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27 de ago. de 2016

Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)

Essa postagem é um pouco inspirada no artigo "Eram os gregos macumbeiros?". Porém em uma vertente diferente. 

Ultimamente tenho me voltado bastante para filosofia grega e dentre tantos preparos para aula, pensei: porque não aproveitar o ensejo para pesquisar algo que me interesse? E assim comecei um estudo que já tem alguns anos eu desejava fazer. Tentar entender um pouco melhor o conceito de DAEMON no pensamento socrático, tal qual reproduzido por Platão (e Xenofantes, também, muito embora não tenha me aprofundado nesse segundo autor).

No meio dos meus estudos lembrei que no Evangelho Segundo o Espiritismo há um tópico, logo na introdução, só sobre como Sócrates teria sido um "precursor" das ideias cristãs - acho (meio hereticamente) que não é bem assim, e espero poder falar disso mais a frente. Mas importa, nesse primeiro momento que o Espiritismo considera Sócrates como um dos primeiros pensadores a falar sobre reencarnação e sobre espíritos que nos acompanham, DAEMONES, que seriam, na visão kardecistas como mentores espirituais.

Os artigos que encontrei sobre o tema mostram que parte da condenação de Sócrates envolve não apenas o fato dele ser considerado um "aliciador de jovens", no sentido de disseminar entre eles a reflexão, o questionamento sobre temas básicos como "a justiça", "o bem", etc. Está presente também na condenação de Sócrates a acusação de subverter as crenças estabelecidas, o que alguns interpretam em como não crer nos deuses e de substituí-los por outros seres (que seriam os daemones). Para compreender melhor isso é necessário entender: (1) se tais entidades já estavam presentes na religiosidade grega; (2) a forma como Sócrates pessoalmente se relacionava com seu daemon. Ao falarmos dessa segunda parte é que a questão do título desse post se coloca.

Sobre o tópico (1) podemos explicar em linhas gerais que desde Hesíodo (bem antes de Sócrates) os daemones já faziam parte da religiosidade grega. Eles eram subordinados à um Theos, um Deus. E eram responsáveis por acompanhar os homens (um para cada homem) para garantir que seu destino se cumprisse, mas sem interferir nisso. Ou seja, não havia nenhum tipo de comunicação entre um homem e seu daemon pessoal, nem para o bem, nem para o mal. No final da vida (e isso o kardecismo fala certo) é o daemon o responsável por conduzir a alma "do seu humano" pelo Hades.

A grande diferença que podemos encontrar entre os daemones clássicos e os que são referidos por Sócrates, é que, diferente do que diria a religiosidade, Sócrates conseguia "ouvir" conselhos de seu daemon. O daemon, não agia, deixava as escolhas por conta de Sócrates, mas o aconselhava de vez em quando. E é essa relação com o seu daemon pessoal que gerou a grande confusão. Como, de acordo com Hesíodo, os daemons apenas selam para que os destinos sejam cumpridos sem nunca interferir (nem comunicar nada), era uma afronta Sócrates estabelecer uma relação de camaradagem com seu daemon pessoal. Na cabeça dos gregos, Sócrates estava substituindo a crença nos deuses pela crença em seu daemon, como se ele fosse a divindade. 

Alguns interpretes consideram que a acusação de Sócrates era equivoca, e que não se trata de uma "substituição de divindades", mas sim da ressignificação dos daemones, já que antes de Sócrates essa comunicação não ocorria (não que a gente saiba...rs) O próprio Sócrates, em sua defesa, argumentou que Daemones são mensageiros dos Deuses, cada um subordinado a um Deus, crer nos daemones, implica necessariamente crer nos deuses que os criaram e os colocaram para guardar os homens. A diferença é que Sócrates recebia e acolhia os conselhos dados por seu daemon (que pelo que li era enviado por Apolo). Enfim, o problema todo estava, na verdade, no fato de Sócrates se comunicar com esses ser "dividos" e tê-lo como conselheiro. E por isso veio a questão: Seria Sócrates um Médiun?

Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, sim. O contato de Sócrates com o daemon representa o que hoje se vê nos contatos mediúnicos com mentores espirituais. 

Mas esse é um blog sobre umbanda, certo? Por que abordar esse tema aqui? 
Cabe lembrar que proponho não um mero acordo com o Espiritismo (lá no começo do texto) mas uma leitura de certo modo herética do texto de Kardec. 

Quando Kardec menciona Sócrates, o faz no sentido dele ser um precursor de idéias cristãs que estão presentes no espiritismo. Mas será que é isso mesmo? Vejamos: no espiritismo os mentores espirituais não são enviados por Deuses e nem subordinado à deuses. Já na umbanda podemos encontrar algo bem mais parecido com o que os gregos falavam sobre esses seres, uma vez que todos os espíritos trabalhadores de umbanda são agrupados em falanges que respondem a um Orixá (seja esse Orixá interpretado uma deidade ou como força da natureza). Talvez isso ocorra justamente por ter uma "raiz" pagã em ambos os casos: O panteão grego não era cristão, assim como o panteão dos Orixás não era cristão em sua origem.

