27 de out. de 2016
Pontos Riscados
27 de ago. de 2016
Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)
O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.
Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.
Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.
O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs
Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais!
15 de fev. de 2016
Há 7 anos atrás...
São coisas assim que fazem com que alguns momentos sejam eternos em si mesmos.
19 de fev. de 2014
Linha de Atendimento e suas funções (Parte I)
7 de nov. de 2013
A relação indivíduo, entidade de umbanda e terreiro.
Já tem algum tempo que li o livro "Guerra de Orixás" da Yvonne Maggie. Na ocasião achei o livro tenebroso. Mas depois dos últimos acontecimentos percebo que tem boas deixas a pesquisa realizada pela Yvonne. Uma delas, e a meu ver o principal, é a forma como a identidade pessoal do médium se constrói dentro da religião (e algumas vezes fora, também). Essa questão aparece na parte final do livro e é descrita de duas formas: a) a identidade se constrói pela eficiência da relação do médium com seus guias; b) a identidade se constrói pelo reconhecimento do "poder" dos guias deste médium (e consequentemente, do médium) pelo grupo.
Quando se entra em um terreiro como médium é como se começássemos uma vida nova, onde todos os nossos conhecimentos anteriores podem ser colocados em cheque a qualquer momento. Por essa razão é aconselhável ao médium novo que mude a sua postura dentro do terreiro: que seja mais receptivo, observador, que tente prestar mais atenção naquilo que se aproxima. Digamos que haja, nessa ocasião, um novo aprendizado: aprender a lidar com as chamadas "intuições" e com as energias que se aproximam a fim de saber classificá-las como positivas ou negativas. Digamos que este seja o momento "0" (Zero) do processo de aprendizagem. Usando a metáfora do filósofo Locke, no momento inicial, na ocasião do ingresso do médium ao terreiro, este deverá ser como uma tábula rasa onde as energias que cercam o ambiente possam deixar suas impressões. Eu poderia entrar aqui em diversas questões que colocariam em jogo o uso dessa metáfora, como, por exemplo, o fato de Locke ser um empirista, filosofia que parece avessa ao tipo de coisa que trato aqui. Porém, há algo a ser experimentado neste momento "zero", mas que não se parece em nada, absolutamente, com o conceito de experiência tratada pelo empirismo filosófico. Importa que, para fins didáticos, a metáfora é útil para exemplificar o que pretendo dizer.
A etapa que se segue é: ele começa a receber a energia dos seus guias, mas ainda não as identifica. Em seguida, passa a identificá-las e diferenciá-las - a energia do caboclo é diferente da energia do preto velho - antes mesmo que o médium incorpore esses guias. Esta segunda etapa é fundamental para o bom desenvolvimento do relacionamento do médium com o terreiro que o acolhe. O bom médium é aquele que sabe dar passagem à entidade certa na hora certa. Estes dois tipos de aprendizados aqui descritos são comumente chamados de "doutrina", dada ao médium para ele não cometa gafes e nem desequilibre a energia da corrente na qual ingressa.
As duas etapas são fáceis de serem atravessadas se auxiliado por um bom Chefe de Terreiro. A terceira e quarta etapas, que descreverei agora, é que são a meu ver, as mais complicadas.
A terceira etapa é o processo de incorporação. Geralmente é a primeira a ocorrer com o médium no terreiro. Normalmente neste processo ocorrerá uma repetição gestual, que fará com que o médium identifique qual entidade está incorporando, e se essa incorporação ocorre no momento correto. Exemplo: pretos velhos vem curvados, caboclos mancam e atiram flechas, Ogum porta uma espada. A variação gestual será pequena entre os médiuns de um mesmo terreiro. Aliás, esta é uma coisa interessante a ser observada: geralmente, um médium que venha de outro terreiro, terá neste processo um gestual diferente, aprendido no seu terreiro de iniciação e que servirá para o médium, individualmente, para identificação da entidade.
