Mostrando postagens com marcador downloads. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador downloads. Mostrar todas as postagens

27 de ago. de 2016

Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)

Essa postagem é um pouco inspirada no artigo "Eram os gregos macumbeiros?". Porém em uma vertente diferente. 

Ultimamente tenho me voltado bastante para filosofia grega e dentre tantos preparos para aula, pensei: porque não aproveitar o ensejo para pesquisar algo que me interesse? E assim comecei um estudo que já tem alguns anos eu desejava fazer. Tentar entender um pouco melhor o conceito de DAEMON no pensamento socrático, tal qual reproduzido por Platão (e Xenofantes, também, muito embora não tenha me aprofundado nesse segundo autor).

No meio dos meus estudos lembrei que no Evangelho Segundo o Espiritismo há um tópico, logo na introdução, só sobre como Sócrates teria sido um "precursor" das ideias cristãs - acho (meio hereticamente) que não é bem assim, e espero poder falar disso mais a frente. Mas importa, nesse primeiro momento que o Espiritismo considera Sócrates como um dos primeiros pensadores a falar sobre reencarnação e sobre espíritos que nos acompanham, DAEMONES, que seriam, na visão kardecistas como mentores espirituais.

Os artigos que encontrei sobre o tema mostram que parte da condenação de Sócrates envolve não apenas o fato dele ser considerado um "aliciador de jovens", no sentido de disseminar entre eles a reflexão, o questionamento sobre temas básicos como "a justiça", "o bem", etc. Está presente também na condenação de Sócrates a acusação de subverter as crenças estabelecidas, o que alguns interpretam em como não crer nos deuses e de substituí-los por outros seres (que seriam os daemones). Para compreender melhor isso é necessário entender: (1) se tais entidades já estavam presentes na religiosidade grega; (2) a forma como Sócrates pessoalmente se relacionava com seu daemon. Ao falarmos dessa segunda parte é que a questão do título desse post se coloca.

Sobre o tópico (1) podemos explicar em linhas gerais que desde Hesíodo (bem antes de Sócrates) os daemones já faziam parte da religiosidade grega. Eles eram subordinados à um Theos, um Deus. E eram responsáveis por acompanhar os homens (um para cada homem) para garantir que seu destino se cumprisse, mas sem interferir nisso. Ou seja, não havia nenhum tipo de comunicação entre um homem e seu daemon pessoal, nem para o bem, nem para o mal. No final da vida (e isso o kardecismo fala certo) é o daemon o responsável por conduzir a alma "do seu humano" pelo Hades.

A grande diferença que podemos encontrar entre os daemones clássicos e os que são referidos por Sócrates, é que, diferente do que diria a religiosidade, Sócrates conseguia "ouvir" conselhos de seu daemon. O daemon, não agia, deixava as escolhas por conta de Sócrates, mas o aconselhava de vez em quando. E é essa relação com o seu daemon pessoal que gerou a grande confusão. Como, de acordo com Hesíodo, os daemons apenas selam para que os destinos sejam cumpridos sem nunca interferir (nem comunicar nada), era uma afronta Sócrates estabelecer uma relação de camaradagem com seu daemon pessoal. Na cabeça dos gregos, Sócrates estava substituindo a crença nos deuses pela crença em seu daemon, como se ele fosse a divindade. 

Alguns interpretes consideram que a acusação de Sócrates era equivoca, e que não se trata de uma "substituição de divindades", mas sim da ressignificação dos daemones, já que antes de Sócrates essa comunicação não ocorria (não que a gente saiba...rs) O próprio Sócrates, em sua defesa, argumentou que Daemones são mensageiros dos Deuses, cada um subordinado a um Deus, crer nos daemones, implica necessariamente crer nos deuses que os criaram e os colocaram para guardar os homens. A diferença é que Sócrates recebia e acolhia os conselhos dados por seu daemon (que pelo que li era enviado por Apolo). Enfim, o problema todo estava, na verdade, no fato de Sócrates se comunicar com esses ser "dividos" e tê-lo como conselheiro. E por isso veio a questão: Seria Sócrates um Médiun?

Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, sim. O contato de Sócrates com o daemon representa o que hoje se vê nos contatos mediúnicos com mentores espirituais. 

Mas esse é um blog sobre umbanda, certo? Por que abordar esse tema aqui? 
Cabe lembrar que proponho não um mero acordo com o Espiritismo (lá no começo do texto) mas uma leitura de certo modo herética do texto de Kardec. 

Quando Kardec menciona Sócrates, o faz no sentido dele ser um precursor de idéias cristãs que estão presentes no espiritismo. Mas será que é isso mesmo? Vejamos: no espiritismo os mentores espirituais não são enviados por Deuses e nem subordinado à deuses. Já na umbanda podemos encontrar algo bem mais parecido com o que os gregos falavam sobre esses seres, uma vez que todos os espíritos trabalhadores de umbanda são agrupados em falanges que respondem a um Orixá (seja esse Orixá interpretado uma deidade ou como força da natureza). Talvez isso ocorra justamente por ter uma "raiz" pagã em ambos os casos: O panteão grego não era cristão, assim como o panteão dos Orixás não era cristão em sua origem.

Ao que diz respeito aos daemones, creio que eles sejam mais próximos dos guias espirituais de umbanda, que dos mentores espíritas, pelo fato deles serem ordenados, organizados, conforme os deuses do olimpo. 

Mas o Evangelho afirma que Sócrates é um precursor das ideias do cristianismo. Afirma, também, que nada do que ele traz é absolutamente novo na história da humanidade. A própria proposta do Evangelho de Kardec é apresentar uma releitura de passagens do novo testamento à luz da doutrina espírita, mostrando que a doutrina não é contraditória com o texto sacro. Mas se é assim, porque ainda vemos tamanha resistência dos católicos em aceitarem a doutrina espírita? Seria puro preconceito? Será que Sócrates, os daemones, a reencarnação são compatíveis com os dizeres de Jesus, de acordo com o cristianismo apostólico romano que conhecemos? Não. E nem dá para afirmar que historicamente em algum momento o cristianismo tenha aceito teorias similares ao que prega o Espiritismo. É uma afirmação forte, sim. Mas uma afirmação baseada nas cruzadas que catequizavam pelo sangue, bem como nas perseguições e condenações das Heresias.

Historicamente o sec. XIII foi decisivo em relação à consolidação de determinadas doutrinas católicas. Dois eventos marcaram parte um momento de "depuração" da doutrina para transformá-la no que conhecemos hoje.

