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20 de jan. de 2017

Iroko - Tempo - kitembo


Difícil traçar exatamente a data do meu interesse por esse Orixá que não é cultuado na umbanda. Provavelmente meu interesse começou por causa de um sonho, há alguns anos atrás, onde eu via esse orixá sem ao menos saber que era "Ojá" o nome da faixa que o vestia. No sonho ele lembrava uma árvore, mas tinha feições, como tantos outros que me apareceram no mesmo sonho. Fiquei na dúvida e extremamente intrigada, pois ele era alto, tão alto, que eu não conseguia ver onde ele terminava. Lembro que foi uma amiga do terreiro que eu frequentava na época que, após eu narrar o sonho, me falou que provavelmente era Tempo representado em meu sonho. Mas o fato da umbanda não cultuar esse orixá, unido à outras tantas atividades, me fez colocar Tempo em segundo plano.

No final de 2016, por outras razões, Tempo apareceu novamente trazido por um preto velho. Lembrei desse sonho de muitos anos atrás e fui em busca do Tempo e tropecei numa árvore (logo eu, tão afeita às árvores, às plantas, à terra...rs). Qual era ela, Gameleira Branca? Ficus Religiosa? Cajazeira? Até em Mangueiras Tempo pode encontrar culto. A ideia de haver um Orixá em uma árvore de cara me fascinou. E que essa árvore deveria ser tão alta, mas tão alta, a ponto de ligar a terra e o céu, explicava porque no sonho eu não conseguia ver o topo daquele que vestia o "Ojá" (vamos chamar assim, já que hoje sei o nome certo da faixa).

Lá fui eu atrás de tempo e comprei um livrinho da Coleção Orixás da Editora Pallas, que sinceramente recomendo a quem se interessar pelo Orixá. Eu já havia comprado o livro de Exu da mesma coleção e gostei muito, muito embora o texto tenha perfis diferentes. Exu é escrito por um antropólogo e, por isso, tem um tom mais técnico que reúne diferentes concepções de Exu (o que é muito bom, também). Iroco tem um ritmo diferente, pois tem dois autores que pertencem ao candomblé. O livro me esclareceu muito acerca do Orixá em algumas questões, por exemplo, em Angola onde Tempo é inquice e rei da nação, ele pertence a família de Omulú (Cavungo), melhor dizendo, é irmão de Omulú.

Mesmo tendo lido atentamente o livro ainda é difícil fazer uma postagem a respeito do Orixá que mora na árvore. Existem sutilezas referentes às diferentes tradições em que esse Orixá/Inquice/Vodun pode aparecer. O livro trata um pouco dessas sutilezas, muito embora deixe claro desde o começo que os candomblés do Brasil, nos dias de hoje, sofreram um sincretismo interno, associando à um único Orixá características que podem ser de inquices e de Voduns. Maior exemplo disso, a meu ver, é Nanã Buruquê, que "originalmente" é um Vodun, mas que é cultuado nos diversos candomblés e na umbanda também. Tendo essa premissa podemos pegar algumas características de Iroco, Loco, Tempo e sintetizá-las no culto à àrvore. Quais características são essas? Segue um pouco do que entendi.


Iroco e os espíritos ancestrais que residem nele.
Tempo não apenas é alto, tão enormemente alto, a ponto de ligar o céu (Orun) e a terra (Ayê). Tempo também é velho, muito velho. Tão velho que diz um dos primeiros Itãs de Ifá descritos no livro citado que foi ele quem deu a Oxalá o seu Opaxorô. Por isso mesmo, Tempo guarda também os ancestrais, os mortos, pois existe e vive desde o início do mundo. Foi pelos galhos de Tempo que os Orixás desceram à terra. Tempo conhece os segredos da vida e da morte, junto com Orumilá, de quem também é irmão.
Tempo é livre, não gosta de lugares fechados. De sua liberdade segue que não tem pudores. Pode ser um grande refúgio para os filhos de Axé, mas à noite esconde em suas copas os segredos das Iyamís, das grandes feiticeiras. 
Tempo é movimento, transformação. Elemento ar.
Tempo é fértil, sendo frequentemente procurado por aqueles que desejam ter filhos fortes.
Tempo se comunica com todos os Orixás por meio do vento que embala suas folhas, nas folhas, no tronco, na água que bebe, na terra que lhe dá a vida. Podemos encontrar nele a síntese da vida!
Tempo é lindo e dele depende tudo. Não é à toa que é o Rei do povo de Angola.
E o melhor de tudo, ele está na árvore, reside nela e é o pai de todas as árvores que existem. Tanta coisa em algo tão simples como uma árvore!

Mas logo a seguir me veio a seguinte questão: será que podemos encontrar tempo em qualquer árvore? 

Quando pensamos nisso a coisa se torna ainda mais interessante. Porque há também associação entre árvores e Orixás:
Apaocá - Jaqueira - é atribuída as Iyamís, mães ancestrais. No livro acima é associado a uma qualidade de Iemanjá. 
O Flamboyant é relacionado à Xangô.
O Cajazeiro aparece no Livro como uma das residências de Tempo no Maranhão. Mas em outro livro (que já, já citarei aqui) é colocado como ancestralidade de Ogum.
A Amendoeira também é associada às Mães ancestrais.
A Mangueira, também citada no livro como uma possível residência de Iroko, é atribuída à Ogum. Muito embora na umbanda suas folhas representem Oxossi.
E por fim a Gameleira Branca, popular em várias casas de candomblé, e árvore mais encontrada em qualquer pesquisa Google relacionada à Tempo.

Porém, nenhuma dessas árvores aqui mencionadas são originárias da África, de onde Iroco, Loco, Tempo vieram. Como ocorre essa associação com as árvores "nativas"? Dá pra saber um pouco mais sobre isso nesse artigo "intercânbio de folhas na diáspora" do Blog Gunfaremim (blog que recomendo a leitura pra quem quer saber de folhas).

Dentre tantos encontros e desencontros com Iroco/Tempo, encontrei a chave da resposta em outro livro: A Floresta Sagrada de Ossaim, o segredo das folhas, de José Flávio Pessoa de Barros, também editado pela Pallas (que já quase me levou à falência...rs). Nesse livro encontrei as IGI, as grandes árvores que são consideradas as moradas dos ancestrais e de alguns Orixás. São as arvores de grande porte e cujo tempo de vida perpassa gerações. O Baobá é, até hoje, uma IGI cultuada e respeitada na África. 
E aqui no Brasil?

Considerando todas as informações desencontradas sobre "onde" tempo reside, e as variações tantas que encontramos em diferentes casas tradicionais de candomblé de raiz Bantu e Jege, podemos formular uma hipótese: qualquer árvore que possua uma ancestralidade de Orixá e, principalmente, tenha o tempo (cronológico) e o porte necessários podem ser residências de Tempo. Basta que se prepare a árvore e suas raízes adequadamente para servir a essa finalidade. Nos terreiros tradicionais encontramos além da Gameleira, a Mangueira e o Cajazeiro. Mas poderia ser Jequitibá, Baobá, Seringueira, etc...

