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27 de out. de 2016

Pontos Riscados

Uma das coisas na umbanda que intriga os neófitos são os pontos riscados. Fazendo uma busca na web sobre o tema, encontramos algumas coisas a respeito, mas tenho dúvida se essas coisas traduzem o que é o ponto riscado. Encontramos muito frequentemente, na maior parte das vezes, que um ponto riscado é uma assinatura da entidade de umbanda.

Nos terreiros, ouvimos muitos aconselhamentos que nos alertam sobre "os perigos" em buscar pontos riscados, bem como a compreensão deles via internet. Isso ocorre por duas razões básicas:

1) existem vários espíritos agrupados em um mesmo nome de falange (exemplo: caboclo 7 flechas); isso não significa que exista uma única assinatura de falange. Cada caboclo 7 flechas terá o seu ponto riscado, individual e intransferível. Por essa razão os terreiros, de modo geral, desaconselham seus neófitos a buscarem na internet. Isso, de certo modo, pode dificultar o processo do desenvolvimento, uma vez que falte uma compreensão adicional (que exporei a seguir).

2) Pontos riscados possuem uma gramática própria e nem todos são uma "assinatura" da entidade. Existem pontos de firmeza, pontos de descarga, pontos de energização e assim por diante... O fato é que cada ponto riscado tem como objetivo formar um amálgama, uma síntese das energias que serão usadas em determinado trabalho, de forma que nenhuma outra possa vir interferir.

Dessa forma notamos que nos casos dos pontos riscados das entidades de umbanda, cada uma delas trará em seu ponto riscado as energias que elas podem vir manipular. Esse ponto pode ser diferente, por exemplo de um ponto de proteção dado pela entidade. Assim nem sempre que um neófito recebe por intuição, ou em sonho, um ponto riscado significa que este é o ponto de "identificação" de uma entidade. Da mesma forma nem sempre ao encontrarmos um desenho de ponto riscado na internet, atribuído a uma guia de uma certa falange, esse ponto será o ponto da nossa entidade e/ou o ponto de identificação da entidade.

Pontos riscados são formados de acordo com uma gramática que APENAS as entidades de umbanda conhecem. Algumas vezes os próprios guias nos permitem conhecer um pouco desses pontos, mas a gramática mesmo as entidades sabem.

Há também na web algumas tabelas que associam símbolos de pontos riscados à linhas de trabalho e à Orixás. É interessante saber esses significados, sim. Mas sempre levando em consideração que qualquer um desses símbolos pode adquirir outro significado dependendo da posição em que aparece no ponto, dependendo, inclusive, da direção do traço na hora da riscagem.

Em resumo: saber parte do símbolos e significados frequentes nos pontos riscados é útil, mas não resume o que é o ponto riscado.




27 de ago. de 2016

Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)

Essa postagem é um pouco inspirada no artigo "Eram os gregos macumbeiros?". Porém em uma vertente diferente. 

Ultimamente tenho me voltado bastante para filosofia grega e dentre tantos preparos para aula, pensei: porque não aproveitar o ensejo para pesquisar algo que me interesse? E assim comecei um estudo que já tem alguns anos eu desejava fazer. Tentar entender um pouco melhor o conceito de DAEMON no pensamento socrático, tal qual reproduzido por Platão (e Xenofantes, também, muito embora não tenha me aprofundado nesse segundo autor).

No meio dos meus estudos lembrei que no Evangelho Segundo o Espiritismo há um tópico, logo na introdução, só sobre como Sócrates teria sido um "precursor" das ideias cristãs - acho (meio hereticamente) que não é bem assim, e espero poder falar disso mais a frente. Mas importa, nesse primeiro momento que o Espiritismo considera Sócrates como um dos primeiros pensadores a falar sobre reencarnação e sobre espíritos que nos acompanham, DAEMONES, que seriam, na visão kardecistas como mentores espirituais.

Os artigos que encontrei sobre o tema mostram que parte da condenação de Sócrates envolve não apenas o fato dele ser considerado um "aliciador de jovens", no sentido de disseminar entre eles a reflexão, o questionamento sobre temas básicos como "a justiça", "o bem", etc. Está presente também na condenação de Sócrates a acusação de subverter as crenças estabelecidas, o que alguns interpretam em como não crer nos deuses e de substituí-los por outros seres (que seriam os daemones). Para compreender melhor isso é necessário entender: (1) se tais entidades já estavam presentes na religiosidade grega; (2) a forma como Sócrates pessoalmente se relacionava com seu daemon. Ao falarmos dessa segunda parte é que a questão do título desse post se coloca.