O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.

Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.

Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.

O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs

Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais! 



3 de abr. de 2016

A Legitimação da Umbanda como Religião (notas)

Algum tempo atrás eu recebi um PDF do livro  O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda do Leal de Souza. A obra de 1932 (creio eu) retrata alguns aspectos da umbanda, principalmente da praticada na Tenda do Zélio de Moraes, cujo autor presidia a segunda filial.  

Achei interessante, inicialmente por ter já lido trecho do livro citado no Umbanda do João de Freitas, para quem já dediquei uma postagem aqui. Mas ao começar a leitura o interesse aumentou. Logo de cara:

O Sr. Leal de Souza, nos seus artigos sobre “O Espiritismo e as Sete Linhas de Umbanda”, não vai fazer propaganda, porém, elucidações, mostrando-nos, as diferenciações do espiritismo no Rio de Janeiro, as causas e os efeitos que atribui as suas práticas, dizendo-nos o que é como se pratica a feitiçaria, tratando não só dos aspectos científicos como ainda da Linha de Santo, dos Pais de Mesas, do uso do defumados, da água, da cachaça, dos pontos, em suma, da magia negra e da branca.
Esperamos que as autoridades incumbidas da fiscalização do espiritismo e muitas vezes desaparelhadas de recursos para diferencias o joio e o trigo, e o povo, sempre ávido de sensações e conhecimentos, compreendam, em sua elevação, os intuitos do Diário de Notícias.

Já de início fica clara a intenção da publicação, diferenciar o joio do trigo, dar a umbanda nascente de Zélio de Moraes um estatuto público diferente do dado aos demais rituais de espiritismo de umbanda perseguidos na época.

De fato, o livro traz algumas considerações gerais acerca da umbanda praticada nas tendas de Zélio e procura diferenciá-las das praticas de magia. Destaca muito do que qualquer médium da religião sabe: que as provas de incorporação às quais as entidades e médiuns eram submetidos, são hoje shows de exibicionismo; que a função de uma mediunidade consciente é o de dar oportunidade ao médium de aprender com a entidade com a qual trabalha; que não se deve cruzar braços e pernas durante as sessões, etc. Além, dentre algumas descrições parcas sobre as linhas de umbanda, os orixás, que hoje vemos de forma bem diferenciada dependendo da casa e da escola de umbanda.

Não vou destacar nesse momento as qualidades e o que deixa a desejar no livro, mas sim o seu valor histórico. Remeto aqui a uma observação que Beatriz Góes Dantas faz em seu livro "Vovô Nagô e Papai Branco" sobre a construção do Nagô Puro:

"Outro ponto que destaco do livro é o capítulo 4 que trata da "Construção e significado da pureza Nagô". Este capítulo traz, como elemento interessante, a origem daquilo que foi classificado como PURO nas religiões afro. Inicialmente esta designação partiu dos chefes de casa que estavam dispostos a, junto com intelectuais e antropólogos (Gilberto Freyre, Artur Ramos), a revitalizar a cultura negra, coisa que nem todos os terreiros e barracões estavam dispostos, pela desconfiança natural que se tinha dos "de fora" em uma época de perseguições violentas à religião. Posteriormente, quando essa "moda de revitalização" chegou à Bahia (com Verger e Jorge Amado, junto a outros antropólogos) a noção de pureza foi ressignificada, passando a se referir aos terreiros que continham mais traços comum com os remanescentes cultos africanos (remanescentes, pois hoje em dia a África é quase toda protestante e católica e o culto primitivo aos Orixás é fortemente combatido como prática de feitiçaria). Enfim, por um lado a pureza significava valores regionais típicos, por outro a pureza significava a proximidade do culto com a Mãe África. Mas é interessante destacar que, tanto de um lado como de outro, era consensual que a prática do culto visando o mal, ou fazer mal a outrém era, era desprezada.

Desde o princípio está envolvido no conceito de "pureza" a prática do culto com o objetivo de trazer força e prosperidade aos filhos de santo. A cura de males que possam ser causados por "Orixás insatisfeitos". A ideia mais comum é que cuidando do santo se garante uma vida feliz e próspera ao filho de santo."
O Valor Histórico das Obras de Leal, tem o mesmo contexto: o de tentar diferenciar a umbanda de Zélio das demais práticas do gênero. E, não podendo apelar para uma "pureza Nagô" ou "pureza Africana", apena para os conceitos de "bem e mal", aponta para um sincretismo cristão forte que não o nega:

A Linha Branca de Umbanda e Demanda tem o seu fundamento no exemplo de Jesus, expulsando a vergalho os vendilhões do templo. Às vezes, é necessário recorrer à energia para reprimir o sacrilégio, consistente na violação das leis de Deus em prejuízo das criaturas humanas.

Outras vezes apela para o caráter elevado que as entidades escondem, remetendo à herança espírita que me pergunto se é do autor ou da umbanda em si, muito embora ele remonte à fatos:

Uma ocasião, numa pequena reunião de cinco pessoas, um protetor caboclo descarregava os maus fluidos de uma senhora, enquanto também incorporado, um preto velho, Pai Antônio, fumava um cachimbo, observando a descarga.

- Cuidado, caboclo avisou o preto. O coração dessa filha não está batendo de acordo com o pulso.
- Como é que Pai Antônio viu isso? Deixe verificar, pediu um médico presente à sessão.

Depois da verificação, confirmou o aviso do preto, que o surpreendeu de novo, emitindo um termo técnico da medicina, e explicando que o fenômeno não provinha, como acreditava o clínico, de suas causas fisiológicas, porém de ação fluídica, tanto que terminada a descarga, se restabelecia a circulação normal no organismo da dama. E assim aconteceu.

O doutor, então, quis conversar sobre a sua ciência com o espírito humilde do preto, e, antes de meia hora, confessava, com um sorriso, e sem despeito, que o negro abordara assuntos que ele ainda não tivera oportunidade de versar, e estranhava:

- Pai Antonio não pode ser o espírito de um preto da África e não se compreende que baixe para fumar cachimbo e falar língua inferior ao cassanje (dialeto crioulo do português falado nessa região; por ext. português mal falado e escrito.)
- Eu sou preto, meu filho.
- Não, Pai Antonio. O senhor sabe mais medicina do que eu.
Por que fala desse modo? Há de ser por alguma razão.
O preto velho explicou:
- Eu não baixo em roda de doutores. Doutor, aqui só há um, que és tu, e nem sempre vens cá. Depois, meu filho, se eu começo a falar língua de branco, posso ficar tão pretensioso como tu, que dizes saber menos medicina de que eu, disse, numa linguagem, arrevesada, que traduzimos.