Tempo é raiz, é tronco, é folha, fertilidade gerada em frutos. Ter Iroko em um terreiro significa proteção e longevidade (é a raiz quem sustenta o tronco e as folhas), sinônimo de tradição e fundamento. Iroko comunica Céu e Terra, traz a força de todos os Orixás (por isso em alguns lugares ele traz em si todas as cores). É um Orixá de movimento, nada calmo. Orixá fun fun (que veste branco) na nação Angola, a quem se pede calma, pois pode ser implacável. Tempo protege, porque conhece todos os segredos ancestrais. Se relaciona com as Iyamis, os abiku, e demais espíritos das florestas. Sua presença em uma casa significa também a possibilidade de transmutar qualquer energia ruim em coisas boas...
Tempo o Orixá/Inquice das transformações, mas que sempre estende um mastro com uma bandeira branca para que seus filhos não se percam. 
Nas palavras de um preto-velho, "sem tempo nada se faz".

Curiosamente, depois que o preto-velho trouxe novamente tempo pelo braço, àquele mesmo Tempo com o qual eu já havia sonhado e esquecido, uma série de mudanças radicais aconteceram.  Hoje, depois dessas mudanças, vejo que estou cercada de Mangueiras em minha residência. Mangueiras que devem ter bem mais de 50 anos. Mangueiras ancestrais de Ogum e que também servem de residência pra Tempo. É impossível para mim olhá-las e não cantar: 
Ê tempo macura dilê, ê tempo macura tatá...





21 de ago. de 2016

Como ler um livro?

Esse post é uma crítica à forma como buscamos os livros. Qualquer livro...mas principalmente àqueles que abordam temas religiosos de umbanda e/ou espiritismo.

É comum nos dias de hoje que qualquer iniciante na religião de umbanda busque na internet, em blogs ou em livros respostas para dúvidas que muitas das vezes o dirigente por si só não sabe responder. Mas o que buscamos nos livros? Verdades? Por que vemos nos livros um local privilegiado onde uma "verdade" é revelada para nós? De onde vem isso? Essa relação com a palavra escrita, como se a escrita fosse uma autoridade?

De outro modo, porque grande parte das pessoas vêem como se a falta de um léxico, um corpo teórico escrito, enfraquecesse a religiosidade? Mas já falei um pouco disso aqui.

Um neófito de umbanda, perdido, fatalmente buscará em fontes escritas (virtuais ou em livros) meios de se orientar. E muitas vezes ao encontrar algo que se afine com aquilo que ele "pressente", mas não sabe ao certo se é fato ou não, logo toma como verdade. Outros tomam como verdades teorias rebuscadas, que se coadunem com sua cultura. Ainda há aqueles que levarão em conta a "autoridade" da fala: um texto espírita secular, textos escritos e endossados por vários sacerdotes e dirigentes, ou ainda a autoridade de uma mística reconhecidamente milenar, como se grandes segredos estivessem sendo ali revelados. Assim nascem os diversos tipos de leituras sobre a umbanda: os que tem por base a doutrina espírita, os que tem por base as instituições umbandistas, os que tem por base uma "mística" que tem sua origem em qualquer lugar, menos nos Orixás e Caboclos e Pretos Velhos, que são apenas desdobramentos brasileiros de forças universais. Não que eu descreia das místicas, acho mesmo que em muitos pontos elas se tocam (como boa leitora de Mircea Eliade e Joseph Campbell, rs). Mas elas se tocam, não necessariamente se misturam formando um amálgama de culturas babilônicas, egípcias, pagãs, europeias e brasileiras. Explicando matematicamente: vários conjuntos podem tem um ou dois elementos comuns, mas isso não os tornam conjuntos iguais.

Nessa busca, muitas vezes o neófito acaba encontrando suas "verdades" em textos cuja concepção de umbanda diferem muito daquela do terreiro onde se encontra e, mais cedo ou mais tarde, essa diferença resultará na necessidade de uma escolha: "ou o terreiro que estou está certo e o livro errado (e com isso minhas dúvidas retornam) ou o livro está certo e o terreiro que estou está errado." Porém, não precisa ser assim. Isso acaba ocorrendo devido a relação que estabelecemos com o texto escrito. 

Nossa cultura está pautada na sacralização do texto escrito.

Vou explicar: desde cedo aprendemos que nos livros encontramos o que é certo. Na escola a professora ensina a buscar a resposta certa no livro, ou seja o livro traz uma verdade que nos fará tirar uma nota boa na prova (como professora, tenho restrições a essa metodologia, mas ela é comum em grande parte das instituições de ensino). Se a família é católica, aprende-se que na Bíblia está a verdade revelada por Deus aos apóstolos. Se queremos saber o que ocorre no mundo, procuramos os jornais que nos "revelarão" os principais acontecimentos. Em resumo, somos educados a procurar "a verdade" nos mais diferentes tipos de textos escritos.

Essa forma de educação obscurece em grande parte uma outra função do texto escrito: o de simplesmente tornar público um pensamento. Assim acontece com os livros de poesias, literatura, e pesquisas acadêmicas em geral (muito embora alguns vejam os textos acadêmicos com a mesma sacralidade apontada anteriormente). Esquecemos muitas vezes que uma mesma notícia, por exemplo, será publicada com diferentes interpretações, dependendo do jornal que buscamos. O mesmo acontece com os livros de história, porque um fato histórico pode ser contado de diferentes maneiras. A dificuldade aparece na hora que lidamos com textos de cunho religioso: espíritas e umbandistas. Porque compreendemos sempre, devido a nossa cultura, que livros religiosos nos trazem "verdades". Assim o neófito ao buscar o texto de umbanda, verá nele o lugar de uma verdade sacralizada e aí vem a confusão. Livros de umbanda, assim como os demais textos, são escritos sob perspectivas. O que vale para um autor, não vale para outro. Alguns descrevem a concepção de umbanda predominante no ritual de umbanda de sua casa, outros pretendem universalizar e fornecer um corpo doutrinário que seja comum a várias casas. São inúmeras as intensões das publicações que podemos encontrar sobre a umbanda, uma delas também abordamos aqui. E é justamente a multiplicidade das intensões, bem como a multiplicidade das práticas umbandistas, que devemos considerar sempre ao ler um texto sobre umbanda. Ideal é ter em mente que ele nos traz UMA verdade, e não A verdade. Essa verdade pode se adequar mais ou menos com a forma da casa que frequentamos, ou com a forma como sentimos a religião por meio dos ensinamentos dos guias espirituais. Devemos sempre lembrar, também, que parte dos ensinamentos de umbanda ocorrem oralmente e, por isso, nenhum livro ou texto dará conta de forma completa do que é a umbanda.

Um filme que didaticamente mostra com humor o valor que a nossa cultura dá ao texto escrito, bem como pontua as diferentes perspectivas da narração de uma história e a dificuldade do historiador ao escolher uma delas, é Narradores de Javé, filme brasileiro de 2003, dirigido por Eliane Caffé. Termino essa postagem com link para o filme:









21 de fev. de 2016

Simbolismos do lado esquerdo - Parte I

A razão pela qual essa postagem tem uma "Parte I" no título reside no fato de não pretender esgotar o tema nessa postagem. Aqui apresentarei apenas uma problematização da divisão "direita" e "esquerda", sob um viés antropológico, problematizando essa divisão e a forma como ela atua no imaginário de quem vê a umbanda de fora. Não se trata de apresentar uma visão de "doutrina", mas apenas de entender como um simbolismo que não pertence apenas à umbanda, mas está presente nela e em várias culturas (alguns diriam até que está presente em um inconsciente coletivo) resulta em interpretações que, hoje o umbandista, com alguma dificuldade, se esforça em desconstruir. Também gostaria de deixar claro que o objetivo dessa postagem é o de questionar as relações que estabelecemos com a "esquerda" sob o ponto de vista de uma antropologia. Ou seja, trata-se menos de delinear as características doutrinárias reservadas a essa linha, e mais de observar que quando falamos "esquerdo" aparecem muitas relações simbólicas que não são vistas inicialmente e que refletem também na forma como concebemos a linha da esquerda, seja conscientemente ou inconscientemente.