A quarta etapa é quando o médium começa a receber informações a respeito de suas entidades. Normalmente este processo é o mais confuso, pois nem sempre o médium está seguro dessas informações. Muitas das vezes a certeza vem, ou de um processo de repetição da informação para o próprio médium, ou da confirmação via fala da entidade incorporada, junto ao chefe da casa. Na maior parte dos casos, a segunda forma é a que dá maior segurança ao médium. Ou seja, mesmo que o processo de repetição tenha ocorrido, o médium depende da afirmativa de outro para dar segurança e "validade" àquela informação. Isso vai desde a identificação da entidade, até informações sobre situações e procedimentos específicos. Já nesta etapa, podemos identificar a dependência que o médium tem em relação ao contexto "social" onde ocorre a transmissão da informação.
A questão é que, quando o médium muda de terreiro, o seu "contexto social" muda. Nesta mudança outras podem vir a ocorrer. Há relatos de médiuns que ao trocarem de terreiro, trocaram de entidades. Há médiuns que acabam perdendo a confiança em si mesmo, como a médium retratada por Yvonne em seu livro, tornando frágil a relação com as entidades que já conhecia anteriormente. Há outros que, por vaidade, se afastam por senti-la ferida. O fato é que dificilmente um médium passa absolutamente ileso de um processo de mudança.
Uma das coisas que contribuem para isso é a forma como, geralmente, as casas recebem médiuns que já vem de outras casas. Eles nunca, ou quase nunca, começam em uma casa nova no mesmo estágio em que pararam antes. Faz parte de um procedimento das casas um período de adaptação e "conhecimento" deste médium, para observação, garantindo, por um lado, a manutenção da seriedade do trabalho das casas e, por outro, que o médium ingressante se mostre sério e digno da confiança da casa. Este momento inicial funciona como uma espécie de "filtro" que evita que pessoas mal intencionadas ou ditas vaidosas permaneçam e quebrem a força da corrente da casa.
A questão que levanto é: como conciliar a necessidade de manter a seriedade e o equilíbrio vibratório de uma casa, com a necessidade que o próprio médium possui de reafirmar sua mediunidade e relação com entidades? Principalmente, quando as informações que o próprio médium possuem acabam sendo legitimadas pela confirmação do chefe da casa anterior, como manter essa certeza neste período incial onde tudo é colocado em cheque?
A única resposta que vejo como possível para este caso é que os médium mudem as suas posturas em relação ao desenvolvimento. Que pensem menos em confirmações externas para as informações que suas entidades passam, que aprimorem a sua percepção em relação às energias que virão a sentir, para saber, ele mesmo, diferenciá-las sem necessidade de outrem. É um caminho complicado, mas muito necessário nos dias atuais onde a variedade de terreiros é enorme, não apenas em número, mas em formas de pratica umbandista. Caso o médium consiga esse equilíbrio interno, independente da casa onde esteja, ficará mais fácil se adaptar à contingência de uma mudança de casa, caso seja o necessário. Claro que em certas situações é necessário poder contar com alguém mais experiente, mas o médium não pode perder de vista que, mesmo a pessoa mais experiente não carrega as mesmas energias e necessidades que ele próprio. Não se trata apenas de autoconhecimento, mas de dar uma chance a um relacionamento com as entidades que não seja totalmente dependente da aprovação prévia do terreiro, tal como sentia a médium retratada pela Yvonne em seu livro. Enfim, é mais um conselho, que uma conclusão definitiva.
27 de ago. de 2009
Os sonhos (Parte III)
Na umbanda muitas coisas são questionadas, a começar pelas formas rituais. Como não existe um "corpus" doutrinário, cada casa de umbanda é estruturada conforme as orientações da entidade fundadora, e, mantén características que tem sua origem muita das vezes na cultura e fundamentos trazidos pela entidade em seus aprendizados anteriores. Neste caso, podemos dizer que o "contato" é ancestral e traz ao presente coisas que foram esquecidas no tempo.
Muita gente começa a discutir esses fundamentos e acusam-se de falsários, ou de charlatões, mas se esquecem que somos fruto de uma cultura miscigenada e que é natural que certas casas (e suas entidades fundadoras) tendam mais para o indigena, outras mais para os africanistas e ainda aqueles que pregam um certo "orientalismo" que nem sempre possui origem kardecista.
