, é um pulo, um pulinho, na verdade uma topada!

E no meio desta briga toda, "a doutrina" fica praticamente esquecida. Tanto em um sentido quanto em outro. Vira, na verdade, moeda de barganha para disputas sobre "a melhor prática". Assim, os "sentidos" da doutrina acabam esquecidos, bem como são esquecidos seus objetivos, junto com os objetivos da prática espiritual....

Com ou sem doutrinas, fato é que certos comportamentos devem ser revistos dentro da prática da umbanda. A umbanda precisa perder seus traumas históricos e se permitir uma nova prática livre das censuras. Da mesma forma como um dia se fez necessário esconder os atabaques, faz-se necessário colocá-los á mostra. Não mais esconder-se no "véu da ignorância" cultural, mas resgatar o que está sob o simbólico, mas diante dos olhos da grande parte dos praticantes. Tirar do esquecimento os grandes ensinamentos. Não mantê-los no subjetivismo, mas torná-los públicos.

É necessário que o praticante de umbanda reaprenda a ouvir, e não a reagir. Ouvir àqueles que lhes guiam, suas entidades e santos. Necessário se faz aprender a sentir, mais que vigiar. Reconhecer o outro como irmão, não como oponente. O outro, digo, não os de fora da religião ou de certo grupo, mas aqueles que estão ao nosso lado. É necessário relembrar que cada um traz consigo um livro repleto de histórias e de conhecimentos que não podem e nem devem ser menosprezados. Só assim, a umbanda poderá se tornar uma só corrente, onde todos tenham seu papel.