25 de set. de 2011

Observações Sobre o Livro "Vovô Nagô e Papai Branco" de Beatriz Góes Dantas.

Tem tempos que o blog não é atualizado, mas hoje resolvi trazer uma resenha que há tempos venho programando (já que o tempo está chuvoso e não pude fazer a trilha que desejava...rsrsrs)

No ano de 2011 uma das boas leituras que fiz e que me deu elementos interessantes para repensar a Religião UMBANDA foi o livro "Vovô Nagô e Papai Branco" de Beatriz Góez Dantas, leitura praticamente obrigatória para quem deseja aprofundar os estudos sobre a História das Religiões Africanas no Brasil.

O Livro trata, em especial, de um terreiro "Nagô Puro" do Recife, da cidade de Laranjeiras. Mas não trata APENAS de uma leitura etnográfica sobre este terreiro. Destaco como Partes interessantes do Livro o capítulo 3, onde a autora compara a narrativa da Mãe de Santo com elementos históricos sobre o trato com os escravos pós abolição. Grande parte dos escravos alforriados, principalmente os que trabalhavam nas casas grandes, se mantiveram em seus trabalhos em troca de benefícios, tais como: escola para os filhos, garantia de médicos e outras regalias que dificilmente seriam mantidas caso decidissem sair dos cuidados de seus antigos senhores, dada as condições precárias que os negros enfrentavam pós abolição em uma sociedade racista. Estes elementos destacados no capítulo se tornaram material de aula para mim. Toda vez que abordo a questão do trabalho com meus alunos de EJA, e das condições de trabalho, trabalho alienado, etc., menciono a política de benefícios destacando que esta prática existe desde aquela época. É uma forma deles pensarem o que está por trás dessa política, e ver que a ideologia paternalista não é a ideal, já que data de uma época pouco amistosa para os negros libertos. Como grande parte dos meus alunos são negros, a aula acaba tendo uma ótima recepção.

Outro ponto que destaco do livro é o capítulo 4 que trata da "Construção e significado da pureza Nagô". Este capítulo traz, como elemento interessante, a origem daquilo que foi classificado como PURO nas religiões afro. Inicialmente esta designação partiu dos chefes de casa que estavam dispostos a, junto com intelectuais e antropólogos (Gilberto Freyre, Artur Ramos), a revitalizar a cultura negra, coisa que nem todos os terreiros e barracões estavam dispostos, pela desconfiança natural que se tinha dos "de fora" em uma época de perseguições violentas à religião. Posteriormente, quando essa "moda de revitalização" chegou à Bahia (com Verger e Jorge Amado, junto a outros antropólogos) a noção de pureza foi ressignificada, passando a se referir aos terreiros que continham mais traços comum com os remanescentes cultos africanos (remanescentes, pois hoje em dia a África é quase toda protestante e católica e o culto primitivo aos Orixás é fortemente combatido como prática de feitiçaria). Enfim, por um lado a pureza significava valores regionais típicos, por outro a pureza significava a proximidade do culto com a Mãe África. Mas é interessante destacar que, tanto de um lado como de outro, era consensual que a prática do culto visando o mal, ou fazer mal a outrém era, era desprezada.
Desde o princípio está envolvido no conceito de "pureza" a prática do culto com o objetivo de trazer força e prosperidade aos filhos de santo. A cura de males que possam ser causados por "Orixás insatisfeitos". A ideia mais comum é que cuidando do santo se garante uma vida feliz e próspera ao filho de santo.

Onde entra a umbanda nessa história? Entra como uma variante impura dos cultos afros. Na classificação da autora, que segue o modelo do culto Nagô do Recife, a umbanda é tão degenerada quanto eram os cultos Malês e o Toré. Os Malês sumiram por praticarem o mal, o Toré é misturado e impuro por trabalhar com caboclos e praticar curandeirismo e magia, a umbanda é impura porque reúne elementos dos ritos anteriores e ainda cobra dinheiro pelos serviços prestados. Assim, o nome umbanda, carrega neste contexto, tudo o que há de ruim e que venha denegrir a imagem das religiões africanas "puras".

O interessante notar, neste contexto, é que a umbanda historicamente sempre foi colocada à margem. À margem do próprio africanismo, que hoje alguns terreiros se esforçam em recuperar, e à margem do espiritismo, escola da qual, alguns afirmam, a umbanda é filha (cujos problemas já levantei em postagens anteriores). O trabalho da Beatriz traz questões interessantes a ser pensada: será possível, de fato, um "resgate africanista" na umbanda como propõem alguns autores? Recentemente me deparei com um livro, uma coletânea de um congresso sobre religiões afro-brasileiras, onde há um capítulo dedicado ao resgate africano dentro da umbanda. Será mesmo possível? Pensar numa definição para a umbanda dentro do contexto histórico de religiões brasileiras já catalogadas é difícil, já que sua definição parece sempre depender do ponto de vista do referencial. Cabe perguntar qual a forma mais correta, e menos estranha, pela qual o umbandista pode definir legitimamente a sua religião.

Quem quiser ter acesso ao texto da Beatriz, está disponível no banco de teses e dissertações da UNICAMP. Basta fazer a inscrição para poder baixar o texto no seguinte link:

5 comentários:

  1. Na leitura do livro percebi um certo preconceito da autora em relação a outras nações do candomble se referindo as mesmas como erradas , um preconceito com seguidores dessas nações citando como seguidas por mulheres da vida mulheres sujas.Realmente um livro que deixa muito a desejar no contexto histórico sem falar das várias contradições e redundâncias no caminho a auto glorificação da pureza feito pela autora.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário! Mas temos que observar que o livro é um trabalho de antropologia e visa retratar como, culturalmente, as nações se distinguem umas das outras. A acusação de uma outra nação como "suja", "impura", implica na afirmação da pureza daquela que afirma. É incorreto, mas era algo muito comum do início do século até meados do século XX. Deixa a desejar historicamente por não ser um trabalho de história, muito embora pontue certas questões relevantes para o tratamento da questão. Em todo caso, acho que vale a leitura para conhecermos mais como a religiosidade afro foi abordada nos diferentes estudos antropológicos.

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Uma belíssima obra Parabéns a esta genial Sergipana.

    ResponderExcluir
  4. Uma belíssima obra Parabéns a esta genial Sergipana.

    ResponderExcluir