O ato de "passar fundamentos" de entidade para médiun - tanto no âmbito da estruturação de uma casa, quanto no êmbito pessoal de desenvolvimento e aprendizado do médiun - é um meio de conservação da memória. Conservação de todas as práticas rituais que já existiram em diferentes momentos do tempo e que são trazidos para um presente por meio de sonhos, intuições, etc. Isso torna difícil o julgamento de "certo e errado" que muitos umbandistas se pretendem.
Basta observar: em um mesmo terreiro, temos entidades que se referem a Deus como Olorum, outras que se referem a Zambi (nomenclaturas diferentes, cuja origem na África pertence a regiões e cultos distintos). Do mesmo modo, temos caboclos que chamam seus consulentes de curumins, e outros que se referem apenas como "filho". Temos uma entidade que trabalhará com energias sutis e simples e outras que só sabem trabalhar com elementos materiais mais pesados. Entidades que fumam e outras não. Algumas só precisam de uma vela e um copo d'água, outras precisam de ervas e ainda há aquelas que precisam de sementes para suas firmezas. Uma entidade dirá para você rezar pra Santo Antônio, outra pedirá uma firmeza para exu. Mas no fundo os significados e sentidos se assemelham, ambas almejam a proteção do consulente.
Há ainda entidades que falarão íntimamente a seus médiuns de Orixás que já não são mais cultuados hoje, mas que elas cultuaram, e, neste caso, a linguagem será adaptada para o convívio social do terreiro. Porém, a memória desses Orixás não se perdem de todo, são conservadas na intimidade do médiun, que certamente aprenderá a usar a energia daquele orixá esquecido, mas sob um novo nome que será melhor aceito na comunidade.
A umbanda, na verdade, é o lugar da memória. Onde TODAS as memórias se mantém vivas. A beleza da umbanda reside justamente em um duplo aspecto: o aprendizado coletivo como demarcando um Lugar para a memória acontecer, e o pessoal onde cada uma das culturas, cada individualidade, sobrevive a ação do tempo e do espaço.
Os sonhos são, muitas vezes, o local ideal para a transmissão dessas mensagens, dessas individualidades de forma detalhada, já que a correria do dia-a-dia do mundo moderno faz com que naturalmente tenhamos pouco tempo a dedicar para o labor mediúnico. Sem contar que nos sonhos, nossos egos são parcialmente desligados, e com eles parte de nossos preconceitos. Tudo isso é previsto pela psicologia que nos diz que parte de nossa censura consciênte é eliminada nos sonhos. Com isso nossos guias, mentores, entidades e ancestres conseguem nos transmitir o necessário, sem que interfiramos ou critiquemos.
Me referi a um documentário, na postagem anterior, que é um exelente exemplo disto. Passo ele agora para o baú:
A'uwê - Moyngo - O Sonho de Maragareum
O Vídeo é um documentário onde algo muito comum a cultura indígena nos é passado, ainda mais em tempos onde a cultura "original" começa a se perder: Maragareun sonha com seus antepassados e estes mostram como certos rituais aconteciam e devem ser realizados. Ou seja, é por meio do sonho, do inconsciente, que a cultura indígena mantém a sua conservação. É por meio do sonho que a memória cultural se conserva.
BOM FILME!