Sobre o tópico (1) podemos explicar em linhas gerais que desde Hesíodo (bem antes de Sócrates) os daemones já faziam parte da religiosidade grega. Eles eram subordinados à um Theos, um Deus. E eram responsáveis por acompanhar os homens (um para cada homem) para garantir que seu destino se cumprisse, mas sem interferir nisso. Ou seja, não havia nenhum tipo de comunicação entre um homem e seu daemon pessoal, nem para o bem, nem para o mal. No final da vida (e isso o kardecismo fala certo) é o daemon o responsável por conduzir a alma "do seu humano" pelo Hades.

A grande diferença que podemos encontrar entre os daemones clássicos e os que são referidos por Sócrates, é que, diferente do que diria a religiosidade, Sócrates conseguia "ouvir" conselhos de seu daemon. O daemon, não agia, deixava as escolhas por conta de Sócrates, mas o aconselhava de vez em quando. E é essa relação com o seu daemon pessoal que gerou a grande confusão. Como, de acordo com Hesíodo, os daemons apenas selam para que os destinos sejam cumpridos sem nunca interferir (nem comunicar nada), era uma afronta Sócrates estabelecer uma relação de camaradagem com seu daemon pessoal. Na cabeça dos gregos, Sócrates estava substituindo a crença nos deuses pela crença em seu daemon, como se ele fosse a divindade. 

Alguns interpretes consideram que a acusação de Sócrates era equivoca, e que não se trata de uma "substituição de divindades", mas sim da ressignificação dos daemones, já que antes de Sócrates essa comunicação não ocorria (não que a gente saiba...rs) O próprio Sócrates, em sua defesa, argumentou que Daemones são mensageiros dos Deuses, cada um subordinado a um Deus, crer nos daemones, implica necessariamente crer nos deuses que os criaram e os colocaram para guardar os homens. A diferença é que Sócrates recebia e acolhia os conselhos dados por seu daemon (que pelo que li era enviado por Apolo). Enfim, o problema todo estava, na verdade, no fato de Sócrates se comunicar com esses ser "dividos" e tê-lo como conselheiro. E por isso veio a questão: Seria Sócrates um Médiun?

Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, sim. O contato de Sócrates com o daemon representa o que hoje se vê nos contatos mediúnicos com mentores espirituais. 

Mas esse é um blog sobre umbanda, certo? Por que abordar esse tema aqui? 
Cabe lembrar que proponho não um mero acordo com o Espiritismo (lá no começo do texto) mas uma leitura de certo modo herética do texto de Kardec. 

Quando Kardec menciona Sócrates, o faz no sentido dele ser um precursor de idéias cristãs que estão presentes no espiritismo. Mas será que é isso mesmo? Vejamos: no espiritismo os mentores espirituais não são enviados por Deuses e nem subordinado à deuses. Já na umbanda podemos encontrar algo bem mais parecido com o que os gregos falavam sobre esses seres, uma vez que todos os espíritos trabalhadores de umbanda são agrupados em falanges que respondem a um Orixá (seja esse Orixá interpretado uma deidade ou como força da natureza). Talvez isso ocorra justamente por ter uma "raiz" pagã em ambos os casos: O panteão grego não era cristão, assim como o panteão dos Orixás não era cristão em sua origem.

Ao que diz respeito aos daemones, creio que eles sejam mais próximos dos guias espirituais de umbanda, que dos mentores espíritas, pelo fato deles serem ordenados, organizados, conforme os deuses do olimpo. 

Mas o Evangelho afirma que Sócrates é um precursor das ideias do cristianismo. Afirma, também, que nada do que ele traz é absolutamente novo na história da humanidade. A própria proposta do Evangelho de Kardec é apresentar uma releitura de passagens do novo testamento à luz da doutrina espírita, mostrando que a doutrina não é contraditória com o texto sacro. Mas se é assim, porque ainda vemos tamanha resistência dos católicos em aceitarem a doutrina espírita? Seria puro preconceito? Será que Sócrates, os daemones, a reencarnação são compatíveis com os dizeres de Jesus, de acordo com o cristianismo apostólico romano que conhecemos? Não. E nem dá para afirmar que historicamente em algum momento o cristianismo tenha aceito teorias similares ao que prega o Espiritismo. É uma afirmação forte, sim. Mas uma afirmação baseada nas cruzadas que catequizavam pelo sangue, bem como nas perseguições e condenações das Heresias.

Historicamente o sec. XIII foi decisivo em relação à consolidação de determinadas doutrinas católicas. Dois eventos marcaram parte um momento de "depuração" da doutrina para transformá-la no que conhecemos hoje.