Os protetores da Linha Branca em geral se especializam, no espaço, em estudos ou trabalhos de sua predileção na Terra e baixam aos centros e incorporam para um objetivo definido. Acontece, porém, que muitas vezes são induzidos a erros pelos consulentes, com a cumplicidade dos presidentes de sessões. Uma pessoa os interroga sobre assunto de que não tem conhecimento pleno.

As obras de Leal de Souza e o acesso que este tinha a veículos da imprensa foram fundamentais para que a umbanda fosse legitimada enquanto expressão religiosa e, qualquer historiador que se preze da religião deverá passar pelas obras dele. Acredito que se a história de Zélio de Moraes e a construção da sua escola de umbanda como referência prática em inúmeros terreiros de hoje (mesmo àqueles que não praticam a umbanda de Zélio estritamente) se deve à Leal de Souza como divulgador da religião.

Há aqui, o que parece ser uma construção da religião, tal qual ocorreu com o discurso de "pureza" nas nações, um mesmo movimento, muito embora não tenha tido autoria de antropólogos. O que me faz, novamente, refletir sobre a construção de narrativas e a influência que essas construções passam a ter, ao longo dos anos, sobre a própria religião. Hoje, são antropólogos e historiadores que se voltam para a figura de Leal de Souza para tentar reconstruir esse momento de "surgimento" da umbanda.

É assim: a pessoa que me enviou o texto levantou uma bola, e eu como pesquisadora amadora, encontrei links com documentos que podem ser bem interessantes para quem se interessar nessa parte da história da umbanda:

Documentos Históricos da Umbanda - onde o livro de Leal de Souza que citei se encontra disponível para download, além de outros documentos interessantes.

Há também uma biografia de Leal de Souza (sim, isso muito me interessa...rs) escrita pelo historiador Diamantino Fernandes Trindade, que ressalta a figura do escritor como um intelectual reconhecido da época.
Reunião dos dirigentes das Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, presidida por Zélio de Moraes na TENSP












21 de fev. de 2016

Simbolismos do lado esquerdo - Parte I

A razão pela qual essa postagem tem uma "Parte I" no título reside no fato de não pretender esgotar o tema nessa postagem. Aqui apresentarei apenas uma problematização da divisão "direita" e "esquerda", sob um viés antropológico, problematizando essa divisão e a forma como ela atua no imaginário de quem vê a umbanda de fora. Não se trata de apresentar uma visão de "doutrina", mas apenas de entender como um simbolismo que não pertence apenas à umbanda, mas está presente nela e em várias culturas (alguns diriam até que está presente em um inconsciente coletivo) resulta em interpretações que, hoje o umbandista, com alguma dificuldade, se esforça em desconstruir. Também gostaria de deixar claro que o objetivo dessa postagem é o de questionar as relações que estabelecemos com a "esquerda" sob o ponto de vista de uma antropologia. Ou seja, trata-se menos de delinear as características doutrinárias reservadas a essa linha, e mais de observar que quando falamos "esquerdo" aparecem muitas relações simbólicas que não são vistas inicialmente e que refletem também na forma como concebemos a linha da esquerda, seja conscientemente ou inconscientemente.

É comum a todos os umbandistas a existência das linhas de direita e da linha de esquerda. E em conjunto com o trabalho dessas linhas vem uma série de preceitos relacionados que inclui o uso das mãos direita e esquerda, em certas ocasiões, dependendo de qual das linhas se trabalha - uso da mão direita ao lidar com as linhas da direita, uso da mão esquerda ao lidar com a linha de esquerda. E com o tempo observei que algo parecido e ligado aos lados direito e esquerdo de nosso corpo se repetem durante os trabalhos das entidades, mesmo as das linhas de direita, quando pretendem em algum momento "evocar" as forças da esquerda. Isso me fez refletir: 1) sobre os usos que nós mesmos fazemos sobre essa divisão "direita" e "esquerda"; 2) como "esquerda" e "direita" são compreendidos e empregados no senso comum e que, fatalmente, resultará em; 3) a forma como as linhas de "esquerda" parecem se opor antagonicamente as linhas de "direita".

É claro que, como boa nerd que sou, não fiz essa reflexão, nem tampouco escrevo essa postagem, sem antes ter procurado alguns textos que pudessem me ajudar a organizar o que eu já vinha refletindo a respeito. E foi pesquisando que encontrei o artigo A preeminência da mão direita: um estudo sobre a polaridade religiosa, do antropólogo Robert Hertz. A partir desse artigo, pude organizar melhor uma ideia que estava surgindo na minha mente de forma intuitiva, apenas.

O fato é que durante muito tempo tudo o que era relacionado ao esquerdo era escondido, ou impedido de atuar pelo simples fato de relacionarem este lado à coisas ruins, ocultas, obscuras, profanas, ou seja, a tudo o que é oposto ao bem. Eu não sabia muito bem como colocar isso como ponto de partida: inquisição? Onde canhotos eram considerados bruxos? Na índia? Onde tradicionalmente a limpeza higiênica de detritos humanos é realizada sempre com a mão esquerda (e por isso come-se apenas com a mão direita). Pelo sufismo islâmico dos dervixes que dançam com a mão direita estendida ao céu para colher as bênçãos divinas e a mão esquerda reta, voltada para a terra? Pelas falas cristãs:  Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.Mateus 6:3,4 Ou ainda a oração do Credo, que afirma a posição de Jesus à direita de Deus... Enfim, são tantas as culturas que distinguem os lados "direito" e "esquerdo", culturas seculares e milenares, que fica mesmo complicado tentar traçar um momento, ou um local onde isso possa ter surgido. 

As relações entre "direito" e "bom" X "esquerdo" e "profano", "mau", estão tão arraigados em nossas mentes que podemos facilmente perceber, junto com Hertz, que até mesmo na nossa linguagem usamos frequentemente os termos "direito" e "esquerdo" para designar o "certo e o "errado". A palavra sinistro em nossa língua possui essa raiz de significação. Segundo o dicionário AULETE, sinistro significa:
a.
1. Que provoca temor, que pressagia uma desgraça (ambiente sinistro, ameaça sinistra, silêncio sinistro); ASSUSTADOR
2. Que usa a mão esquerda; CANHOTO [ Antôn.: destro ]
3. Que indica perversidade; que causa mal (projetos sinistros).
4. Que inspira receio (olhar sinistro); ASSUSTADOR
sm.
5. Desastre, acidente: No sinistro morreram cinco pessoas.
6. Grande prejuízo material: A inundação não causou vítimas, mas o sinistro foi considerável.
7. Dano em qualquer bem segurado (pagamento do sinistro).
[F.: Do lat. sinistrum, de sinister, -tra, -trum 'esquerdo, canhoto'.]

Se formos mais longe, podemos até notar que o termo em inglês "Bright" (brilhante, luminoso) carrega um "right" (direito, certo) em sua composição.

Do mesmo modo, quando se fala em "linha de esquerda" na umbanda, os exus e pombo giras, muita gente pensa na associação com o diabo. Se for evangélico, então, nem se fala. Mas será que apenas eles pensam dessa forma? Será que não há algo na própria forma como essa linha é concebida que faz com que essa seja uma associação válida?

Mesmo que nos dias atuais exista um esforço em eliminar essa associação (Exu=Diabo, portanto àquele que pratica o mal) será que não existe algo na forma como compreendemos essas entidades que torna mais difícil a dissociação? Pensemos...

Arquetipicamente essas entidades são espíritos que representam representam a nossa ligação com a terra, consequentemente, trazem em seus gestuais elementos que nos tornam mais próximos a eles. A dubiedade de exu, a sensualidade das pombo-giras. Eles estão constantemente lidando, nos atendimentos, com as questões mais materiais - trabalho, amor, etc... São eles que vem ao socorro quando se lida com uma energia mais densa, pesada, a chamada demanda ou quebra de magia. Isso porque possuem contato mais direto com o oculto (que sempre foi relacionado ao lado esquerdo).

Hertz, no artigo cujo link coloquei acima, observa que uma das consequências da distinção "direito" X "esquerdo", que culminam nos papéis que as mãos esquerda e direita possuem na sociedade, é que ao lado esquerdo ficou, quando muito, reservada a função de auxiliar o lado direito, tido como o certo. O lado esquerdo, devido às construções de significados presentes desde sempre em diversas culturas, não possuía o "direito" de se desenvolver plenamente. Isso, Hertz afirma literalmente sobre o uso das mãos e da tentativa sistemática que existiu durante anos a fio de tornar crianças canhotas em destras. Mas será que, de certa forma, isso não pode ser notado também em relação à construção da umbanda?

Os primeiros terreiros de umbanda (aqueles que seguiam a linha de Zélio de Morais) não trabalhavam com a chamada "linha de esquerda". Aos poucos essas linhas foram aparecendo como linha "auxiliar", para firmar a defesa de uma casa (a tronqueira) e em alguns centros se fazia sessões com eles apenas para médiuns. Seja como for, a linha de esquerda não aparece como o pilar da umbanda. Quando se fala em umbanda, sempre se pensa que umbanda é feita principalmente com criança, caboclo e preto-velho. Ou seja, as linhas chamadas de "direita". Grande parte dos terreiros possuem nomes ou de santos católicos, ou de caboclos e pretos-velhos. Não é habitual vermos um centro de umbanda tendo um exu, ou pombo-gira, como guia chefe, e se vemos um, logo desconfiamos da índole da casa. Será que é mesmo umbanda, ou é mais um tentando usar impropriamente o nome da religião? No entanto, nos dias atuais, são raros os terreiros que não trabalhem com exus. Qual o papel deles, então? Não seria o de auxiliar os trabalhos realizados pelas linhas de direita?

Em resumo, inconscientemente, endossamos o papel auxiliar mencionado por Hertz no artigo, quando relegamos aos exus os trabalhos de limpeza pesada, bem como os trabalhos de magia que lidam com o que há de mais oculto, para auxiliar o bom andamento dos trabalhos da direita. Com isso, também endossamos a ideia de que os exus são as entidades mais "sinistras" da umbanda, por que apenas eles podem lidar com o oculto (mesmo que eles usem isso para a prática do bem). A sensualidade da pombo-giras, o jeito mais solto do exu, também fazem com que essa linha torne presente à mente do consulente coisas que ele talvez viesse esconder de um preto-velho por moralismo, ou por saber ser incorreto. São várias as situações em que, mesmo que tentemos desmistificar a figura de exu, desvencilhando ela da prática da "baixa magia" ou de uma associação com o "diabo", "o mal", nós mesmos pensamos neles como representando, ou indicando, a presença (mesmo que seja para combatê-la) de coisas que não são desejáveis dentro do serviço do bem.

Há também as situações onde, nas giras de direita, em casos de emergência, essa força da "esquerda" é chamada a servir. Assim como existem entidades de direita que trazem em si a possibilidade de trabalhar, também, nas linhas de esquerdas. Os chamados "quimbandeiros". E é justamente em relação ao trabalho dessas entidades "quimbandeiras" que o simbolismo dos "lados direito e esquerdo do corpo" se farão presentes em certos momentos. Seja na hora de preparar suas firmezas, seja na hora de aplicar um passe. Algum tempo atrás, ouvi de um dirigente de terreiro, que a presença de entidades da linha de direita "quimbandeiras" se justifica pelo fato de a umbanda na sua origem não trabalhar com as linhas de esquerda. E como em tudo é necessário um equilíbrio, a própria "linha de direita" encontrou um meio de trazer as forças da "esquerda" para dentro do terreiro.

Enfim, o assunto está longe de se esgotar e por isso pretendo, em algum momento, fazer a Parte II dessa postagem que versará justamente sobre a ideia de polaridade e complementariedade de forças.

Mas para quem deseja ler um pouco mais sobre o assunto, outro texto que também indico sobre o tema é O PODER DO ESQUERDO, publicado no blog "Estudos Bantos".




26 de jun. de 2014

A história de Juca Rosa - O feiticeiro Negro do fim do Imperio

Cheguei ao nome de Juca Rosa ao assistir por curiosidade um dos vídeos da FTU (faculdade de teologia umbandista) com Rivas Neto descrevendo as Origens da umbanda. Sei que há controvérsias enormes sobre a existência de uma faculdade de teologia umbandista as quais não pretendo dissertar, mas o objetivo com o qual assisti o vídeo era o de ter uma visão de como as pessoas envolvidas com isso traçavam a "origem" da nossa religião. Eu esperava, com sinceridade, em ver mais uma descrição sobre o Zélio de Moraes, o Caboclo das 7 encruzilhadas, Pai Antônio, e me surpreendi em ver o Rivas colocando a "origem" de forma bem diversa daquela que normalmente os umbandistas (pelo menos os daqui do RJ) costumam colocar em consenso. Neste vídeo, cujo link perdi, Rivas menciona dois nomes como ícones da origem da umbanda, junto com Zélio: um deles é João de Camargo, paulista, cuja história foi retratada no filme brasileiro de nome Cafundó (eu adoro esse filme, por sinal); outro foi Juca Rosa, feiticeiro negro condenado por estelionato ainda na época do império aqui no RJ. Como eu nunca tinha lido, não que me lembrasse, o nome de Juca Rosa, fui em busca de dados, relatos ou algo que me informasse sobre esse cidadão.

De cara, e para minha surpresa, encontrei um artigo de uma historiadora da UNICAMP, Gabriela Sampaio, que nada mais é o resumo de sua tese de doutorado. Segue abaixo o link para o artigo:


Logo em seguida consegui a tese completa: 



A tese de doutorado, que inicialmente li por estar curiosa a respeito da história de Juca Rosa, me trouxe um pouco mais que isso. Do meio para o final, as conclusões da autora sobre os lucros que a investigação dessa história traz para a história de costumes me surpreenderam. Transcrevo aqui uma parte:


Podemos pensar que um dos elementos presentes na mente dos políticos e membros das classes dominantes durante todo o processo que culminou com a aprovação da lei [do ventre livre] foi o medo: medo que as elites tinham do perigo representado pelo negro, devido às pressões dos escravos e libertos, mas também devido a força com que as práticas culturais negras estavam presentes e difundidas na sociedade. Por mais que os grupos poderosos brancos tentassem negar, ou controlar tais práticas, é possível notar que os limites não eram claros entre o que eram práticas dos populares, dos negros, e o que eram práticas das elites, já que havia um movimento de interpretação, de mútuas influências entre brancos e negros, entre elites e subordinados. (p.184)

Isso nos lança uma luz sobre a caracterização da umbanda e demais práticas ditas "negras" como pertencente apenas às classes menos favorecidas. Pelo relato presente na tese, notamos que mesmo esta afirmação é preconceituosa e isenta de verdade, uma vez que as classes dominantes também frequentavam tais cultos, e buscavam nele soluções para seus problemas. Uma das razões pelas quais o julgamento do Juca Rosa foi polêmico, mesmo na época, é por trazer à luz nomes de autoridades, políticos e gente de posses que, direta ou indiretamente, estavam ligadas a estes cultos. Por que este dado é interessante? Porque até pouco tempo atrás, até os anos 80 todas os trabalhos que retratam a umbanda, ou religiões de descendência africana, retratam os cultos como pertencente às classes mais baixas e frequentados por pessoas das classes mais baixas. A grande novidade que a história de Juca Rosa traz, na abordagem da autora, é o fato de que esses cultos eram frequentados por pessoas de posses, que também doavam valores ao culto, muito embora nos depoimentos essas pessoas tentassem negar seu envolvimento. O que concluir disso: que muito embora a posse do conhecimento religioso estivesse nas mãos de negros e seus descendentes, estes conhecimentos não eram usados apenas por pessoas pouco letradas, os brancos e ricos também usavam deste conhecimento quando lhes era conveniente. Se nos anos que se seguiram retomassem as leis contra feitiçaria e se perseguisse novamente essas religiões a ponto delas ficarem restritas a pequenos grupo escondidos, isso se deve ao fato de que até mesmo as classes "esclarecidas" da sociedade brasileira estava se envolvendo em tais ritos e, essa prática, esse envolvimento, sim, deveria ser coibido!

Outro ponto que a autora destaca e com o qual eu concordo é a forma como a busca de origens e purezas nos rituais acaba empobrecendo uma análise cultural, e até mesmo a compreensão dessas religiões de matriz afro:

E ao falar de candomblé, é preciso entendê-lo em seu processo de constituição e afirmação, o que nos leva à busca que ocorreu entre diversos líderes religiosos e praticantes da religião dos Orixás no início do século XX, por raízes na África, para legitimar suas práticas, como se buscassem manuais e regras para garantir uma pureza e continuidade com relação a cultura Iorubá, ou Nagô. Já a umbanda que se oficializou na década de 1920, buscou se afastar de práticas africanas, e se aproximar de práticas católicas e kardecistas, como que buscando uma justificativa para sua existência. Todavia, essas construções foram feitas posteriormente, inventando origens e tradições que as legitimassem, tentando ignorar a trajetória, as transformações que as tradições religiosas sofreram com o tempo.

Concordo plenamente com esse incômodo que a autora destaca, e é esse incômodo o que no fundo me move a pesquisar. Sempre encontramos a umbanda relacionada ao kardecismo, ao catolicismo, mas nunca a vemos retratada em sua especificidade, como uma unidade em si, resultante de um processo, sim, mas algo único. Mesmo que seja possível retratar e identificar as mais diferentes influências, a umbanda é, em si, algo único que não se confunde nem com kardecismo, nem com o catolicismo e tampouco com o candomblé. A autora vê que esta falta de caracterização prórpia da umbanda e das demais práticas aqui no Brasil reside no que pode ser um erro dos pesquisadores: a forma como cada um vê a cultura, negra, branca, indígena, como uma célula, um bloco completamente separado um do outro e que em algum momento se toquem e misturem, aculturando uns, colonizando outros:

O que soa mais artificial em diferentes debates sobre o tema é, em primeiro lugar, a noção de cultura como sistemas fechados e imóveis, e , em segundo lugar, a ideia de estas culturas estarem em choque de repente, e se interpenetrarem, como se já não tivessem diversos pontos em comum, ou contatos anteriores à situação de escravidão no Brasil. Se as culturas são pensadas como conjuntos fechados, ando se pensa na relação entre culturas fica fácil pensar em ideias como justaposição, ou amalgama, ou mesmo aculturação, no sentido de dominação de uma pela outra. Daí para a busca de uma cultura de origem, pura, de um marco inicial, é um passo. Parte-se então à procura de uma origem mítica, que dificilmente pode ser fixada; da mesma forma não pode fazer sentido pensar em cultura como um pacote fechado, homogêneo, uma jaula onde elementos isolados se relacionam entre si e não se transformam com o tempo. (p.235)

A autora destaca ainda que culturas são dinâmicas e que o sincretismo faz mais sentido se pensado em termos de como a cultura muda, como passa a ser outra coisa. 