26 de ago. de 2009
Os sonhos (Parte II)
Jung ao estudar as religiosidades, destaca este aspecto histórico do sonho e confronta com a nossa realidade atual e cética, que descarta qualquer possibilidade de ver neles algum tipo de mensagem ou conhecimento:
Gilgamesh, entretanto, escapou à vingança dos deuses. Teve sonhos que o preveniram contra esses perigos e ele os levou em consideração. Os sonhos lhe mostraram como vencer o inimigo. Quanto ao nosso paciente, homem de uma época em que os deuses foram eliminados e até mesmo passaram a gozar de má reputação, também teve sonhos, mas não os escutou. Como um homem inteligente poderia ser tão supersticioso a ponto de levar os sonhos a sério? O preconceito, muito difundido, contra os sonhos é apenas um dos sintomas da subestima muito mais grave da alma humana em geral. Ao magnífico desenvolvimento científico e técnico de nossa época, correspondeu uma assustadora carência de sabedoria e de introspecção. É verdade que nossas doutrinas religiosas falam de uma alma imortal, mas são muito poucas as palavras amáveis que dirige à psique humana real; esta iria diretamente para a perdição eterna se não houvesse uma intervenção especial da graça divina. Estes importantes fatores são responsáveis em grande medida — embora não de forma exclusiva —, pela subestima generalizada da psique humana. Muito mais antigo do que estes desenvolvimentos relativamente recentes são o medo e a aversão primitivos contra tudo o que confina com o inconsciente. (C.G. JUNG - Psicologia e Religião)
Os sonhos na verdade, desde muito tempo são fontes de informações, seja sobre nós mesmos, seja oriundas de "espíritos e Deuses". Segue ainda uma passagem do mesmo texto de Jung e que mostra como a influência da mentalidade ocidental afetou muitas culturas primitivas no que tange a consideração dos sonhos:
A vida do primitivo é acompanhada pela contínua preocupação da possibilidade de perigos psíquicos, e são numerosas as tentativas e procedimentos para reduzir tais riscos. Uma expressão exterior deste fato é a criação de áreas de tabus. Os inumeráveis tabus são áreas psíquicas delimitadas que devem ser religiosamente observadas. Certa vez em que visitava uma tribo das vertentes meridionais do Monte Elgon, cometi um erro terrível. Durante a conversa, quis indagar acerca da casa dos espíritos que muitas vezes encontrara nas florestas, e mencionei a palavra selelteni, que significa "espírito". Imediatamente todos se calaram e eu me vi em apuros. Todos desviavam a vista de mim, que pronunciara, em voz alta, uma palavra cuidadosamente evitada, abrindo com isto o caminho para as mais perigosas conseqüências. Tive que mudar de assunto, a fim de poder continuar a conversa. Eles me garantiram que nunca tinham sonhos, privilégio do chefe da tribo e do curandeiro. Este último logo me confessou que não tinha mais sonhos, pois em seu lugar a tribo tinha agora o comissário do distrito. "Depois que os ingleses chegaram ao país, não temos mais sonhos — disse ele —; o comissário sabe tudo a respeito das guerras, das enfermidades, e onde devemos viver". Esta estranha afirmação se deve ao fato de que os sonhos anteriormente constituíam a suprema instância política, sendo a voz de mungu (o numinoso, Deus). Por isso seria imprudente para um homem comum deixar surgir a suspeita de que tivesse sonhos.
Interessante notar acima que, nas culturas primitivas eram dos sonhos do curandeiro e do chefe que vinham a ordenação social e política daquela cultura. O sonho, neste caso, servia como meio de apreensão de normas e condutas passadas aos mais velhos por seus ancestrais. Um exemplo interessante disso encontramos em um documentário sobre uma tribo indígena brasileira, que colocarei aqui no Baú na próxima postagem.
A questão é, a humanidade de forma geral, em diversas e diferentes culturas, sempre consideraram os sonhos como fonte de conhecimentos e meios de receber mensagens do mundo misterioso que desconhecemos quando da vigília:
Os sonhos são a voz do desconhecido, que sempre está ameaçando com novas intrigas, perigos, sacrifícios, guerras e outras coisas molestas. (...) Há inúmeros ritos mágicos cuja única finalidade é a defesa contra as tendências imprevistas e perigosas do inconsciente. O estranho fato de que o sonho representa, por um lado, a voz e a mensagem divinas e, por outro, uma inesgotável fonte de tribulações, não perturba o espírito primitivo. Encontramos resquícios deste fato primitivo na psicologia dos profetas judeus. Muitas vezes eles hesitam em escutar a voz que lhes fala. E — é preciso admitir — não era fácil para um homem piedoso como Oséias casar-se com uma mulher pública, para obedecer a ordem do Senhor. Desde os albores da humanidade observa-se uma pronunciada propensão a limitar a irrefreável e arbitrária influência do "sobrenatural", mediante fórmulas e leis. E este processo continuou através da história, sob a forma de uma multiplicação de ritos, instituições e convicções. Nos dois últimos milênios a Igreja cristã desempenha uma função mediadora e protetora entre essas influências e o homem. Nos escritos da Idade Média não se nega que em certos casos possa haver uma influência divina nos sonhos, mas não se insiste sobre este ponto, e a Igreja se reserva o direito de decidir, em cada caso, se um sonho constitui ou não uma revelação genuína.