O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.

Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.

Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.

O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs

Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais! 



8 de nov. de 2013

Mandingos, Malês, Kimbandas

Mandingo (Roque Ferreira)

Devagar com esse nêgo mandingo
Ele sabe apanhar a folha
Sabe mexer na erva
Sabe rezar a reza
Sabe curimar
Quando bate vem cabôco e orixá
Quando dança tudo que é erê vem dançar
Nó de amor que ele faz ninguém desata
Ele é dono do tempo, do vento,
Do mar e da mata
Ói que esse nêgo malê
Foi rei no Senegal
Vem de lá o seu poder
Para o bem e para o mal
No pescoço um talismã
Na cintura um tecebá
Seu remédio é curador
Seu veneno é de matar
Foi nas águas de Oxum
Que lavou seu colar
Mas é Ogum Xoroquê seu Eledá

A letra acima retrata um um Negro Malê, bruxo, mandingueiro, daqueles que quando aparecem na umbanda, costumam causar um certo ar de mistério. Muitas vezes as entidades chamadas "kimbandeiras" trazem esse estigma de bruxaria pesada, algumas vezes trazem elementos não apenas da cultura africana, e sim pertencentes a tradições aparentemente "estranhas" ao africanismo. A Cruz de Caravaca; a estrela de 6 pontas chamada , também, como Selo de Salomão; as contas; as rezas; os talismãs; além de um conhecimento mais apurado sobre certos assuntos.

Dizem que estas entidades trabalham com os Exus, por serem estes que na umbanda lidam com as energias mais pesadas de magia. Mas não é este o aspecto que pretendo abordar aqui.

Se buscarmos nas histórias sobre o povo Negro no Brasil, encontramos em Narrativas como a de João do Rio em, As Religiões do Rio, histórias sobre como os negros malês eram mais distantes dos demais negros. Primeiro por serem muçulmanos, segundo por que o islamismo praticado por eles não era isento de sincretismos com religiões locais da África e, portanto, cheias de misticismo e traços de magia. Eram cultos, letrados e dominavam feitiços desconhecidos dos demais negros de origem banta e nagô. Junto ao islamismo, cultuavam, como João do Rio retrata, os aligenum, espíritos ruins, equivalentes aos Djins árabes, mas chamados de Guinnê, dyiné, adjan (Arthur Ramos, As Culturas Negras, Cap.VI).

Não eram tão submissos quanto outros grupos negros, foram protagonistas de revoltas na Bahia, a revolta dos malês, cujo resultado foi praticamente um extermínio desse grupo. Os que não foram mortos, foram pegos e deportados de volta à África, alguns poucos que permaneceram no Brasil, viviam uma vida austera e reservada. Outros se converteram ao cristianismo, como retrata Edison Carneiro (Religiões Negras, 1991,p. 73). Até que com o tempo foram totalmente (ou quase totalmente) extintos, justamente em razão de seu isolamento. Segundo João do Rio: Os alufás [sacerdotes malês] não gostam da gente de santo a que chamam auauadó-chum; a gente de santo despreza os bichos que não comem porco, tratando-os de malês.

Além da evocação aos aligenum, outras curiosidades destacadas por Arthur Ramos sobre os malês são o costume de usar arroz queimado (carvão) para escrever em pequenas tábuas, que depois de lavadas ingeria-se a água da lavagem para adquirir virtudes mágicas; o uso de pequenas bolsas com rezas, orações, seladas por símbolos cabalísticos, tais como o selo de Salomão; O uso do Tecebá, um colar com três séries de 33 contas.
Selo de Salomão


Além dessas curiosidades, há algumas outras retratadas, tal como a
origem de certas expressões como "fazer sala", que se remete às orações feitas pelos malês durante do dia, cujo o primeiro termo da oração era Salah. Também o próprio termo mandinga, cuja origem está no grupo dos mandingos, também, muçulmanos africanos vindos para o Brasil e aqui designados como malês.


Mashbaha Muçulmano com 99 contas, tal como o Tecebá.


De Acordo com Arthur Ramos, mesmo com extinção dos malês alguns traços de sua cultura permaneceram mescladas à cultura banta, resultando em sincretismos, que podem ser percebidos em terreiros das macumbas com sincretismos variados.

Há mesmo um estudo que trata da influência dos malês nos cultos  pernambucanos, cujo link segue abaixo:



Acredito que com esse pequeno resumo já dê para entender um pouco melhor alguns sincretismos que aparecem na umbanda, bem como a música de Roque Ferreira interpretada pela Roberta Sá com o qual encerro essa postagem.