Essas últimas colocações me lembram desde Mircea Eliade, que destaca o fato de todas as religiões serem sincréticas, incluindo àquelas que hoje não vemos como sincréticas, até o segundo Wittgenstein e seus jogos de linguagem que inspirou o relativismo de Lévi-Strauss. Talvez se unirmos as duas teorias poderemos traçar não apenas os pontos que ligam a umbanda à outras religiões, como buscar uma unidade que particularize a umbanda em sua especificidade, e que faz com que ela não se misture com as demais religiões. Certamente eu terei que retornar a leitura desses autores que menciono aqui, mas vale a hipótese que tornou essa leitura bastante construtiva!

Ainda mais interessante é a forma dela tratar essa busca de uma origem como "mítica". O que ela pode querer dizer com origem mítica? Seria algo ilusório? Algo que não existe na realidade, mas se cogita para auxiliar a compreensão das religiões e suas práticas? Um marco necessário para conceder uma unidade à algo plural? Enfim, vale refletir a respeito!

Espero que apreciem a leitura dos textos aqui linkados e, caso eu encontre o vídeo que deu origem a essa minha pesquisa, postarei aqui. Até breve!

30 de set. de 2011

"Orun Ayê" de José Beniste


Recentemente comprei este livro por já ter lidos bons comentários a respeito. É minha atual leitura e, de fato, é uma ótima leitura para quem pretende conhecer melhor a parte da "filosofia ritual" do candomblé e dos Yorubás.




O livro explica cuidadosamente desde a cosmogonia yorubá, passando pelo jogo de ifá, a importãncia dos mitos de Ifá na determinação de uma ética e uma moral válidas, não apenas para o ritual, mas também para a vida. A importância do ori na vida de uma pessoa. Qual a relação que os orixás estabelecem com o Ori e as pessoas. O culto aos ancestrais entre outras coisas.

Creio ser uma boa indicação para quem deseja iniciar seus estudos na cultura afro.

Link para download:

ORUN AYÊ




28 de set. de 2011

Documentário Santo Forte

Segue um documentário muito interessante que mostra as relações entre protestantismo, catolicismo e religiões afro-brasileiras dentro de uma comunidade.

Trailer:



Link para baixar: http://eduardocoutinho.blogspot.com/2007/09/santo-forte.html

25 de set. de 2011

Observações Sobre o Livro "Vovô Nagô e Papai Branco" de Beatriz Góes Dantas.

Tem tempos que o blog não é atualizado, mas hoje resolvi trazer uma resenha que há tempos venho programando (já que o tempo está chuvoso e não pude fazer a trilha que desejava...rsrsrs)

No ano de 2011 uma das boas leituras que fiz e que me deu elementos interessantes para repensar a Religião UMBANDA foi o livro "Vovô Nagô e Papai Branco" de Beatriz Góez Dantas, leitura praticamente obrigatória para quem deseja aprofundar os estudos sobre a História das Religiões Africanas no Brasil.

O Livro trata, em especial, de um terreiro "Nagô Puro" do Recife, da cidade de Laranjeiras. Mas não trata APENAS de uma leitura etnográfica sobre este terreiro. Destaco como Partes interessantes do Livro o capítulo 3, onde a autora compara a narrativa da Mãe de Santo com elementos históricos sobre o trato com os escravos pós abolição. Grande parte dos escravos alforriados, principalmente os que trabalhavam nas casas grandes, se mantiveram em seus trabalhos em troca de benefícios, tais como: escola para os filhos, garantia de médicos e outras regalias que dificilmente seriam mantidas caso decidissem sair dos cuidados de seus antigos senhores, dada as condições precárias que os negros enfrentavam pós abolição em uma sociedade racista. Estes elementos destacados no capítulo se tornaram material de aula para mim. Toda vez que abordo a questão do trabalho com meus alunos de EJA, e das condições de trabalho, trabalho alienado, etc., menciono a política de benefícios destacando que esta prática existe desde aquela época. É uma forma deles pensarem o que está por trás dessa política, e ver que a ideologia paternalista não é a ideal, já que data de uma época pouco amistosa para os negros libertos. Como grande parte dos meus alunos são negros, a aula acaba tendo uma ótima recepção.

Outro ponto que destaco do livro é o capítulo 4 que trata da "Construção e significado da pureza Nagô". Este capítulo traz, como elemento interessante, a origem daquilo que foi classificado como PURO nas religiões afro. Inicialmente esta designação partiu dos chefes de casa que estavam dispostos a, junto com intelectuais e antropólogos (Gilberto Freyre, Artur Ramos), a revitalizar a cultura negra, coisa que nem todos os terreiros e barracões estavam dispostos, pela desconfiança natural que se tinha dos "de fora" em uma época de perseguições violentas à religião. Posteriormente, quando essa "moda de revitalização" chegou à Bahia (com Verger e Jorge Amado, junto a outros antropólogos) a noção de pureza foi ressignificada, passando a se referir aos terreiros que continham mais traços comum com os remanescentes cultos africanos (remanescentes, pois hoje em dia a África é quase toda protestante e católica e o culto primitivo aos Orixás é fortemente combatido como prática de feitiçaria). Enfim, por um lado a pureza significava valores regionais típicos, por outro a pureza significava a proximidade do culto com a Mãe África. Mas é interessante destacar que, tanto de um lado como de outro, era consensual que a prática do culto visando o mal, ou fazer mal a outrém era, era desprezada.
Desde o princípio está envolvido no conceito de "pureza" a prática do culto com o objetivo de trazer força e prosperidade aos filhos de santo. A cura de males que possam ser causados por "Orixás insatisfeitos". A ideia mais comum é que cuidando do santo se garante uma vida feliz e próspera ao filho de santo.

Onde entra a umbanda nessa história? Entra como uma variante impura dos cultos afros. Na classificação da autora, que segue o modelo do culto Nagô do Recife, a umbanda é tão degenerada quanto eram os cultos Malês e o Toré. Os Malês sumiram por praticarem o mal, o Toré é misturado e impuro por trabalhar com caboclos e praticar curandeirismo e magia, a umbanda é impura porque reúne elementos dos ritos anteriores e ainda cobra dinheiro pelos serviços prestados. Assim, o nome umbanda, carrega neste contexto, tudo o que há de ruim e que venha denegrir a imagem das religiões africanas "puras".

O interessante notar, neste contexto, é que a umbanda historicamente sempre foi colocada à margem. À margem do próprio africanismo, que hoje alguns terreiros se esforçam em recuperar, e à margem do espiritismo, escola da qual, alguns afirmam, a umbanda é filha (cujos problemas já levantei em postagens anteriores). O trabalho da Beatriz traz questões interessantes a ser pensada: será possível, de fato, um "resgate africanista" na umbanda como propõem alguns autores? Recentemente me deparei com um livro, uma coletânea de um congresso sobre religiões afro-brasileiras, onde há um capítulo dedicado ao resgate africano dentro da umbanda. Será mesmo possível? Pensar numa definição para a umbanda dentro do contexto histórico de religiões brasileiras já catalogadas é difícil, já que sua definição parece sempre depender do ponto de vista do referencial. Cabe perguntar qual a forma mais correta, e menos estranha, pela qual o umbandista pode definir legitimamente a sua religião.

Quem quiser ter acesso ao texto da Beatriz, está disponível no banco de teses e dissertações da UNICAMP. Basta fazer a inscrição para poder baixar o texto no seguinte link:

26 de fev. de 2011

Umbanda de Pretos Velhos - Etienne Salles

Resolvi colocar aqui um link para baixar um e-book, na verdade uma dissertação de mestrado de um Pai de Santo chamado "Etienne Salles", que vale muito a pena ser lido.
A pesquisa fala dos cultos anteriores à umbanda, questiona a "fundação da umbanda" por Zélio Moraes de forma bem inteligente e tenta traçar, dentro da diversidade, as características que são próprias ao seu culto.

É um trabalho lúcido, que não tem um objetivo doutrinário, mas de pesquisa. Muito bom para aqueles que desejam conhecer as formas de praticar a umbanda.

26 de ago. de 2009

Os sonhos (Parte II)

Há na história humana vários relatos de mensagens transmitidas por sonhos. Mensagens vinda de um lugar misterioso, de seres misteriosos, de ancestrais e Deuses. Até mesmo no catolicismo a narrativa de pessoas que tiveram "revelações" pode meio de sonhos existem.

Jung ao estudar as religiosidades, destaca este aspecto histórico do sonho e confronta com a nossa realidade atual e cética, que descarta qualquer possibilidade de ver neles algum tipo de mensagem ou conhecimento:

Quando na epopéia babilônica Gilgamesh provoca os deu­ses com sua presunção e sua hybris, estes inventam e criam um homem tão forte como Gilgamesh, a fim de pôr termo às ambições do herói. O mesmo acontece com nosso paciente: é um pensador que pretendia ordenar continuamente o mundo com o poder de seu intelecto e entendimento. Tal ambição con­seguiu pelo menos forjar seu destino pessoal. Submeteu tudo à lei inexorável de seu entendimento, mas em alguma parte a natureza se furtou sorrateiramente, vingando-se dele, sob o dis­farce de um disparate absolutamente incompreensível: a idéia de um carcinoma. Este plano inteligente foi tramado pelo in­consciente, para travá-lo com cadeias cruéis e impiedosas. Foi o mais rude golpe desferido contra seus ideais racionais e principalmente contra sua fé no caráter onipotente da vontade humana. Tal obsessão só pode ocorrer num homem acostumado a abusar da razão e do intelecto para fins egoístas.

Gilgamesh, entretanto, escapou à vingança dos deuses. Teve sonhos que o preveniram contra esses perigos e ele os levou em consideração. Os sonhos lhe mostraram como vencer o ini­migo. Quanto ao nosso paciente, homem de uma época em que os deuses foram eliminados e até mesmo passaram a gozar de má reputação, também teve sonhos, mas não os escutou. Como um homem inteligente poderia ser tão supersticioso a ponto de levar os sonhos a sério? O preconceito, muito difundido, contra os sonhos é apenas um dos sintomas da subestima muito mais grave da alma humana em geral. Ao magnífico desenvolvimento científico e técnico de nossa época, correspondeu uma assus­tadora carência de sabedoria e de introspecção. É verdade que nossas doutrinas religiosas falam de uma alma imortal, mas são muito poucas as palavras amáveis que dirige à psique hu­mana real; esta iria diretamente para a perdição eterna se não houvesse uma intervenção especial da graça divina. Estes im­portantes fatores são responsáveis em grande medida — em­bora não de forma exclusiva —, pela subestima generalizada da psique humana. Muito mais antigo do que estes desenvolvi­mentos relativamente recentes são o medo e a aversão primi­tivos contra tudo o que confina com o inconsciente. (C.G. JUNG - Psicologia e Religião)


Os sonhos na verdade, desde muito tempo são fontes de informações, seja sobre nós mesmos, seja oriundas de "espíritos e Deuses". Segue ainda uma passagem do mesmo texto de Jung e que mostra como a influência da mentalidade ocidental afetou muitas culturas primitivas no que tange a consideração dos sonhos:

A vida do primitivo é acompanhada pela contínua preocupação da possibilidade de perigos psíquicos, e são numerosas as tentativas e procedimentos para reduzir tais riscos. Uma ex­pressão exterior deste fato é a criação de áreas de tabus. Os inumeráveis tabus são áreas psíquicas delimitadas que devem ser religiosamente observadas. Certa vez em que visitava uma tribo das vertentes meridionais do Monte Elgon, cometi um erro terrível. Durante a conversa, quis indagar acerca da casa dos espíritos que muitas vezes encontrara nas florestas, e men­cionei a palavra selelteni, que significa "espírito". Imediata­mente todos se calaram e eu me vi em apuros. Todos desviavam a vista de mim, que pronunciara, em voz alta, uma palavra cuidadosamente evitada, abrindo com isto o caminho para as mais perigosas conseqüências. Tive que mudar de assunto, a fim de poder continuar a conversa. Eles me garantiram que nunca tinham sonhos, privilégio do chefe da tribo e do curandeiro. Este último logo me confessou que não tinha mais sonhos, pois em seu lugar a tribo tinha agora o comissário do distrito. "Depois que os ingleses chegaram ao país, não temos mais sonhos — disse ele —; o comissário sabe tudo a respeito das guerras, das enfermidades, e onde devemos viver". Esta estranha afirmação se deve ao fato de que os sonhos anterior­mente constituíam a suprema instância política, sendo a voz de mungu (o numinoso, Deus). Por isso seria imprudente para um homem comum deixar surgir a suspeita de que tivesse sonhos.