Num excelente tratado sobre os sonhos e suas funções diz Benedictus Pererius S. J.: "Com efeito, Deus não está ligado às leis do tempo e não precisa de ocasiões determinadas para agir, pois inspira seus sonhos em qualquer lugar, sempre que quiser e a quem quiser". A passagem seguinte lança uma luz interessante sobre as relações entre a Igreja e o problema dos sonhos: "Lemos com efeito, na vigésima segunda Colação de Cassiano, que os antigos mestres e guias espirituais dos monges eram versados na investigação e interpretação cuidadosas da origem de certos sonhos". Pererius classifica os sonhos da seguinte maneira: ... "muitos são naturais, vários são humanos e alguns podem ser divinos". Os sonhos têm quatro causas: 1) doença física; 2) afeto ou emoção violenta, produzidos pelo amor, pela esperança, pelo medo ou pelo ódio; 3) o poder e a astúcia do demônio, isto é, de um deus pagão ou do diabo cristão. (...) ; 4) sonhos enviados por Deus. Relativamente aos sinais que indicam origem divina de um sonho diz o autor “...sabemo-lo pelo valor das coisas manifestadas no sonho, ou seja: se, graças a esse sonho, a pessoa fica sabendo de coisas cujo conhecimento só poderia ser alcançado por uma concessão ou dom especial de Deus. Trata-se dos fatos que a Teologia das escolas chama de futuros e daqueles segredos do coração encerrados no mais recôndito da alma escapando por completo ao conhecimento humano e, finalmente, dos mistérios supremos de nossa fé, que não podem ser conhecidos senão por revelação do próprio Deus (!!)..." Por último, chega-se ao conhecimento de seu caráter (divino), principalmente por uma iluminação e uma comoção interior mediante a qual Deus aclara a mente do homem e toca a sua vontade de tal modo, que o convence da veracidade e autenticidade de seu próprio sonho; reconhece também Deus como seu autor, com uma certeza e evidência tão grandes que é obrigado a acreditar, sem a mínima sombra de dúvida".
Estas citações são úteis para mostrar que, longe do que parece, considerar os sonhos como meio de contato com realidades e conhecimentos de origem "sobrenatural" não é novo. Ao contrário, é quase tão antigo quanto a própria humanidade. A inovação Espírita está apenas no fato de tentar estudar sistematicamente os sonhos como elementos mediúnicos, ou seja, de contatos com espíritos.
Coisa curiosa de se notar na última citação, é que os sonhos quando possuem sua origem em um contato "divbino", vêm acompanhados com uma sensação de certeza íntima e absoluta despertada na mente. Não acho que essa característica seja apenas acidental, ou que seja apenas uma descrição "romântica" que vise marcar a distinção entre os sonhos comuns e Místicos. Acho que cada um de nós, ao termos certos sonhos, devemos investigar intimamente as sensações que ele trouxe e depois avaliar internamente a possibilidade de considerarmos "reais ou quiméricos".
Por mais racionais que sejamos, sempre há o que nos escapa a razão, o que apenas pode ser sentido e não falado, nem transmitido por palavras. Há certos sentimentos que acompanham tais sonhos e estes não devem ser ignorados, pois são eles que nos permitem decifrar intimamente o seu significado e a importância que tem em nossas vidas, que são apenas nossas e de mais ninguém. Pois ninguém pode viver a vida do outro, sentir o sentimento do outro e pensar pelas idéias do outro. Há uma espécie de "sentido privado" nestes sonhos que nenhuma teoria pode decifrar de forma adequada, mas apenas apontar...
Porém os sonhos não são Apenas um meio de contato nosso com espíritos. Lembremos que somos uma alma imortal e, segundo premissas estabelecidas pelas religiões espiritualistas, com várias e várias encarnações. Portanto, não somos apenas o nosso Ego atual, mas a soma de todos os egos que já tivemos e que constintui um sentido de "EU" muito superior àquele proferido na auto-referência cotidiana. A psicologia quando aponto os sonhos para o incosnciênte, não erra. Pois estes vários egos que já existiram, pertencem muitas das vezes a esta esfera psicológica a qual os sonhos tem acesso. Em certas ocasiões podem nos ocorrer sonhos que remetam a qualquer destes egos perdidos, ou até mesmo um contato com este EU maior, sem a interferência de nenhum ego.... Porém isso é tema para outra postagem.