Ao que diz respeito aos daemones, creio que eles sejam mais próximos dos guias espirituais de umbanda, que dos mentores espíritas, pelo fato deles serem ordenados, organizados, conforme os deuses do olimpo. 

Mas o Evangelho afirma que Sócrates é um precursor das ideias do cristianismo. Afirma, também, que nada do que ele traz é absolutamente novo na história da humanidade. A própria proposta do Evangelho de Kardec é apresentar uma releitura de passagens do novo testamento à luz da doutrina espírita, mostrando que a doutrina não é contraditória com o texto sacro. Mas se é assim, porque ainda vemos tamanha resistência dos católicos em aceitarem a doutrina espírita? Seria puro preconceito? Será que Sócrates, os daemones, a reencarnação são compatíveis com os dizeres de Jesus, de acordo com o cristianismo apostólico romano que conhecemos? Não. E nem dá para afirmar que historicamente em algum momento o cristianismo tenha aceito teorias similares ao que prega o Espiritismo. É uma afirmação forte, sim. Mas uma afirmação baseada nas cruzadas que catequizavam pelo sangue, bem como nas perseguições e condenações das Heresias.

Historicamente o sec. XIII foi decisivo em relação à consolidação de determinadas doutrinas católicas. Dois eventos marcaram parte um momento de "depuração" da doutrina para transformá-la no que conhecemos hoje.

O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.

Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.

Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.

O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs

Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais! 



3 de abr. de 2016

A Legitimação da Umbanda como Religião (notas)

Algum tempo atrás eu recebi um PDF do livro  O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda do Leal de Souza. A obra de 1932 (creio eu) retrata alguns aspectos da umbanda, principalmente da praticada na Tenda do Zélio de Moraes, cujo autor presidia a segunda filial.  

Achei interessante, inicialmente por ter já lido trecho do livro citado no Umbanda do João de Freitas, para quem já dediquei uma postagem aqui. Mas ao começar a leitura o interesse aumentou. Logo de cara:

O Sr. Leal de Souza, nos seus artigos sobre “O Espiritismo e as Sete Linhas de Umbanda”, não vai fazer propaganda, porém, elucidações, mostrando-nos, as diferenciações do espiritismo no Rio de Janeiro, as causas e os efeitos que atribui as suas práticas, dizendo-nos o que é como se pratica a feitiçaria, tratando não só dos aspectos científicos como ainda da Linha de Santo, dos Pais de Mesas, do uso do defumados, da água, da cachaça, dos pontos, em suma, da magia negra e da branca.
Esperamos que as autoridades incumbidas da fiscalização do espiritismo e muitas vezes desaparelhadas de recursos para diferencias o joio e o trigo, e o povo, sempre ávido de sensações e conhecimentos, compreendam, em sua elevação, os intuitos do Diário de Notícias.

Já de início fica clara a intenção da publicação, diferenciar o joio do trigo, dar a umbanda nascente de Zélio de Moraes um estatuto público diferente do dado aos demais rituais de espiritismo de umbanda perseguidos na época.

De fato, o livro traz algumas considerações gerais acerca da umbanda praticada nas tendas de Zélio e procura diferenciá-las das praticas de magia. Destaca muito do que qualquer médium da religião sabe: que as provas de incorporação às quais as entidades e médiuns eram submetidos, são hoje shows de exibicionismo; que a função de uma mediunidade consciente é o de dar oportunidade ao médium de aprender com a entidade com a qual trabalha; que não se deve cruzar braços e pernas durante as sessões, etc. Além, dentre algumas descrições parcas sobre as linhas de umbanda, os orixás, que hoje vemos de forma bem diferenciada dependendo da casa e da escola de umbanda.

Não vou destacar nesse momento as qualidades e o que deixa a desejar no livro, mas sim o seu valor histórico. Remeto aqui a uma observação que Beatriz Góes Dantas faz em seu livro "Vovô Nagô e Papai Branco" sobre a construção do Nagô Puro:

"Outro ponto que destaco do livro é o capítulo 4 que trata da "Construção e significado da pureza Nagô". Este capítulo traz, como elemento interessante, a origem daquilo que foi classificado como PURO nas religiões afro. Inicialmente esta designação partiu dos chefes de casa que estavam dispostos a, junto com intelectuais e antropólogos (Gilberto Freyre, Artur Ramos), a revitalizar a cultura negra, coisa que nem todos os terreiros e barracões estavam dispostos, pela desconfiança natural que se tinha dos "de fora" em uma época de perseguições violentas à religião. Posteriormente, quando essa "moda de revitalização" chegou à Bahia (com Verger e Jorge Amado, junto a outros antropólogos) a noção de pureza foi ressignificada, passando a se referir aos terreiros que continham mais traços comum com os remanescentes cultos africanos (remanescentes, pois hoje em dia a África é quase toda protestante e católica e o culto primitivo aos Orixás é fortemente combatido como prática de feitiçaria). Enfim, por um lado a pureza significava valores regionais típicos, por outro a pureza significava a proximidade do culto com a Mãe África. Mas é interessante destacar que, tanto de um lado como de outro, era consensual que a prática do culto visando o mal, ou fazer mal a outrém era, era desprezada.