Interessante notar acima que, nas culturas primitivas eram dos sonhos do curandeiro e do chefe que vinham a ordenação social e política daquela cultura. O sonho, neste caso, servia como meio de apreensão de normas e condutas passadas aos mais velhos por seus ancestrais. Um exemplo interessante disso encontramos em um documentário sobre uma tribo indígena brasileira, que colocarei aqui no Baú na próxima postagem.

A questão é, a humanidade de forma geral, em diversas e diferentes culturas, sempre consideraram os sonhos como fonte de conhecimentos e meios de receber mensagens do mundo misterioso que desconhecemos quando da vigília:

Os sonhos são a voz do desconhecido, que sempre está ameaçando com novas intrigas, perigos, sacrifícios, guerras e outras coisas molestas. (...) Há inúmeros ritos mágicos cuja única finalidade é a defesa contra as tendências imprevistas e perigosas do inconsciente. O estranho fato de que o sonho representa, por um lado, a voz e a mensagem divinas e, por outro, uma inesgotável fonte de tribulações, não perturba o espírito primitivo. Encontramos resquícios deste fato primitivo na psicologia dos profetas judeus. Muitas vezes eles hesitam em escutar a voz que lhes fala. E — é preciso admitir — não era fácil para um homem piedoso como Oséias casar-se com uma mulher pública, para obedecer a ordem do Senhor. Desde os albores da humanidade observa-se uma pronunciada propensão a limitar a irrefreável e arbitrária influência do "sobrenatural", mediante fórmulas e leis. E este processo continuou através da história, sob a forma de uma multiplicação de ritos, instituições e convicções. Nos dois últi­mos milênios a Igreja cristã desempenha uma função mediadora e protetora entre essas influências e o homem. Nos escritos da Idade Média não se nega que em certos casos possa haver uma influência divina nos sonhos, mas não se insiste sobre este ponto, e a Igreja se reserva o direito de decidir, em cada caso, se um sonho constitui ou não uma revelação genuína.

Num exce­lente tratado sobre os sonhos e suas funções diz Benedictus Pererius S. J.: "Com efeito, Deus não está ligado às leis do tempo e não precisa de ocasiões determinadas para agir, pois inspira seus sonhos em qualquer lugar, sempre que quiser e a quem quiser". A passagem seguinte lança uma luz interes­sante sobre as relações entre a Igreja e o problema dos sonhos: "Lemos com efeito, na vigésima segunda Colação de Cassiano, que os antigos mestres e guias espirituais dos monges eram versados na investigação e interpretação cuidadosas da origem de certos sonhos". Pererius classifica os sonhos da seguinte maneira: ... "muitos são naturais, vários são humanos e alguns podem ser divinos". Os sonhos têm quatro causas: 1) doença física; 2) afeto ou emoção violenta, produzidos pelo amor, pela esperança, pelo medo ou pelo ódio; 3) o poder e a astúcia do demônio, isto é, de um deus pagão ou do diabo cristão. (...) ; 4) sonhos enviados por Deus. Relativamente aos sinais que indicam origem divina de um sonho diz o autor “...sabemo-lo pelo valor das coisas manifestadas no sonho, ou seja: se, graças a esse sonho, a pessoa fica sabendo de coisas cujo conhecimento só poderia ser alcançado por uma concessão ou dom especial de Deus. Trata-se dos fatos que a Teologia das escolas chama de futuros e daqueles segredos do coração encerrados no mais recôndito da alma escapando por completo ao conhecimento humano e, finalmente, dos mistérios supremos de nossa fé, que não podem ser conhecidos senão por revelação do próprio Deus (!!)..." Por último, chega-se ao conhecimento de seu caráter (divino), principalmente por uma iluminação e uma comoção interior mediante a qual Deus aclara a mente do homem e toca a sua vontade de tal modo, que o convence da veracidade e autenticidade de seu próprio sonho; reconhece também Deus como seu autor, com uma certeza e evidência tão grandes que é obrigado a acreditar, sem a mínima sombra de dúvida".

Estas citações são úteis para mostrar que, longe do que parece, considerar os sonhos como meio de contato com realidades e conhecimentos de origem "sobrenatural" não é novo. Ao contrário, é quase tão antigo quanto a própria humanidade. A inovação Espírita está apenas no fato de tentar estudar sistematicamente os sonhos como elementos mediúnicos, ou seja, de contatos com espíritos.

Coisa curiosa de se notar na última citação, é que os sonhos quando possuem sua origem em um contato "divbino", vêm acompanhados com uma sensação de certeza íntima e absoluta despertada na mente. Não acho que essa característica seja apenas acidental, ou que seja apenas uma descrição "romântica" que vise marcar a distinção entre os sonhos comuns e Místicos. Acho que cada um de nós, ao termos certos sonhos, devemos investigar intimamente as sensações que ele trouxe e depois avaliar internamente a possibilidade de considerarmos "reais ou quiméricos".

Por mais racionais que sejamos, sempre há o que nos escapa a razão, o que apenas pode ser sentido e não falado, nem transmitido por palavras. Há certos sentimentos que acompanham tais sonhos e estes não devem ser ignorados, pois são eles que nos permitem decifrar intimamente o seu significado e a importância que tem em nossas vidas, que são apenas nossas e de mais ninguém. Pois ninguém pode viver a vida do outro, sentir o sentimento do outro e pensar pelas idéias do outro. Há uma espécie de "sentido privado" nestes sonhos que nenhuma teoria pode decifrar de forma adequada, mas apenas apontar...

Porém os sonhos não são Apenas um meio de contato nosso com espíritos. Lembremos que somos uma alma imortal e, segundo premissas estabelecidas pelas religiões espiritualistas, com várias e várias encarnações. Portanto, não somos apenas o nosso Ego atual, mas a soma de todos os egos que já tivemos e que constintui um sentido de "EU" muito superior àquele proferido na auto-referência cotidiana. A psicologia quando aponto os sonhos para o incosnciênte, não erra. Pois estes vários egos que já existiram, pertencem muitas das vezes a esta esfera psicológica a qual os sonhos tem acesso. Em certas ocasiões podem nos ocorrer sonhos que remetam a qualquer destes egos perdidos, ou até mesmo um contato com este EU maior, sem a interferência de nenhum ego.... Porém isso é tema para outra postagem.

Assim que eu conseguir melhor compreender essas relações eu as colocarei aqui no baú.



Quem quiser baixar o Livro Psicologia e Religião do Jung citado nesta postagem basta clicar AQUI.