Assim que eu conseguir melhor compreender essas relações eu as colocarei aqui no baú.
Os sonhos (Parte I)
Porém, ao se ingressar em uma religião como a umbanda, candomblé ou espiritismo, grande parte desses conceitos já culturalmente arraigados no nosso modo de vida devem ser revistos. Não importa se a pessoa é médiun dentro do terreiro ou se é apenas um indivíduo comum. Deverá rever este conceito de sonho que lega a eles um papel muitas vezes secundário em nossas vidas.
Os sonhos permitem a nós, segundo as doutrinas espiritualistas, um religar com o mundo que conscientemente desconhecemos, mundo que pertence a nossos guias, Orixás, encestrais, mundos internos, verdades internas que nada de ilusório são. Retratam, as vezes, verdades esquecidas no nosso consciente comum da vigília, mas que resistem e existem intependente de nossa vontade.
São nos sonhos que, grande parte das vezes, nos são passadas mensagens, aprendizados, a respeito de nós mesmos e da espiritualidade. Em parte a psicologia tem razão, mas devemos entender por incosnciênte, algo totalmente diferenciado dela. Inconsciênte pode remeter a consciência mais ampla que possuimos, mas que o ego faz apagar no dia a dia.
Sonhar, segundo Kardec, é "Emancipar a Alma" (ver: capítulo 8 da Parte II do Livro dos Espíritos). No entanto as formas pelas quais podemos podemos emancipar nossa alma excedem as descritas no texto de kardec: 1) podemos nos emancipar do ego e por meio dos sonhos ter contato com outras identidades nossas, de vidas anteriores ou mesmo uma identidade superior onde se revela o que somos independentemente do nosso ego; 2) podemos emancipar nossa alma do corpo e manter o ego, neste caso podemos viajar junto a outros espíritos emancipados, ver locais novos, ter novas aprendizagens. Acredite, este meio é muito utilizado por entidades e guias espirituais. As vias mencionadas não são as únicas, existem muitas outras maneiras. Os sonhos são até hoje tema de pesquisa tanto em neurociência quanto nas searas espíritas. E quando as duas se encontram, nossa! São tantos meandros técnicos e formas distintas de explicar o fenômeno dos sonhos que jamais poderíamos esgotá-lo em um único post.
As investigações sobre os sonhos adquirem novos nomes, também: Projeciologia, expanção da consciência, até mesmo a famosa "meditação" pode servir de portal para experiências e contatos oníricos.
Mas o que importa destacar aqui sobre os sonhos?
Importa destacar que, ao contrário do que julgam algumas teorias psicológicas nem todos os sonhos são fragmentados e desprovidos de sentidos. por vezes podemos ter sonhos com início, meio e fim. Tais sonhos, muitas das vezes, trazem informações preciosas sobre nós mesmos e/ou sobre nossas entidades. Categorias como vivacidade, além da coerência, podem ajudar a identificar os sonhos que possuem algum conteúdo interessante daqueles que são meras composições arbitrárias da memória. Quem já não despertou de um sonho com a sensação física deste sonho? Este é um traço de "vivacidade" que pode caracterizar uma projeção durante o sono, ou algum contato com orientadores espirituais.
A interpretação desses sonhos cabe a cada "autor". Ou seja, a pessoa que teve tal sonho e apenas a ela, pois muitas vezes eles tratam de experiências pessoais, ou aprendizados que dizem respeito apenas ao indivíduo que sonha.
Muitas vezes estes sonhos nos parecem sem sentido imediatamente, mas o tempo cuidará de trazer eventos que nos mostrem o sentido que tais sonhos possam ter.
Seguem algums artigos que podem ajudar a compreender a questão dos sonhos, segundo a doutrina espírita:
Porém, fiquemos atentos, pois, na realidade, nada do que hoje podemos estudar no espiritismo sobre os sonhos é novo na história humana!
A doutrina espírita apenas ajuda a compreender melhor este fenômeno já muito conhecido e estudado na história humana.