Desde o princípio está envolvido no conceito de "pureza" a prática do culto com o objetivo de trazer força e prosperidade aos filhos de santo. A cura de males que possam ser causados por "Orixás insatisfeitos". A ideia mais comum é que cuidando do santo se garante uma vida feliz e próspera ao filho de santo."
O Valor Histórico das Obras de Leal, tem o mesmo contexto: o de tentar diferenciar a umbanda de Zélio das demais práticas do gênero. E, não podendo apelar para uma "pureza Nagô" ou "pureza Africana", apena para os conceitos de "bem e mal", aponta para um sincretismo cristão forte que não o nega:

A Linha Branca de Umbanda e Demanda tem o seu fundamento no exemplo de Jesus, expulsando a vergalho os vendilhões do templo. Às vezes, é necessário recorrer à energia para reprimir o sacrilégio, consistente na violação das leis de Deus em prejuízo das criaturas humanas.

Outras vezes apela para o caráter elevado que as entidades escondem, remetendo à herança espírita que me pergunto se é do autor ou da umbanda em si, muito embora ele remonte à fatos:

Uma ocasião, numa pequena reunião de cinco pessoas, um protetor caboclo descarregava os maus fluidos de uma senhora, enquanto também incorporado, um preto velho, Pai Antônio, fumava um cachimbo, observando a descarga.

- Cuidado, caboclo avisou o preto. O coração dessa filha não está batendo de acordo com o pulso.
- Como é que Pai Antônio viu isso? Deixe verificar, pediu um médico presente à sessão.

Depois da verificação, confirmou o aviso do preto, que o surpreendeu de novo, emitindo um termo técnico da medicina, e explicando que o fenômeno não provinha, como acreditava o clínico, de suas causas fisiológicas, porém de ação fluídica, tanto que terminada a descarga, se restabelecia a circulação normal no organismo da dama. E assim aconteceu.

O doutor, então, quis conversar sobre a sua ciência com o espírito humilde do preto, e, antes de meia hora, confessava, com um sorriso, e sem despeito, que o negro abordara assuntos que ele ainda não tivera oportunidade de versar, e estranhava:

- Pai Antonio não pode ser o espírito de um preto da África e não se compreende que baixe para fumar cachimbo e falar língua inferior ao cassanje (dialeto crioulo do português falado nessa região; por ext. português mal falado e escrito.)
- Eu sou preto, meu filho.
- Não, Pai Antonio. O senhor sabe mais medicina do que eu.
Por que fala desse modo? Há de ser por alguma razão.
O preto velho explicou:
- Eu não baixo em roda de doutores. Doutor, aqui só há um, que és tu, e nem sempre vens cá. Depois, meu filho, se eu começo a falar língua de branco, posso ficar tão pretensioso como tu, que dizes saber menos medicina de que eu, disse, numa linguagem, arrevesada, que traduzimos.

Os protetores da Linha Branca em geral se especializam, no espaço, em estudos ou trabalhos de sua predileção na Terra e baixam aos centros e incorporam para um objetivo definido. Acontece, porém, que muitas vezes são induzidos a erros pelos consulentes, com a cumplicidade dos presidentes de sessões. Uma pessoa os interroga sobre assunto de que não tem conhecimento pleno.

As obras de Leal de Souza e o acesso que este tinha a veículos da imprensa foram fundamentais para que a umbanda fosse legitimada enquanto expressão religiosa e, qualquer historiador que se preze da religião deverá passar pelas obras dele. Acredito que se a história de Zélio de Moraes e a construção da sua escola de umbanda como referência prática em inúmeros terreiros de hoje (mesmo àqueles que não praticam a umbanda de Zélio estritamente) se deve à Leal de Souza como divulgador da religião.

Há aqui, o que parece ser uma construção da religião, tal qual ocorreu com o discurso de "pureza" nas nações, um mesmo movimento, muito embora não tenha tido autoria de antropólogos. O que me faz, novamente, refletir sobre a construção de narrativas e a influência que essas construções passam a ter, ao longo dos anos, sobre a própria religião. Hoje, são antropólogos e historiadores que se voltam para a figura de Leal de Souza para tentar reconstruir esse momento de "surgimento" da umbanda.