É comum a todos os umbandistas a existência das linhas de direita e da linha de esquerda. E em conjunto com o trabalho dessas linhas vem uma série de preceitos relacionados que inclui o uso das mãos direita e esquerda, em certas ocasiões, dependendo de qual das linhas se trabalha - uso da mão direita ao lidar com as linhas da direita, uso da mão esquerda ao lidar com a linha de esquerda. E com o tempo observei que algo parecido e ligado aos lados direito e esquerdo de nosso corpo se repetem durante os trabalhos das entidades, mesmo as das linhas de direita, quando pretendem em algum momento "evocar" as forças da esquerda. Isso me fez refletir: 1) sobre os usos que nós mesmos fazemos sobre essa divisão "direita" e "esquerda"; 2) como "esquerda" e "direita" são compreendidos e empregados no senso comum e que, fatalmente, resultará em; 3) a forma como as linhas de "esquerda" parecem se opor antagonicamente as linhas de "direita".

É claro que, como boa nerd que sou, não fiz essa reflexão, nem tampouco escrevo essa postagem, sem antes ter procurado alguns textos que pudessem me ajudar a organizar o que eu já vinha refletindo a respeito. E foi pesquisando que encontrei o artigo A preeminência da mão direita: um estudo sobre a polaridade religiosa, do antropólogo Robert Hertz. A partir desse artigo, pude organizar melhor uma ideia que estava surgindo na minha mente de forma intuitiva, apenas.

O fato é que durante muito tempo tudo o que era relacionado ao esquerdo era escondido, ou impedido de atuar pelo simples fato de relacionarem este lado à coisas ruins, ocultas, obscuras, profanas, ou seja, a tudo o que é oposto ao bem. Eu não sabia muito bem como colocar isso como ponto de partida: inquisição? Onde canhotos eram considerados bruxos? Na índia? Onde tradicionalmente a limpeza higiênica de detritos humanos é realizada sempre com a mão esquerda (e por isso come-se apenas com a mão direita). Pelo sufismo islâmico dos dervixes que dançam com a mão direita estendida ao céu para colher as bênçãos divinas e a mão esquerda reta, voltada para a terra? Pelas falas cristãs:  Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.Mateus 6:3,4 Ou ainda a oração do Credo, que afirma a posição de Jesus à direita de Deus... Enfim, são tantas as culturas que distinguem os lados "direito" e "esquerdo", culturas seculares e milenares, que fica mesmo complicado tentar traçar um momento, ou um local onde isso possa ter surgido. 

As relações entre "direito" e "bom" X "esquerdo" e "profano", "mau", estão tão arraigados em nossas mentes que podemos facilmente perceber, junto com Hertz, que até mesmo na nossa linguagem usamos frequentemente os termos "direito" e "esquerdo" para designar o "certo e o "errado". A palavra sinistro em nossa língua possui essa raiz de significação. Segundo o dicionário AULETE, sinistro significa:
a.
1. Que provoca temor, que pressagia uma desgraça (ambiente sinistro, ameaça sinistra, silêncio sinistro); ASSUSTADOR
2. Que usa a mão esquerda; CANHOTO [ Antôn.: destro ]
3. Que indica perversidade; que causa mal (projetos sinistros).
4. Que inspira receio (olhar sinistro); ASSUSTADOR
sm.
5. Desastre, acidente: No sinistro morreram cinco pessoas.
6. Grande prejuízo material: A inundação não causou vítimas, mas o sinistro foi considerável.
7. Dano em qualquer bem segurado (pagamento do sinistro).
[F.: Do lat. sinistrum, de sinister, -tra, -trum 'esquerdo, canhoto'.]

Se formos mais longe, podemos até notar que o termo em inglês "Bright" (brilhante, luminoso) carrega um "right" (direito, certo) em sua composição.

Do mesmo modo, quando se fala em "linha de esquerda" na umbanda, os exus e pombo giras, muita gente pensa na associação com o diabo. Se for evangélico, então, nem se fala. Mas será que apenas eles pensam dessa forma? Será que não há algo na própria forma como essa linha é concebida que faz com que essa seja uma associação válida?

Mesmo que nos dias atuais exista um esforço em eliminar essa associação (Exu=Diabo, portanto àquele que pratica o mal) será que não existe algo na forma como compreendemos essas entidades que torna mais difícil a dissociação? Pensemos...

Arquetipicamente essas entidades são espíritos que representam representam a nossa ligação com a terra, consequentemente, trazem em seus gestuais elementos que nos tornam mais próximos a eles. A dubiedade de exu, a sensualidade das pombo-giras. Eles estão constantemente lidando, nos atendimentos, com as questões mais materiais - trabalho, amor, etc... São eles que vem ao socorro quando se lida com uma energia mais densa, pesada, a chamada demanda ou quebra de magia. Isso porque possuem contato mais direto com o oculto (que sempre foi relacionado ao lado esquerdo).

Hertz, no artigo cujo link coloquei acima, observa que uma das consequências da distinção "direito" X "esquerdo", que culminam nos papéis que as mãos esquerda e direita possuem na sociedade, é que ao lado esquerdo ficou, quando muito, reservada a função de auxiliar o lado direito, tido como o certo. O lado esquerdo, devido às construções de significados presentes desde sempre em diversas culturas, não possuía o "direito" de se desenvolver plenamente. Isso, Hertz afirma literalmente sobre o uso das mãos e da tentativa sistemática que existiu durante anos a fio de tornar crianças canhotas em destras. Mas será que, de certa forma, isso não pode ser notado também em relação à construção da umbanda?

Os primeiros terreiros de umbanda (aqueles que seguiam a linha de Zélio de Morais) não trabalhavam com a chamada "linha de esquerda". Aos poucos essas linhas foram aparecendo como linha "auxiliar", para firmar a defesa de uma casa (a tronqueira) e em alguns centros se fazia sessões com eles apenas para médiuns. Seja como for, a linha de esquerda não aparece como o pilar da umbanda. Quando se fala em umbanda, sempre se pensa que umbanda é feita principalmente com criança, caboclo e preto-velho. Ou seja, as linhas chamadas de "direita". Grande parte dos terreiros possuem nomes ou de santos católicos, ou de caboclos e pretos-velhos. Não é habitual vermos um centro de umbanda tendo um exu, ou pombo-gira, como guia chefe, e se vemos um, logo desconfiamos da índole da casa. Será que é mesmo umbanda, ou é mais um tentando usar impropriamente o nome da religião? No entanto, nos dias atuais, são raros os terreiros que não trabalhem com exus. Qual o papel deles, então? Não seria o de auxiliar os trabalhos realizados pelas linhas de direita?