É assim: a pessoa que me enviou o texto levantou uma bola, e eu como pesquisadora amadora, encontrei links com documentos que podem ser bem interessantes para quem se interessar nessa parte da história da umbanda:

Documentos Históricos da Umbanda - onde o livro de Leal de Souza que citei se encontra disponível para download, além de outros documentos interessantes.

Há também uma biografia de Leal de Souza (sim, isso muito me interessa...rs) escrita pelo historiador Diamantino Fernandes Trindade, que ressalta a figura do escritor como um intelectual reconhecido da época.
Reunião dos dirigentes das Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, presidida por Zélio de Moraes na TENSP












25 de jan. de 2016

Umbanda -João de Freitas

Ganhei esse livro de presente do meu marido, que apesar de não ser da religião, muito tem me apoiado todos esses anos, principalmente em minhas pesquisas. De início não o levei muito a sério, pois nunca tinha ouvido falar. Me impressionou logo o estilo rebuscado e antiquado da escrita, eu classificaria mesmo como brega, mas alguns pontos me chamaram a atenção e me estimularam a continuar a leitura: 

O primeiro fato foi perceber que o autor é um jornalista espírita e simpatizante da umbanda, o que explica diversas comparações narrativas de observações em terreiros com passagens de clássicos do espiritismo como Léon Denis. Não é muito comum em literaturas sobre a religião situações de aplicações claras e coerentes, até, de teorias espíritas com praticas umbandistas. 

O segundo fato é a data do livro. Ele foi escrito na década de 40, antes de estourar a segunda guerra mundial. Isso por si só já torna a narrativa (brega) digna de leitura, pois os episódios ali narrados retratam uma umbanda que provavelmente não vemos mais nos dias atuais. E eu estava certa! Eu que adoro curiosidades, me espantei ao saber que o ataque a Pearl Harbor e que marcaria a entrada dos EUA na segunda guerra foi anunciado no Brasil no dia de N. Sra, da Conceição, sincretizada com Oxum. Esse dado rendeu uma narrativa curiosamente paradoxal, já que Oxum é conhecida pela amorosidade. rs

Outro dado interessante é uma extensa relação de letras de pontos de umbanda que praticamente não se escutam mais em terreiros (pelo menos eu não ouvi nos terreiros que já passei e foram só três). Algumas vezes desejei que o livro viesse com uma fita K7, que é a coisa mais antiga que posso pensar conter uma gravação caseira, dos pontos ali escritos. Alguns detalhes rituais sobre como se confirmavam pontos riscados, etc. também me chamaram a atenção.

Segui a leitura, muitas vezes lutando para a falta de empatia em relação ao estilo não fosse um impeditivo. Venci a batalha e valeu a pena. O livro tem um valor muito mais histórico que doutrinário e, para pessoas que como eu gostariam de possuir uma máquina do tempo (risos!) Vale muito à pena a leitura.

Na maior parte das narrativas históricas sobre a religião encontramos como pontos centrais de um lado o conflito político entre umbandistas e polícia, do outro lado o conflito entre umbanda e o candomblé que na época era legitimado por meio de diversos estudos antropológicos. João de Freitas faz algo diferente: partindo da aceitação da umbanda como uma expressão brasileira do próprio espiritismo, ele parte em busca de diferentes terreiros, tal qual repórter investigativo, a fim de narrar tudo o que vê. É um texto de valorização da religião, o que pode ser considerado inovador para a data em que foi escrito. O único momento em que algum conflito é mencionado é na ocasião da visita de Joãozinho da Gomeia que seria preso 48 horas depois de ter sido recebido pomposamente em um terreiro de nome Cobra Coral. 

Há também longas citações a trabalhos da época sobre a religião que são citados, livros e textos pouco conhecidos no universo umbandista atual. Um deles detaco aqui:

Antes de iniciar os trabalhos, um cambono e uma samba especial acompanhavam, contritos, a Babá que cruzava o terreiro que fora instalado justamente embaixo daquela frondosa mangueira. O silêncio era absoluto. A concentração era de tal forma que nem o coaxar das rãs produzia eco. E um magnífico defumador, transformando como por encanto os nossos pobres espíritos, saturados das lutas cotidianas, passava sôbre as nossas cabeças. 
"O perfume é a quintessência de todas as manifestações de Vida"!
E é Waldemar Bento, o crente sincero e autor de "A Magia do Brasil" que, à página 114, discorre sôbre a magia do perfume:

"Aspirar determinado perfume é aspirar em essência a própria Vida de uma flor. Mediante a Sublime Lei do Sacrifício sempre hão de existir flôres na natureza prontas ao Sacrifício das distilações para dar ao homem o ensejo de se avizinhar do Criador.
A escala musical dos perfumes tem início no Infinito, para terminar em Deus!
Defumar um ambiente é o mesmo que prepará-lo para o descenso das divindades.
A palavra dos Manes Sagrados é luz, inscrita em pautas aromáticas.
O Perfume!
Sòmente um poeta, um escritor, um místico poderão compreender a harmonia do perfume. Os perfumes constituem, no éter, escalas musicais bem definidas. Nessa escala, em ondas harmoniosas, num vai e vem incessante, o verdadeiro místico aspira e sente as melodias perfumadas que nos circundam.
O olfato físico apurado percebe-as, o psico desenvolvido sente-as visto que as espirais perfumadas do incenso elevam as nossas almas a Deus!
Existe o perfume da mulher que nos pertence, o perfume dos entes que nos são caros, o perfume da saudade, o perfume da prece, o perfume do ódio, o perfume do amor...
E cada perfume possui a sua tonalidade própria, sua música, sua magia...
Vivemos entre ondas sonoras, perfumadas e coloridas!
E a maior parte dos homens não pressente tudo isso!"
...............................................
Não fora talvez por isso a razão daquela defumação porque passamos em conjunto.
Na hora de defumar é necessário absoluta concentração e alheiamento às coisas materiais.
E agora a Iaorixá após saudar dentro do mais puro ritual todas as divindades entrega o terreiro ao ogam para que êste o mantenha sob a proteção do enviado de Xangô.

Essa longa e lírica explanação sobre os defumadores me chamou a atenção por ter me lembrado, remotamente, a relação feita por Newton entre as cores e as notas musicais. Relação que até hoje em alguns locais (Ramatis, por exemplo) se usa em tratamentos de cromoterapia. Fiquei me questionando se não haveria alguma relação, também, entre essências e cores...rs Mera curiosidade intelectual.

Outro destaque que faço é para o fato de naquela época se guardava fortes esperanças de que a produção de uma literatura umbandista, que visasse explicar os rituais e seus princípios de forma própria (sem remeter ao espiritismo ou ao candomblé) viesse coibir abusos em nome da religião. Destaco:

Ante a grandiosidade e imponência da festa que se iniciava ali mesmo, naquele batelão, o Professor Moisés não se contém e chega-se a mim:
- Não concebo umbanda sem ritual! Sou francamente do som dos atabaques, do defumador e dos pontos cantados. Sei que existe um número apreciável de divergentes, mas Umbanda sem ritual deixa de ser Umbanda. O espiritismo codificado de Kardec não faz referência a essa religião africana que no fundo é cem por cento espiritismo. O que a faz divergir é apenas o ritual do qual sou apologista. Abolíndo-o é decretar a falência dessa grande seita. Todavia não endosso fanfarronices de imbecis que inventam cerimônias que não condizem com os seus atos liturgicos.
- Conhece o ritual da Umbanda? - perguntei.
-Empiricamente, porque não existe o livro que indique com precisão a forma pela qual se deva observar o cerimonial. É uma grande lacuna a falta de ritualistas na Umbanda. É preciso que apareça um escritor que tome a peito essa iniciativa.
- Com o tempo, Professor, talvez apareça...
- Talvez é sinônimo de nunca....
- Menos pessimismo, Professor! Com a criação da Federação de Umbanda, a cuja frente se encontram homens de talento, oradores notáveis, médicos, literatos de renome....
- Assim podemos prescindir do valioso concurso dos babalorixás dispersos que pululam pelas esquinas e enchem as mesas dos cafés. Ficaremos livres dessas literatrices prolixas e decepcionantes que se escondem em oratórias e formas vocabulares em evidente oscilação intelectiva. Em suma, acabar-se-ão os charlatães, porque ninguém se arvorará em chefe de terreiro sem estar devidamente munido de credenciais. Queira Deus que isso se torne em magnífica realidade.

Mal sabem eles que 60 anos depois as coisas não mudaram tanto assim...rs

Enfim, espero que com as citações mostradas, além da análise feita, eu consiga despertar alguma curiosidade a respeito do livro. Não sei quantas edições foram feitas desse livro. A que tenho em mãos é a oitava edição pela editora ECO (desconhecida para mim até então) feita ainda no Estado da Guanabara, para ter noção do quanto é "antiguinho" o livro. No mínimo, o que tenho em mãos saiu do prelo na década de 70. Meu marido deve tê-lo encontrado em algum sebo ou feira de livros usados. Por isso recomendo a procura dele, caso alguém se interesse, com livreiros online. O Estante Virtual é um bom site para isso!






12 de jul. de 2010

Espiritismo X Umbanda (parte II)

Na postagem anterior explicitei as razões pelas quais disse não crer em uma suposta “influência” do espiritismo sobre a umbanda. Deixando claro que influenciar, significa exercer uma ação sobre alguma coisa, o espiritismo tem pouca (no caso de terreiros que também façam trabalhos de mesa branca) ou nenhuma influência sobre a umbanda.