Em resumo, inconscientemente, endossamos o papel auxiliar mencionado por Hertz no artigo, quando relegamos aos exus os trabalhos de limpeza pesada, bem como os trabalhos de magia que lidam com o que há de mais oculto, para auxiliar o bom andamento dos trabalhos da direita. Com isso, também endossamos a ideia de que os exus são as entidades mais "sinistras" da umbanda, por que apenas eles podem lidar com o oculto (mesmo que eles usem isso para a prática do bem). A sensualidade da pombo-giras, o jeito mais solto do exu, também fazem com que essa linha torne presente à mente do consulente coisas que ele talvez viesse esconder de um preto-velho por moralismo, ou por saber ser incorreto. São várias as situações em que, mesmo que tentemos desmistificar a figura de exu, desvencilhando ela da prática da "baixa magia" ou de uma associação com o "diabo", "o mal", nós mesmos pensamos neles como representando, ou indicando, a presença (mesmo que seja para combatê-la) de coisas que não são desejáveis dentro do serviço do bem.

Há também as situações onde, nas giras de direita, em casos de emergência, essa força da "esquerda" é chamada a servir. Assim como existem entidades de direita que trazem em si a possibilidade de trabalhar, também, nas linhas de esquerdas. Os chamados "quimbandeiros". E é justamente em relação ao trabalho dessas entidades "quimbandeiras" que o simbolismo dos "lados direito e esquerdo do corpo" se farão presentes em certos momentos. Seja na hora de preparar suas firmezas, seja na hora de aplicar um passe. Algum tempo atrás, ouvi de um dirigente de terreiro, que a presença de entidades da linha de direita "quimbandeiras" se justifica pelo fato de a umbanda na sua origem não trabalhar com as linhas de esquerda. E como em tudo é necessário um equilíbrio, a própria "linha de direita" encontrou um meio de trazer as forças da "esquerda" para dentro do terreiro.

Enfim, o assunto está longe de se esgotar e por isso pretendo, em algum momento, fazer a Parte II dessa postagem que versará justamente sobre a ideia de polaridade e complementariedade de forças.

Mas para quem deseja ler um pouco mais sobre o assunto, outro texto que também indico sobre o tema é O PODER DO ESQUERDO, publicado no blog "Estudos Bantos".




28 de jan. de 2015

Tenda dos Milagres

Não sou grande fã de Jorge Amado, mas devo reconhecer que ele foi peça importante para a divulgação, aceitação e melhor integração da cultura negra na Bahia. No livro que já mencionei aqui várias vezes, Vovô Nago e  Papai Branco, é mencionada a forte participação de intelectuais, não apenas antropólogos, na consolidação das religiões afro como patrimônio cultural. Jorge Amado é certamente um desses intelectuais.

Tenda dos Milagres, publicado em 1969, não retrata apenas a questão negra e mestiça, mas vai além. Retrata toda a luta que houve entre diferentes intelectuais, junto à instituições públicas, entre si, no período onde grande parte dos textos clássicos de antropologia sobre cultura negra estavam sendo escritos. Destaca-se, particularmente o debate entre o intelectual negro, Pedro Arcanjo (Manoel Querino na vida real) e o famoso antropólogo branco Nilo Argolo (Nina Rodrigues), que defendia teses que colocavam o negro e sua cultura em um patamar inferior ao dos Brancos. Até hoje os textos de Nina Rodrigues são criticados em textos antropológicos e, apesar de etnocêntricos, são leitura obrigatória para quem pretende se inteirar de todo o debate racial existente no Brasil. A discussão entre os dois personagens, Pedro Arcanjo e Nilo Argolo, dá um "ar" intelectualizado ao livro e o torna interessante do ponto de vista antropológico, também. Pois sabemos que na literatura podem ser resgatadas várias formas de pensamento de época, além de retratar o impacto que certos debates - no caso os debates raciais que envolvem também as religiões de matriz africana - tiveram.



Como não sou fã de Jorge Amado, ainda não li o livro (sim, faço aqui um "mea culpa"), muito embora ele esteja aqui separadinho para que eu leia assim que eu terminar de ler vários outros livros que estou lendo no momento. Logo a razão dessa postagem não é o livro, mas um filme produzido por Nelson pereira dos Santos, em 1977, sobre o livro. O filme é ótimo e apesar de ser longo, prende bem a atenção de quem se interessa pelo debate.

Segue o link:





Caso alguém queira ler o livro, clique na imagem abaixo para baixar a versão em PDF:


Até a próxima!

Malês e Kimbandas - II

Achei recentemente um artigo que aborda muito bem a influência muçulmana nas religiões afro-brasileiras. Segue o link:

https://sites.google.com/site/caboclopanteranegra/textos-doutrinarios-e-informativos/a-influencia-do-mundo-muculmano-no-candomble-e-na-umbanda


Um trecho de uma citação do artigo me chamou a atenção em particular, repasso aqui:


"Filho de Muhammad Salim e Fátima Faustina Mina Brasil, negros vindos da Costa da África, Assumano, “uma figurante impressionante de preto”- nas palavras do compositor e escritor Almirante – morava na rua Visconde de Itaúna, dizia trabalhar no comércio e dar consultas em sua residência, inclusive para pessoas conhecidas na sociedade carioca da época, como é o caso do jornalista e escritor Medeiros e Albuquerque.


Em 25 de outubro de 1927 , então com 47 anos, foi preso em flagrante, quando 'dava consulta' a Nair dos Santos, sendo levado para a Repartição Central da Polícia do Rio de Janeiro. Os investigadores policiais apreenderam alguns objetos em sua casa, entre os quais, um par de chifres de carneiro, três caramujos grandes, um pedaço de pele de cabra e fios de cabelo. Além disso, também foram encontradas receitas em caracteres arábicos, conforme depoimento do investigador Ruy Vasconcellos. Na conclusão do processo que se instaurou contra Assumano, consta que ele foi processado como incurso no artigo 157 do Código Penal de 1890, sob acusação de falso espiritismo e cartomancia. Mas os peritos concluíram que os objetos apreendidos não seguiam “as modalidades mais usuais na prática das ‘macumbas’ ou da ‘Magia Negra’”; sua especialidade era apenas “a prática de preces quasi sempre em linguagem africana, preocupando-se mais com a prática da caridade”. O processo foi arquivado em 28 de janeiro de 1928."


Em: Cultura, identidade e religião afro-brasileiras na cidade do Rio de Janeiro -1870-1930: cenários e personagens, Juliana Barreto Farias (grifo meu).


Fiquei me questionando se nessa época ele já conhecia, ou já tinha ouvido falar da Umbanda... Talvez seja um livro que valha à pena conferir.



26 de jun. de 2014

A história de Juca Rosa - O feiticeiro Negro do fim do Imperio

Cheguei ao nome de Juca Rosa ao assistir por curiosidade um dos vídeos da FTU (faculdade de teologia umbandista) com Rivas Neto descrevendo as Origens da umbanda. Sei que há controvérsias enormes sobre a existência de uma faculdade de teologia umbandista as quais não pretendo dissertar, mas o objetivo com o qual assisti o vídeo era o de ter uma visão de como as pessoas envolvidas com isso traçavam a "origem" da nossa religião. Eu esperava, com sinceridade, em ver mais uma descrição sobre o Zélio de Moraes, o Caboclo das 7 encruzilhadas, Pai Antônio, e me surpreendi em ver o Rivas colocando a "origem" de forma bem diversa daquela que normalmente os umbandistas (pelo menos os daqui do RJ) costumam colocar em consenso. Neste vídeo, cujo link perdi, Rivas menciona dois nomes como ícones da origem da umbanda, junto com Zélio: um deles é João de Camargo, paulista, cuja história foi retratada no filme brasileiro de nome Cafundó (eu adoro esse filme, por sinal); outro foi Juca Rosa, feiticeiro negro condenado por estelionato ainda na época do império aqui no RJ. Como eu nunca tinha lido, não que me lembrasse, o nome de Juca Rosa, fui em busca de dados, relatos ou algo que me informasse sobre esse cidadão.