De forma doutrinária, o espiritismo não exerce e nem pode exercer influência sobre a umbanda, mas, quando muito, auxiliar a compreensão do médiun (ou cavalo, como nossas entidades costumam falar) sobre o processo envolvido nas manifestações dos terreiros, e sobre as formas como nossas entidades podem atuar sobre nós.

Algumas postagens atrás, por exemplo, tratei dos sonhos e sobre como os sonhos nos trazem, algumas vezes, mensagens de nossos guias espirituais. Naquela postagem, mencionei tanto o texto de Kardec, quando explorei o tema no sentido mais primitivo da concepção usando um documentário indígena como exemplo. Mesmo que tenhamos usado a letra de Kardec para explicar o fenômeno, isso não faz com que o fenômeno seja “uma influência” do kardecismo. O próprio espiritismo é claro quanto a sua proposta esclarecedora acerca dos fenômenos da espiritualidade: mediunidade e comunicação com espíritos, sempre existiram desde os tempos mais antigos. A diferença é a forma como se explica o fenômeno. Com o avanço do conhecimento, o estudo do livro dos médiuns, hoje, é o meio mais adequado para explicar tais fenômenos.

A verdade é que com o passar dos anos e o desenvolvimento das culturas ocidentais, o seu voltar para a tecnologia e questões materiais de sobrevivência, coisas que nas culturas mais simples eram encaradas com naturalidade se tornam, aos olhos do homem urbano, trabalhador de uma empresa, que opera cotidianamente com alta tecnologia, elementos simbólicos e mitológicos de culturas já extintas. Difícil, nos tempos atuais, é encontrar alguém que acredite na real influência dos espíritos naturalmente. A crença até existe, mas é sempre colocada como digna de desconfiança no primeiro percalço.

O homem de hoje dificilmente olha para si mesmo e para a comunidade como parte de um todo, coisa que nas culturas ditas “primitivas” era condição para aquele que desejava pertencer à comunidade. Os filhos pertencem aos pais e a sociedade, de modo geral, não se sente responsável pelas crianças nos tempos atuais. Já na sociedade tribal, os filhos pertenciam à família, mas também à comunidade e a comunidade toda era responsável pela integração daquele membro no grupo. A comunidade é como um corpo, do qual cada indivíduo é membro. A ofensa a um membro da sociedade por alguém de fora era vista como uma ofensa a todo grupo social. Hoje em dia somos os primeiros a ignorar, desprezar e ofender àqueles que estão inseridos no mesmo grupo social nosso. Vemos isso cotidianamente, nas ruas, nas escolas, nas empresas, no mesmo prédio e até mesmo no seio familiar. Mas não é objetivo, aqui, culpar a esta “falta de sensibilidade social” pela dificuldade na compreensão de fenômenos simples. Este mal de nossa sociedade é, antes, um efeito da perda de contato do homem com qualquer coisa que não lhe sejam dada aos sentidos.

O homem de hoje respira sem consciência do processo envolvido na respiração, a menos que pegue um resfriado. O homem de hoje não caminha, não suporta o vento e a chuva. Muitos julgam que as árvores fazem sujeira nas cidades e que seus frutos só servem para amassar os carros. Preferem ver a praia de longe, sem ter contato com o sal do mar, e constroem piscinas a beira mar. Gostam da mata, mas preferem-na como descanso de tela de seu computador que sujar seus sapatos com terra e sofrer mordidas de mosquitos. O homem atual, sai de sua casa, entra no seu carro e sai do carro para o prédio onde trabalha e mal consegue olhar para o céu (a menos que queira saber se vai chover). Enfim, possui hábitos completamente distintos daqueles que habitam tribos, ou, nem precisamos tanto, possuem hábitos distintos de nossos avôs e bisavós.

Obesidade, hoje, é um problema e a menos de 100 anos o número de obesos era mais de 50% menor. As pessoas, por razões óbvias, eram menos sedentárias e sabiam aproveitar mais os espaços livres e arborizados das grandes cidades. Olhar o céu era programa o dos apaixonados.

O homem deixou de fazer parte da natureza, da comunidade, de si mesmo. O valor de um homem é o que ele produz e o que consegue possuir com seu trabalho. Há um excesso de pragmatismo e materialismo no mundo atual. E é este o maior desafio enfrentado pelos poucos que ensejam um trabalho mais espiritual. Dizer quem em sonhos visitamos espíritos amigos, ou que algum espírito mal intencionado se aproximará se mantivermos maus pensamentos é a maior demonstração de ignorância e superstição. Por esta razão, grande parte daqueles que buscam e adentram os terreiros de umbanda, o procuram por necessidade. Quando as coisas já estão a tal ponto que, a última alternativa é apelar para o desconhecido “pra ver ser” dá certo.

Neste momento, geralmente confuso para a grande maioria, é que o estudo dos textos de Kardec pode auxiliar. De forma menos “mística” que as pitonisas gregas, ou tupã, ou ainda qualquer dos orixás que louvamos, Kardec mostra ao homem “de razão” como é possível que o invisível aos olhos nos influencie e, mais importante, como podemos cuidar para que essas influências sejam benéficas.

Para o praticante de umbanda, aquele que entra no terreiro com o branco para iniciar o contato com suas entidades, torna-se fundamental a leitura de tais textos. Pois desmistificam o processo vivenciado nas seções, em sonhos, e em outros momentos da vida do “médiun”. É importante para o trabalhador de umbanda de hoje compreender o que ocorre consigo mesmo, já que no cotidiano a realidade se mostrará completamente avessa ao ambiente do terreiro. O terreiro é como um mundo paralelo, onde devemos nos abrir e vivenciar o entorno como o homem antigo vivia, como o homem tribal vivia.

O homem tribal, além da relação que estabelecia com todos os membros de sua comunidade, estabelecia uma relação, também com a natureza que o cercava. Entendia as Matas como um ser vivo, capaz de enviar sinais à comunidade. Lia a mensagem que os ventos traziam pelo tato e olfato. Todos os poros do corpo do homem da tribo estavam conectados (não era preciso cabos como em AVATAR - risos) com a natureza circundante. E assim ele conseguia pressentir os perigos e saber dos benefícios que a mata trazia. É assim que o praticante de umbanda deve vivenciar seu terreiro. Com o mesmo senso de comunidade e natureza que predominavam nos tempos das organizações tribais, sendo a comunidade o corpo mediúnico e a natureza simbolizada por nossas entidades e guias espirituais. Comportamento tão avesso aos dias de hoje!

Kardec abre uma porta, mas não determina a prática. Kardec nos ensina como é possível essa realidade, mas vivenciar esta realidade como nas comunidades tribais será ensinamento de terreiro, dado por nossas entidades chefes que representam a ancestralidade daquele grupo. O espírita sabe, o umbandista sente. Porém como a nossa sensibilidade anda, nos dias atuais, “embotados de cimento e tráfego” (citando Chico Buarque) o primeiro passo do sentir, passa pelo saber. Sabendo ser possível e como é possível fica mais fácil nos abrirmos e permitirmos que nossa sensibilidade perceba estes eventos já tão estranhos à grande parte de nossa sociedade, mas comuns aos nossos antepassados.

Neste sentido, Kardec e os demais autores espiritualistas serviriam de auxiliares, textos para ajudar do médiun umbandista na aceitação e compreensão racional dos eventos vivenciados no terreiro. Assim, fica mais fácil crer em nossas intuições, em nossas incorporações, em nossos sonhos e desdobramentos noturnos... fica racionalmente mais fácil vivenciar a prática tão comum de nossas entidades, por meio das quais a umbanda é ensinada.

10 de jul. de 2010

Umbanda X Espiritismo (parte I)

Quando começamos a pesquisar a respeito da umbanda não é raro encontrarmos a seguinte afirmativa: a umbanda difere do candomblé por ter influências kardecistas, pois, além dos Orixás, se manifestam nesta religiosidade espíritos de mortos, denominados pretos-velhos, caboclos e exus. Uma das razões que podemos identificar para esta afirmativa está na forma como grande parte dos umbandistas propaga a história do surgimento da religião. Afinal, foi em um centro espírita que Zélio de Morais recebeu pela primeira vez o Caboclo das Sete Encruzilhadas e anunciou a fundação de uma “nova” religião.


Para conhecer mais sobre esta história acesse o link:

http://www.guia.heu.nom.br/origem_da_umbanda.htm


O fato é que muito antes deste acontecimento, diversas religiosidades mestiças já praticavam seus cultos com a manifestação de caboclos e pretos-velhos. Temos em várias regiões do Brasil, manifestações religiosas mais antigas que a umbanda, onde tais espíritos tinham seu espaço: catimbó, jurema, cabula, entre outros. Um livro interessante e que apresenta esta polêmica bem é o Umbanda de Pretos Velhos de Etienne Salles.

Mas não é o propósito desta postagem falar das polêmicas que cercam a origem da religião, mas sim, falar dos problemas enfrentados na caracterização da umbanda como possuindo influências kardecistas. Quando falo de problemas, me refiro a questões práticas dada a internalização de certos “princípios” espíritas que os adeptos da umbanda acabam fazendo por compreendê-la tendo como origem o espiritismo, ou por compreender a umbanda como “um braço” que liga o espiritismo à religiosidade afro. Onde a internalização destes princípios aparecem? Simples: se uma entidade usa certos materiais de trabalho comuns às vertentes denominadas “negras”, como o candomblé, por exemplo, é porque esta entidade é um espírito que ainda não evoluiu o suficiente para compreender que tais elementos não são necessários. É muito comum vermos afirmações como esta, denotando certa “evolução” dos espíritos atuantes na umbanda, a partir da restrição do uso de certos materiais de trabalho, como, por exemplo, a bebida e o fumo.