De cara, e para minha surpresa, encontrei um artigo de uma historiadora da UNICAMP, Gabriela Sampaio, que nada mais é o resumo de sua tese de doutorado. Segue abaixo o link para o artigo:


Logo em seguida consegui a tese completa: 



A tese de doutorado, que inicialmente li por estar curiosa a respeito da história de Juca Rosa, me trouxe um pouco mais que isso. Do meio para o final, as conclusões da autora sobre os lucros que a investigação dessa história traz para a história de costumes me surpreenderam. Transcrevo aqui uma parte:


Podemos pensar que um dos elementos presentes na mente dos políticos e membros das classes dominantes durante todo o processo que culminou com a aprovação da lei [do ventre livre] foi o medo: medo que as elites tinham do perigo representado pelo negro, devido às pressões dos escravos e libertos, mas também devido a força com que as práticas culturais negras estavam presentes e difundidas na sociedade. Por mais que os grupos poderosos brancos tentassem negar, ou controlar tais práticas, é possível notar que os limites não eram claros entre o que eram práticas dos populares, dos negros, e o que eram práticas das elites, já que havia um movimento de interpretação, de mútuas influências entre brancos e negros, entre elites e subordinados. (p.184)

Isso nos lança uma luz sobre a caracterização da umbanda e demais práticas ditas "negras" como pertencente apenas às classes menos favorecidas. Pelo relato presente na tese, notamos que mesmo esta afirmação é preconceituosa e isenta de verdade, uma vez que as classes dominantes também frequentavam tais cultos, e buscavam nele soluções para seus problemas. Uma das razões pelas quais o julgamento do Juca Rosa foi polêmico, mesmo na época, é por trazer à luz nomes de autoridades, políticos e gente de posses que, direta ou indiretamente, estavam ligadas a estes cultos. Por que este dado é interessante? Porque até pouco tempo atrás, até os anos 80 todas os trabalhos que retratam a umbanda, ou religiões de descendência africana, retratam os cultos como pertencente às classes mais baixas e frequentados por pessoas das classes mais baixas. A grande novidade que a história de Juca Rosa traz, na abordagem da autora, é o fato de que esses cultos eram frequentados por pessoas de posses, que também doavam valores ao culto, muito embora nos depoimentos essas pessoas tentassem negar seu envolvimento. O que concluir disso: que muito embora a posse do conhecimento religioso estivesse nas mãos de negros e seus descendentes, estes conhecimentos não eram usados apenas por pessoas pouco letradas, os brancos e ricos também usavam deste conhecimento quando lhes era conveniente. Se nos anos que se seguiram retomassem as leis contra feitiçaria e se perseguisse novamente essas religiões a ponto delas ficarem restritas a pequenos grupo escondidos, isso se deve ao fato de que até mesmo as classes "esclarecidas" da sociedade brasileira estava se envolvendo em tais ritos e, essa prática, esse envolvimento, sim, deveria ser coibido!

Outro ponto que a autora destaca e com o qual eu concordo é a forma como a busca de origens e purezas nos rituais acaba empobrecendo uma análise cultural, e até mesmo a compreensão dessas religiões de matriz afro:

E ao falar de candomblé, é preciso entendê-lo em seu processo de constituição e afirmação, o que nos leva à busca que ocorreu entre diversos líderes religiosos e praticantes da religião dos Orixás no início do século XX, por raízes na África, para legitimar suas práticas, como se buscassem manuais e regras para garantir uma pureza e continuidade com relação a cultura Iorubá, ou Nagô. Já a umbanda que se oficializou na década de 1920, buscou se afastar de práticas africanas, e se aproximar de práticas católicas e kardecistas, como que buscando uma justificativa para sua existência. Todavia, essas construções foram feitas posteriormente, inventando origens e tradições que as legitimassem, tentando ignorar a trajetória, as transformações que as tradições religiosas sofreram com o tempo.

Concordo plenamente com esse incômodo que a autora destaca, e é esse incômodo o que no fundo me move a pesquisar. Sempre encontramos a umbanda relacionada ao kardecismo, ao catolicismo, mas nunca a vemos retratada em sua especificidade, como uma unidade em si, resultante de um processo, sim, mas algo único. Mesmo que seja possível retratar e identificar as mais diferentes influências, a umbanda é, em si, algo único que não se confunde nem com kardecismo, nem com o catolicismo e tampouco com o candomblé. A autora vê que esta falta de caracterização prórpia da umbanda e das demais práticas aqui no Brasil reside no que pode ser um erro dos pesquisadores: a forma como cada um vê a cultura, negra, branca, indígena, como uma célula, um bloco completamente separado um do outro e que em algum momento se toquem e misturem, aculturando uns, colonizando outros:

O que soa mais artificial em diferentes debates sobre o tema é, em primeiro lugar, a noção de cultura como sistemas fechados e imóveis, e , em segundo lugar, a ideia de estas culturas estarem em choque de repente, e se interpenetrarem, como se já não tivessem diversos pontos em comum, ou contatos anteriores à situação de escravidão no Brasil. Se as culturas são pensadas como conjuntos fechados, ando se pensa na relação entre culturas fica fácil pensar em ideias como justaposição, ou amalgama, ou mesmo aculturação, no sentido de dominação de uma pela outra. Daí para a busca de uma cultura de origem, pura, de um marco inicial, é um passo. Parte-se então à procura de uma origem mítica, que dificilmente pode ser fixada; da mesma forma não pode fazer sentido pensar em cultura como um pacote fechado, homogêneo, uma jaula onde elementos isolados se relacionam entre si e não se transformam com o tempo. (p.235)

A autora destaca ainda que culturas são dinâmicas e que o sincretismo faz mais sentido se pensado em termos de como a cultura muda, como passa a ser outra coisa. 

Essas últimas colocações me lembram desde Mircea Eliade, que destaca o fato de todas as religiões serem sincréticas, incluindo àquelas que hoje não vemos como sincréticas, até o segundo Wittgenstein e seus jogos de linguagem que inspirou o relativismo de Lévi-Strauss. Talvez se unirmos as duas teorias poderemos traçar não apenas os pontos que ligam a umbanda à outras religiões, como buscar uma unidade que particularize a umbanda em sua especificidade, e que faz com que ela não se misture com as demais religiões. Certamente eu terei que retornar a leitura desses autores que menciono aqui, mas vale a hipótese que tornou essa leitura bastante construtiva!

Ainda mais interessante é a forma dela tratar essa busca de uma origem como "mítica". O que ela pode querer dizer com origem mítica? Seria algo ilusório? Algo que não existe na realidade, mas se cogita para auxiliar a compreensão das religiões e suas práticas? Um marco necessário para conceder uma unidade à algo plural? Enfim, vale refletir a respeito!

Espero que apreciem a leitura dos textos aqui linkados e, caso eu encontre o vídeo que deu origem a essa minha pesquisa, postarei aqui. Até breve!

7 de mar. de 2014

Linhagens entre terreiros (Parte I)

Me deparei com um capítulo riquíssimo do Livro "Repensando o Sincretismo" do Ferreti, que versa sobre como o sincretismo fora visto na literatura acerca das religiões afro-brasileiras. Ao final do artigo, encontrei um debate extremamente interessante e que me fez repensar a questão dentro da experiência que tenho como umbandista. Em 6 anos de umbanda estou hoje na terceira casa, onde farei 3 anos em Abril. Neste trajeto tive contato com casas antigas que mantém suas tradições há 80 anos, outras que buscavam se situar no meio do caminho entre a umbanda e o candomblé (cuja principal dificuldade não vale mencionar aqui), além de ter conhecidos umbandistas com diferentes práticas. Isso me ajudou (e ajuda) muito a compreender a unidade que existe em nossa religião e aceitar a diferença e variedade que há entre as práticas e cultos que encontramos hoje.


Ao ler o final do capítulo 'Revisão da Literatura Sobre o Sincretismo' , a partir da crítica à Patrícia Birmam, me deparei com a questão: "os antropólogos definiram o que é a pureza de um ritual afro, ou apenas buscaram dirigentes de terreiros tradicionais para suas pesquisas?" Ferreti aceita a segunda alternativa. Porém, eu, umbandista praticante e investigativa, que nunca me detive apenas à "fé cega", muitas vezes admirada por alguns dirigentes, tenho dúvidas quando penso nos inúmeros e infinitos diálogos que já participei sobre o tema, com pessoas diferentes. O efeito que os textos acadêmicos têm sobre a concepção de religião dos praticantes de "religiões de matriz afro" não é hoje nula como era no início das pesquisas feitas por antropólogos. Mesmo que eu concorde com Ferreti quando ele diz que os primeiros terreiros pesquisados foram selecionados devido ao prestígio que tinham em suas regiões, o cenário que encontramos hoje é bem diverso do encontrado nas décadas de 30, 40. Hoje, não raro, vemos um umbandista ou praticante do candomblé procurar textos acadêmicos para nortear parte de sua compreensão religiosa. Parte, porque são poucos os trabalhos que trazem em seu corpo "fundamentos", "awô" reservados apenas aos iniciados. No entanto a compreensão geral do que é legítimo ou não em uma religiosidade de matriz afro é buscada, também, em textos acadêmicos. 

Em várias discussões sobre umbanda realizadas em fóruns sociais tive a oportunidade de ver brigas (sim, brigas mesmo!) sobre que elementos seriam válidos ou não na umbanda. Tal discussão remete diretamente à questão do sincretismo, característico da religião. Há, de certo modo, um sincretismo institucional e legitimado por diversos trabalhos clássicos (Nina Rodrigues, Bastide, etc.), o sincretismo católico. No entanto, há outras formas de sincretismos que são constantemente negadas (ciganos, linha do oriente, etc.), sendo motivo para acusações de "invencionices" e tema de brigas. Mas, na verdade, não é sobre essas discussões infinitas que pretendo dissertar aqui, até porque, entre praticantes da religião as discussões sempre são bem mais complexas que as que podem ser expressas em textos acadêmicos, já que o critério de coerência ultrapassa o exigido pela academia formal...rs

Depois de certo tempo de estudo, pude verificar que muito do prestígio e da legitimidade de certos cultos em detrimento de outros estão ligadas a uma linhagem. No candomblé há filiação entre terreiros, onde os "filhos" dos terreiros de mais prestígio usufruem parte do prestígio do terreiro de origem. Assim como na academia, um estudante orientado por um professor prestigiado, leva consigo parte desse prestígio depois de defendida a tese. É relativamente fácil verificar isso em uma "googlada", por exemplo: lista de sacerdotes de candomblé, Bahia e Os primeiros terreiros de candomblé. Na umbanda hoje não tem sido muito diferente. Muitos, ou a maioria, para fugir à denominação de "invencionice", ou "mistura sem sentido" típica das diversas caracterizações da umbanda que encontramos em textos que visam valorizar uma "raiz" africana (Bastide e Beatriz Góis Dantas são exemplos de autores que se referem assim à umbanda e, por isso, dão ênfase aos estudos das tradições mais puras), tentam se legitimar como culto dizendo seguir a umbanda de Zélio Fernandino de Morais, conhecido como fundador, ou anunciador da umbanda como religião. Mesmo que as diversas umbandas que encontramos não sejam "filiações" da umbanda de Zélio, no mesmo sentido que encontramos no candomblé, o uso de seu nome e de seus princípios funciona como um norte para os diversos terreiros de umbanda que desejam ser reconhecidos como tais e distintos daqueles que são acusados de "invencionices".

O fato é que a existência de textos acadêmicos que tentam traçar, por meio de etnografias, modelos pelos quais uma prática é mais ou menos legítima que a outra, que tentam buscar unidade com alguma "origem", identificar influências e investigar até que ponto elas são uma aculturação ou resistência étnica, serviu, ao longo dos anos, para dar um "norte" para legitimar cultos antes proibidos. O que era negro e excluído, passou a ser "patrimônio cultural" respeitado e legítimo. Dentro desta "busca" por seu lugar e pelo seu espaço, as etnografias foram e são peça importante! Tão importantes que os próprios praticantes as buscam para tentar entender melhor "o seu lugar" dentro do contexto social geral e dentro, também, de uma cosmologia própria, traçada por Verger, Bastide, Elbein, e legitimadas pelos dirigentes dos terreiros pesquisados. O que faltava, politicamente, como léxico legitimador de uma prática religiosa para a sociedade, foi preenchida pelas etnografias que destacavam a "função" social geral dos terreiros. 

Na umbanda e nos estudos sobre umbanda, ainda encontramos muita diversidade, mais separação que união e um ícone, inquestionavelmente, contribuiu muito para que a umbanda fosse vista como religião e não como mera prática de feitiçaria: Zélio Fernandino de Morais. Hoje é praticamente impossível estudar a umbanda sem tropeçar neste nome, e sua influência é tão forte que há, até mesmo, certa tentativa em buscar as raízes de Zélio em vários terreiros. Tal é a tentativa do autor do Blog Registros de Umbanda, que traz uma ótimo material sobre a história do da umbanda e seus terreiros mais antigos, porém focado na imagem de Zélio como principal ícone. Há no Blog até mesmo questionamentos sobre a ligação de Zélio com dirigentes de outros terreiros importantes no país, como a Tenda Mirin. O trabalho do Blog, que resultou em um livro é importante e válido, mas me parece seguir a mesma lógica de legitimação de terreiros que mencionei anteriormente: buscar raízes, traçar um modelo para depois verificar o que são as variantes, etc.


O assunto não se esgota aqui e o intuito dessa postagem era apenas registrar a identificação deste
movimento em busca de legitimidade (por meio de raízes) que teve sua origem nas etnografias sobre o candomblé no Brasil, e que estão se repetindo nos estudos de umbanda. Pontuando isso, tendo a concordar com as críticas feitas por Patrícia Birman (se essas foram descritas corretamente por Ferreti em seu texto). Mesmo que as etnografias tenham sido feitas apenas com objetivos acadêmicos, o seu uso, com o passar dos anos, não se restringiu à academia. É inegável a importância que estes estudos tiveram politicamente e socialmente para a legitimação de uma religiosidade que era historicamente perseguida. Não foi sem a ajuda dos etnógrafos que os praticantes das religiões de matriz africana conquistaram o seu espaço social. Assim, a figura do etnógrafo não é (e não foi, principalmente neste caso) apenas a de um observador que descreve fatos, ele ajudou a construir o espaço social que essas religiões possuem hoje, de tal modo que este "espaço" serve de "modelo" para o que é aceito ou não. Neste mesmo movimento a umbanda busca seu espaço legitimador, na contramão das acusações de "bagunças", tentando se desvencilhar do esvaziamento que os debates sobre "sincretismo" parecem trazer.



19 de fev. de 2014

Linha de Atendimento e suas funções (Parte I)

                 Recentemente ganhei alguns livros sobre umbanda e religiões afro brasileiras e, em um deles Rituais Negros e Caboclos de Nívio Ramos Sales, li algo sobre o qual eu discordei durante um bom tempo:

Na economia existe a lei da oferta e da procura, na umbanda, infelizmente, por diversos fatores, essa lei é usada como uma constante. O imediatismo, o agora é o predominante. O indivíduo busca respostas várias e solução de problemas que a sua sociedade não consegue responder, tampouco solucionar. 
             
            Eu sempre critiquei, e acredito que todo umbandista que ingresse em um terreiro aprende essa crítica, a busca de resultados imediatos para os problemas. Nem sempre a coisa acontece dessa forma e, em muitos casos essa acaba sendo a razão da descrença de muitos. Umbanda é magia, sim, mas não para se conseguir tudo o que se quer. Conseguir ou não o que se busca, depende de muitas variáveis e, na maioria dos casos, não basta ir uma vez a uma consulta com caboclos, pretos-velhos, ou exus. 
            Há no imaginário popular uma visão da umbanda como a prática de trabalhos para suas realizações, esse imaginário dá margem a muitos charlatões que acabam usando o nome de nossa religião para praticar trabalhos nada louváveis (amarrações, trabalhos para o mal, etc.) e até mesmo cria o espaço propício para que charlatões de diversos tipo se aproveitem dos interesses daqueles que acreditam ser essa a função da umbanda. 
            A briga entre umbandistas sérios e as pessoas que usam mal o nome da umbanda é grande, é longa e histórica. Não são poucos os livros de antropologia que destacam a umbanda como um "culto confuso" e sem definição. No livro Vovô Nagô e Papai Branco, que já comentei aqui, a Mãe de Santo do terreiro pesquisado do Recife diz que a umbanda é a religião que "tem muita invenção" [sic], além de ser a religião que "cobra dinheiro da irmandade"[sic]. Além dessa descrição, há a comparação entre a umbanda e as antigas macumbas cariocas que foram muito perseguidas por serem "religiões negras" -  no sentido literal, pois eram os negros que frequentavam; e no sentido metafórico, indicando que era uma forma de magia usada como vingança para perseguições e combate à inimigos.
             São muitas as causas da confusão que se faz ao pensar a umbanda como religião imediatista. No entanto, há algo na afirmação citada ao início desse texto que não é totalmente errada:  O indivíduo busca respostas várias e solução de problemas que a sua sociedade não consegue responder, tampouco solucionar. 
         O público que busca a umbanda é, hoje, muito diversificado. Ainda há a necessidade de esclarecer as pessoas que buscam a umbanda em relação à sua função, mas acredito que grande parte dessa visão estereotipada que mencionei aqui já está desfeita. Apesar disso, acredito que a afirmação de Nívio está correta, pois não são poucos os casos em que as pessoas que procuram um centro de umbanda pedem orientação, ajuda até mesmo para soluções jurídicas, buscam compreender sua condição. O público da umbanda, como disse, é bem diversificado. vai do pequeno empresário pedindo proteção e ajuda nos negócios, à faxineira, ao morador da favela que tenta driblar suas dificuldades diárias em relação à violência e falta de infraestrutura. Vai do mocinho ao bandido, e tudo isso seguido de um aconselhamento amigo das entidades que não julgam. Não veem cara, apenas o que há no coração das pessoas, tentando resgatar-lhes a autoestima, a força para continuar a caminhada. Para, muitas das vezes, resgatar a dignidade perdida em meio a tantas adversidades.
            Se há algo que o médiun de umbanda que vai para a linha de atendimento aprende muito rápido, ou pelo menos espera-se que aprenda, é que não se pode julgar as pessoas sem saber o que se passa no coração delas...
             Já fui muito contrária à falas como as de Nívio, pelas razões que aqui expus. Hoje repenso falas como essa e vejo que há, no fundo, uma razão de ser. Não que a umbanda vá resolver cada um dos problemas que chegam até ela, mas auxilia, acaba sendo um braço amigo que integra pessoas que são excluídas, que consola o sofrimento e resgata muitas vezes a dignidade que a sociedade não dá.
               Essa é a reflexão de hoje!


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

24 de nov. de 2013

A Estrela Oculta do Sertão

Porque a diáspora foi cruel não apenas com africanos. Segue um documentário sobre Marranos no Brasil e sua tentativa de resgatar as raízes judaicas.

O interessante é que o documentário mostra como alguns "sincretismos" permitiram à algumas famílias identificarem sua origem Marrana. A partir disso elas, ou alguns membros delas, puderam buscar uma melhor compreensão sobre velhos hábitos tradicionais, e, em alguns casos um resgate a religiosidade judaica (judeus retornados).

Por meio do vídeo percebemos que a "busca das raízes" não é um tema africano, ou indígena, apenas.



Algumas leituras sobre o tema:

1) Ser Marrano em Minas Colonial - Anita Novinsky (USP)

2) Aspectos Fundamentais para o Estudo do Marranismo - Marcos Silva (UFS)

(Os artigos que não li ainda)

3) O fenômeno marrano no Brasil, da colônia aos nossos dias- Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade Federal de Viçosa)

4) A PRESENÇA DO DIABO NO COTIDIANO MEDIEVAL JUDAICO: OS RITOS DE PASSAGEM (esse é por interesse pessoal sobre o misticismo judaico).

22 de nov. de 2013

Qual o terreiro de candomblé mais antigo do Brasil?

Hoje, novamente, me deparei com um documentário postado por um amigo de Natal no facebook e que me trouxe várias reflexões, algumas das quais eu coloco aqui.

Existe, ou existiu, certa rixa aqui no Brasil entre terreiros para saber qual é o mais antigo. A antiguidade traria, consequentemente, um status de "pureza" ritual, reafirmando uma identidade originária africana. Na sequência, vem a negação de sincretismos e coisas afins, como forma de validar e revalidar essa identidade. Afinal, sincretismo com catolicismo servia apenas para proteger a religião negra de preconceitos, conforme muitos ainda dizem.

O fato é que esse documentário tenta "resgatar" essa ideia, não explicitamente, mas pelo simples fato de haver no terreiro um marco que registra sua fundação, ainda no séc XVII - Um busto de Castro Alves e a data de 1658. Considerando que nesta época o tráfico de escravos ainda era vigente no país, não parece ser necessário nada a mais para legitimar a antiguidade do culto e, portanto, sua proximidade com as raízes africanas. O documentário retrata um terreiro Jeje, no município de Maragogipe no Recôncavo Baiano. Uma das afirmações fortes que o documentário traz, por parte de um dos historiadores entrevistados, é justamente a negação do sincretismo em prol de uma identidade africana.

Curiosamente, como tenho lido a respeito dos sincretismos, o documentário me fez lembrar de um artigo que li há tempos atrás: As Metamorfoses de Sakpatá, Deus da Varíola  de Claude Lépine. A cultura Jeje, que cultua Voduns, veio da região do Dahomé, justamente a região que Lépine estuda em seu artigo. Ela nos conta que antes de serem migrados para terras escravistas, os negros capturados, passavam um tempo no Dahomé. Nesta região, justamente pela política escravista, foi formado um panteão que reunia todos os deuses das diferentes tribos capturadas. Cito:

Realizou-se também naquele período um trabalho de sistematização e de organização da multiplicidade dos deuses dos povos incorporados ao Danxome.  Este trabalho deve ter sido realizado e se cristalizou no decorrer do século XVII, sob a orientação dos sacerdotes submetidos ao Ajaho (ministro dos cultos), e resultou na elaboração de um panteão. Estabeleceu-se uma classificação do conjunto das entidades, que foram repartidas em nove "coros" (...) Tratava-se de subordinar todos os cultos ao culto real e de fazer dele um símbolo de unidade.

Enfim, mesmo que o culto mais antigo do Brasil, mantenha algo de originário da África, manterá  já um sincretismo formado nas zonas portuárias, onde os escravos de diversas etnias se concentravam antes de embarcarem. E, consequentemente, vários, Voduns, Orixás e Nquices tiveram seus significados mesclados, nomes associados a ponto de se tornarem "qualidades". Houve um "sincretismo" antes mesmo da vinda para o Brasil, ou para outros países escravistas. Mesmo Sapaktá, ou Obaluayê passaram por esse sincretismo sendo relacionados com a Varíola no mesmo período.  Para saber mais um pouco, o blog saravá umbanda copia parte do texto de Lépine.

Onde quero chegar com isso? Não quero desmerecer os terreiros mais antigos, ao contrário. Tenho muito respeito e, com sinceridade, senti vontade de pisar no Terreiro do Pinho, retratado no documentário) e sentir a energia daquele solo. Meu objetivo é, somente tentar mostrar que o conceito de sincretismo é mais profundo do que parece a primeira vista. Sincretismo não se relaciona apenas com a presença de elementos católicos nas religiões afro, ao contrário, antes mesmo da vinda ao Brasil já haviam sincretismos. Um desses "sincretismos" é o da religião trazida pelos Haussás, muçulmanos, tema de uma postagem anterior.

Enfim, Apesar de tantas reflexões, achei o documentário ótimo! Vale muito à pena assistir. Claro que ele traz mais elementos para reflexão. Mas no momento, como estou lendo acerca do sincretismo, essa idéia de "puro" que necessita a sua negação, me chamou mais a atenção.





8 de nov. de 2013

Mandingos, Malês, Kimbandas

Mandingo (Roque Ferreira)

Devagar com esse nêgo mandingo
Ele sabe apanhar a folha
Sabe mexer na erva
Sabe rezar a reza
Sabe curimar
Quando bate vem cabôco e orixá
Quando dança tudo que é erê vem dançar
Nó de amor que ele faz ninguém desata
Ele é dono do tempo, do vento,
Do mar e da mata
Ói que esse nêgo malê
Foi rei no Senegal
Vem de lá o seu poder
Para o bem e para o mal
No pescoço um talismã
Na cintura um tecebá
Seu remédio é curador
Seu veneno é de matar
Foi nas águas de Oxum
Que lavou seu colar
Mas é Ogum Xoroquê seu Eledá

A letra acima retrata um um Negro Malê, bruxo, mandingueiro, daqueles que quando aparecem na umbanda, costumam causar um certo ar de mistério. Muitas vezes as entidades chamadas "kimbandeiras" trazem esse estigma de bruxaria pesada, algumas vezes trazem elementos não apenas da cultura africana, e sim pertencentes a tradições aparentemente "estranhas" ao africanismo. A Cruz de Caravaca; a estrela de 6 pontas chamada , também, como Selo de Salomão; as contas; as rezas; os talismãs; além de um conhecimento mais apurado sobre certos assuntos.

Dizem que estas entidades trabalham com os Exus, por serem estes que na umbanda lidam com as energias mais pesadas de magia. Mas não é este o aspecto que pretendo abordar aqui.

Se buscarmos nas histórias sobre o povo Negro no Brasil, encontramos em Narrativas como a de João do Rio em, As Religiões do Rio, histórias sobre como os negros malês eram mais distantes dos demais negros. Primeiro por serem muçulmanos, segundo por que o islamismo praticado por eles não era isento de sincretismos com religiões locais da África e, portanto, cheias de misticismo e traços de magia. Eram cultos, letrados e dominavam feitiços desconhecidos dos demais negros de origem banta e nagô. Junto ao islamismo, cultuavam, como João do Rio retrata, os aligenum, espíritos ruins, equivalentes aos Djins árabes, mas chamados de Guinnê, dyiné, adjan (Arthur Ramos, As Culturas Negras, Cap.VI).

Não eram tão submissos quanto outros grupos negros, foram protagonistas de revoltas na Bahia, a revolta dos malês, cujo resultado foi praticamente um extermínio desse grupo. Os que não foram mortos, foram pegos e deportados de volta à África, alguns poucos que permaneceram no Brasil, viviam uma vida austera e reservada. Outros se converteram ao cristianismo, como retrata Edison Carneiro (Religiões Negras, 1991,p. 73). Até que com o tempo foram totalmente (ou quase totalmente) extintos, justamente em razão de seu isolamento. Segundo João do Rio: Os alufás [sacerdotes malês] não gostam da gente de santo a que chamam auauadó-chum; a gente de santo despreza os bichos que não comem porco, tratando-os de malês.

Além da evocação aos aligenum, outras curiosidades destacadas por Arthur Ramos sobre os malês são o costume de usar arroz queimado (carvão) para escrever em pequenas tábuas, que depois de lavadas ingeria-se a água da lavagem para adquirir virtudes mágicas; o uso de pequenas bolsas com rezas, orações, seladas por símbolos cabalísticos, tais como o selo de Salomão; O uso do Tecebá, um colar com três séries de 33 contas.
Selo de Salomão


Além dessas curiosidades, há algumas outras retratadas, tal como a
origem de certas expressões como "fazer sala", que se remete às orações feitas pelos malês durante do dia, cujo o primeiro termo da oração era Salah. Também o próprio termo mandinga, cuja origem está no grupo dos mandingos, também, muçulmanos africanos vindos para o Brasil e aqui designados como malês.


Mashbaha Muçulmano com 99 contas, tal como o Tecebá.


De Acordo com Arthur Ramos, mesmo com extinção dos malês alguns traços de sua cultura permaneceram mescladas à cultura banta, resultando em sincretismos, que podem ser percebidos em terreiros das macumbas com sincretismos variados.

Há mesmo um estudo que trata da influência dos malês nos cultos  pernambucanos, cujo link segue abaixo:



Acredito que com esse pequeno resumo já dê para entender um pouco melhor alguns sincretismos que aparecem na umbanda, bem como a música de Roque Ferreira interpretada pela Roberta Sá com o qual encerro essa postagem.