Verdade seja dita, se formos ouvir os grandes “médiuns” da doutrina Espírita, veremos que há uma grande resistência à umbanda. Seja pelos arquétipos representados por nossas entidades, seja pela maneira de prestarem assistência aos que a procuram, seja pelos elementos materiais utilizados. Portanto, há que se ter certas restrições ao se falar das “influências espíritas” na umbanda.

Para ilustrar o que digo, seguem dois vídeos como exemplo: O primeiro do Divaldo Franco, médiun muito respeitado no espiritismo, dispensa comentários. Pois é claro e notório onde o preconceito relativo a umbanda aparece:

O segundo vídeo, extraído do programa pinga fogo onde Chico Xavier foi entrevistado em 1979. Pinga Fogo. Sei o quanto é complicado falar da figura de Chico Xavier, ainda mais em uma postagem como esta. Mas a diferença entre Chico e Divaldo é a inteligência e a capacidade retórica apresentada no vídeo. Deve-se prestar muita atenção, pois apesar de Chico iniciar a resposta sobre umbanda afirmando o respeito que tem pela religião, podemos identificar equívocos. Neste caso o preconceito ao qual me refiro é velado, cabendo algumas explicações prévias para que possam ser identificados os problemas do discurso de Chico. O primeiro ponto que deve ser destacado é a descrição da função e do papel das entidades de umbanda, como os pretos velhos, que remetem à encarnação anterior destes espíritos. Como os Negros velhos eram escravos e serviam, eles formam um seguimento religioso onde continuam “servindo” ao atender os apelos de cura. Em seguida isso é tido como errado, pois aos olhos do espiritismo as doenças e limitações físicas são provações pelas quais temos que passar. É só conferir o vídeo:

Esta concepção de que nossas entidades estariam “presas” e “vinculadas” à suas últimas encarnações é designada como ATAVISMO. Atavismo significa, basicamente, o reaparecimento de características passadas – vem do latim Atavus que significa ancestral. Há um equívoco grande nas palavras de Chico que mostram a completa ignorância acerca da religião, fruto de alguns preconceitos enfrentados pelos umbandistas: as entidades estão presentes para nos orientar, limpar nosso campo energético quando necessário, realizar desobsessões quando preciso, mas nunca para servir a nossos caprichos! Curas e problemas de saúde podem até encontrar alguma solução, desde que seja do merecimento da pessoa. Caso o problema seja prova, dificilmente uma entidade conseguirá curar ou resolver a questão.

O que pretendo destacar aqui é que esta concepção é equivocada. Caboclos e Pretos-velhos assim se apresentam no terreiro por escolha. Seus “atavismos” se farão notar pelos trabalhos que realizam e não pela forma como se apresentam. Há quem diga que a imagem de pretos-velhos e caboclos são arquetípicos, ou seja, símbolos que representam algo presente na memória da coletividade. Preto-velho, neste caso seria o arquétipo do velho sábio, com experiência de vida, de ancestral que orienta os mais novos e guarda segredos. Àquele a quem, a contragosto dos senhores de engenho, todos os negros veneravam e aceitavam como líder, orientador e protetor da comunidade negra residente nas senzalas.

A real significação sobre as características que nossas entidades apresentam na umbanda é muito discutida e está longe de ser esgotada. Tampouco é nosso objetivo, agora, expor mais detalhadamente os debates que rondam por aí sobre isso. O que vale é destacar aqui a imagem que comumente o espiritismo guarda da nossa umbanda e de nossas entidades, de forma geral. Sei que isso vem mudando com o tempo, mas não é raro o umbandista se declarar “espírita” e acabar esbarrando nestes preconceitos. Por esta razão é, no mínimo, complicado colocar a umbanda como possuindo “influências” kardecistas, no sentido de ser uma prática religiosa derivada do espiritismo. Assim como é complicado afirmar categoricamente ser a umbanda derivada do candomblé.

Para finalizar esta postagem, coloco dois vídeos feitos pela escola de umbanda sagrada sobre o tema. Apesar de não fazer parte desta escola umbandista, acho importante destacar quando aparecem temas interessantes e esclarecedores para todos os que iniciam na religião, ou mesmo para aqueles que buscam compreender melhor a nossa religiosidade. Pessoalmente, tenho certas divergências com a Escola de Umbanda Sagrada, mas este vídeo, em particular, considero bom, esclarecedor e digno de divulgação:


PARTE I:


PARTE II: