27 de ago. de 2016

Seria Sócrates um médium? (Ou ainda: seria o espiritismo cristão em sentido próprio?)

Essa postagem é um pouco inspirada no artigo "Eram os gregos macumbeiros?". Porém em uma vertente diferente. 

Ultimamente tenho me voltado bastante para filosofia grega e dentre tantos preparos para aula, pensei: porque não aproveitar o ensejo para pesquisar algo que me interesse? E assim comecei um estudo que já tem alguns anos eu desejava fazer. Tentar entender um pouco melhor o conceito de DAEMON no pensamento socrático, tal qual reproduzido por Platão (e Xenofantes, também, muito embora não tenha me aprofundado nesse segundo autor).

No meio dos meus estudos lembrei que no Evangelho Segundo o Espiritismo há um tópico, logo na introdução, só sobre como Sócrates teria sido um "precursor" das ideias cristãs - acho (meio hereticamente) que não é bem assim, e espero poder falar disso mais a frente. Mas importa, nesse primeiro momento que o Espiritismo considera Sócrates como um dos primeiros pensadores a falar sobre reencarnação e sobre espíritos que nos acompanham, DAEMONES, que seriam, na visão kardecistas como mentores espirituais.

Os artigos que encontrei sobre o tema mostram que parte da condenação de Sócrates envolve não apenas o fato dele ser considerado um "aliciador de jovens", no sentido de disseminar entre eles a reflexão, o questionamento sobre temas básicos como "a justiça", "o bem", etc. Está presente também na condenação de Sócrates a acusação de subverter as crenças estabelecidas, o que alguns interpretam em como não crer nos deuses e de substituí-los por outros seres (que seriam os daemones). Para compreender melhor isso é necessário entender: (1) se tais entidades já estavam presentes na religiosidade grega; (2) a forma como Sócrates pessoalmente se relacionava com seu daemon. Ao falarmos dessa segunda parte é que a questão do título desse post se coloca.

Sobre o tópico (1) podemos explicar em linhas gerais que desde Hesíodo (bem antes de Sócrates) os daemones já faziam parte da religiosidade grega. Eles eram subordinados à um Theos, um Deus. E eram responsáveis por acompanhar os homens (um para cada homem) para garantir que seu destino se cumprisse, mas sem interferir nisso. Ou seja, não havia nenhum tipo de comunicação entre um homem e seu daemon pessoal, nem para o bem, nem para o mal. No final da vida (e isso o kardecismo fala certo) é o daemon o responsável por conduzir a alma "do seu humano" pelo Hades.

A grande diferença que podemos encontrar entre os daemones clássicos e os que são referidos por Sócrates, é que, diferente do que diria a religiosidade, Sócrates conseguia "ouvir" conselhos de seu daemon. O daemon, não agia, deixava as escolhas por conta de Sócrates, mas o aconselhava de vez em quando. E é essa relação com o seu daemon pessoal que gerou a grande confusão. Como, de acordo com Hesíodo, os daemons apenas selam para que os destinos sejam cumpridos sem nunca interferir (nem comunicar nada), era uma afronta Sócrates estabelecer uma relação de camaradagem com seu daemon pessoal. Na cabeça dos gregos, Sócrates estava substituindo a crença nos deuses pela crença em seu daemon, como se ele fosse a divindade. 

Alguns interpretes consideram que a acusação de Sócrates era equivoca, e que não se trata de uma "substituição de divindades", mas sim da ressignificação dos daemones, já que antes de Sócrates essa comunicação não ocorria (não que a gente saiba...rs) O próprio Sócrates, em sua defesa, argumentou que Daemones são mensageiros dos Deuses, cada um subordinado a um Deus, crer nos daemones, implica necessariamente crer nos deuses que os criaram e os colocaram para guardar os homens. A diferença é que Sócrates recebia e acolhia os conselhos dados por seu daemon (que pelo que li era enviado por Apolo). Enfim, o problema todo estava, na verdade, no fato de Sócrates se comunicar com esses ser "dividos" e tê-lo como conselheiro. E por isso veio a questão: Seria Sócrates um Médiun?

Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo, sim. O contato de Sócrates com o daemon representa o que hoje se vê nos contatos mediúnicos com mentores espirituais. 

Mas esse é um blog sobre umbanda, certo? Por que abordar esse tema aqui? 
Cabe lembrar que proponho não um mero acordo com o Espiritismo (lá no começo do texto) mas uma leitura de certo modo herética do texto de Kardec. 

Quando Kardec menciona Sócrates, o faz no sentido dele ser um precursor de idéias cristãs que estão presentes no espiritismo. Mas será que é isso mesmo? Vejamos: no espiritismo os mentores espirituais não são enviados por Deuses e nem subordinado à deuses. Já na umbanda podemos encontrar algo bem mais parecido com o que os gregos falavam sobre esses seres, uma vez que todos os espíritos trabalhadores de umbanda são agrupados em falanges que respondem a um Orixá (seja esse Orixá interpretado uma deidade ou como força da natureza). Talvez isso ocorra justamente por ter uma "raiz" pagã em ambos os casos: O panteão grego não era cristão, assim como o panteão dos Orixás não era cristão em sua origem.

Ao que diz respeito aos daemones, creio que eles sejam mais próximos dos guias espirituais de umbanda, que dos mentores espíritas, pelo fato deles serem ordenados, organizados, conforme os deuses do olimpo. 

Mas o Evangelho afirma que Sócrates é um precursor das ideias do cristianismo. Afirma, também, que nada do que ele traz é absolutamente novo na história da humanidade. A própria proposta do Evangelho de Kardec é apresentar uma releitura de passagens do novo testamento à luz da doutrina espírita, mostrando que a doutrina não é contraditória com o texto sacro. Mas se é assim, porque ainda vemos tamanha resistência dos católicos em aceitarem a doutrina espírita? Seria puro preconceito? Será que Sócrates, os daemones, a reencarnação são compatíveis com os dizeres de Jesus, de acordo com o cristianismo apostólico romano que conhecemos? Não. E nem dá para afirmar que historicamente em algum momento o cristianismo tenha aceito teorias similares ao que prega o Espiritismo. É uma afirmação forte, sim. Mas uma afirmação baseada nas cruzadas que catequizavam pelo sangue, bem como nas perseguições e condenações das Heresias.

Historicamente o sec. XIII foi decisivo em relação à consolidação de determinadas doutrinas católicas. Dois eventos marcaram parte um momento de "depuração" da doutrina para transformá-la no que conhecemos hoje.

O primeiro foi o Concílio de Latrão de 1215. Nesse concílio, a igreja condenou o "Catarismo", uma vertente que surgia na França e que possuía bases muito similares às que vemos hoje no espiritismo. Não é possível rastrear totalmente sua origem já que os Cátaros foram praticamente dizimados e grande parte da sua doutrina se perdeu (e essa era a ideia mesmo, fazer sumir do mapa). Nas pesquisas que fiz, já encontrei tanto a descrição do Catarismo como uma "manifestação espontânea" gerada por uma leitura autônoma do novo testamento, como uma vertente mística do cristianismo que negava a sua hierarquia interna, os cargos, etc. (e nesse caso a condenação da doutrina ganha cunho político), como já li que o Catarismo tem origem nas doutrinas bizantinas, vindas de Alexandria, que questionavam dogmas como a transubstanciação da trindade em um só Deus, além de considerar a ressurreição de forma bem próxima à reencarnação dos orientais.

Outro momento foi em 1277, onde um decreto (décret de l'évêque) condenou todas as doutrinas de origem averroísta, que, dentre várias coisas pertinentes ao universo ser infinito, resgate da física ptolomaica, etc., diziam ser a alma humana uma parte de Deus e que, ao final da vida, a alma humana se reintegraria com Deus. Doutrina que muito ajudou na construção da "nova ciência" (sec. XV-XVII) e inspirou filósofos posteriores como Giordano Brunno e Espinosa.

Enfim, o cristianismo, tal qual conhecemos, nunca reconheceu como parte sua essas doutrinas que, de certo modo, encontramos, também, no espiritismo. Logo, não seria por essas teses (reencarnação, resgate cármico, etc.) que o espiritismo deveria se reconhecer como cristão. Nem tampouco Sócrates poderia ser visto como precursor de ideias cristãs, a meu ver. E por isso chamo essa minha leitura de "leitura herética do espiritismo", pois sei que muitos espíritas dogmáticos me colocariam na fogueira por isso...rs.

O que há de comunhão real entre o cristianismo e o espiritismo é o resgate do termo "ágape" como "caritas", ou seja, o amor mais divino segundo o testamento (o amor ao próximo) como caridade. Mas talvez esse venha ser tema de outra postagem, ou não...rs

Para a ideia original da postagem, já me estendi até demais! 



21 de ago. de 2016

Como ler um livro?

Esse post é uma crítica à forma como buscamos os livros. Qualquer livro...mas principalmente àqueles que abordam temas religiosos de umbanda e/ou espiritismo.

É comum nos dias de hoje que qualquer iniciante na religião de umbanda busque na internet, em blogs ou em livros respostas para dúvidas que muitas das vezes o dirigente por si só não sabe responder. Mas o que buscamos nos livros? Verdades? Por que vemos nos livros um local privilegiado onde uma "verdade" é revelada para nós? De onde vem isso? Essa relação com a palavra escrita, como se a escrita fosse uma autoridade?

De outro modo, porque grande parte das pessoas vêem como se a falta de um léxico, um corpo teórico escrito, enfraquecesse a religiosidade? Mas já falei um pouco disso aqui.

Um neófito de umbanda, perdido, fatalmente buscará em fontes escritas (virtuais ou em livros) meios de se orientar. E muitas vezes ao encontrar algo que se afine com aquilo que ele "pressente", mas não sabe ao certo se é fato ou não, logo toma como verdade. Outros tomam como verdades teorias rebuscadas, que se coadunem com sua cultura. Ainda há aqueles que levarão em conta a "autoridade" da fala: um texto espírita secular, textos escritos e endossados por vários sacerdotes e dirigentes, ou ainda a autoridade de uma mística reconhecidamente milenar, como se grandes segredos estivessem sendo ali revelados. Assim nascem os diversos tipos de leituras sobre a umbanda: os que tem por base a doutrina espírita, os que tem por base as instituições umbandistas, os que tem por base uma "mística" que tem sua origem em qualquer lugar, menos nos Orixás e Caboclos e Pretos Velhos, que são apenas desdobramentos brasileiros de forças universais. Não que eu descreia das místicas, acho mesmo que em muitos pontos elas se tocam (como boa leitora de Mircea Eliade e Joseph Campbell, rs). Mas elas se tocam, não necessariamente se misturam formando um amálgama de culturas babilônicas, egípcias, pagãs, europeias e brasileiras. Explicando matematicamente: vários conjuntos podem tem um ou dois elementos comuns, mas isso não os tornam conjuntos iguais.

Nessa busca, muitas vezes o neófito acaba encontrando suas "verdades" em textos cuja concepção de umbanda diferem muito daquela do terreiro onde se encontra e, mais cedo ou mais tarde, essa diferença resultará na necessidade de uma escolha: "ou o terreiro que estou está certo e o livro errado (e com isso minhas dúvidas retornam) ou o livro está certo e o terreiro que estou está errado." Porém, não precisa ser assim. Isso acaba ocorrendo devido a relação que estabelecemos com o texto escrito. 

Nossa cultura está pautada na sacralização do texto escrito.

Vou explicar: desde cedo aprendemos que nos livros encontramos o que é certo. Na escola a professora ensina a buscar a resposta certa no livro, ou seja o livro traz uma verdade que nos fará tirar uma nota boa na prova (como professora, tenho restrições a essa metodologia, mas ela é comum em grande parte das instituições de ensino). Se a família é católica, aprende-se que na Bíblia está a verdade revelada por Deus aos apóstolos. Se queremos saber o que ocorre no mundo, procuramos os jornais que nos "revelarão" os principais acontecimentos. Em resumo, somos educados a procurar "a verdade" nos mais diferentes tipos de textos escritos.

Essa forma de educação obscurece em grande parte uma outra função do texto escrito: o de simplesmente tornar público um pensamento. Assim acontece com os livros de poesias, literatura, e pesquisas acadêmicas em geral (muito embora alguns vejam os textos acadêmicos com a mesma sacralidade apontada anteriormente). Esquecemos muitas vezes que uma mesma notícia, por exemplo, será publicada com diferentes interpretações, dependendo do jornal que buscamos. O mesmo acontece com os livros de história, porque um fato histórico pode ser contado de diferentes maneiras. A dificuldade aparece na hora que lidamos com textos de cunho religioso: espíritas e umbandistas. Porque compreendemos sempre, devido a nossa cultura, que livros religiosos nos trazem "verdades". Assim o neófito ao buscar o texto de umbanda, verá nele o lugar de uma verdade sacralizada e aí vem a confusão. Livros de umbanda, assim como os demais textos, são escritos sob perspectivas. O que vale para um autor, não vale para outro. Alguns descrevem a concepção de umbanda predominante no ritual de umbanda de sua casa, outros pretendem universalizar e fornecer um corpo doutrinário que seja comum a várias casas. São inúmeras as intensões das publicações que podemos encontrar sobre a umbanda, uma delas também abordamos aqui. E é justamente a multiplicidade das intensões, bem como a multiplicidade das práticas umbandistas, que devemos considerar sempre ao ler um texto sobre umbanda. Ideal é ter em mente que ele nos traz UMA verdade, e não A verdade. Essa verdade pode se adequar mais ou menos com a forma da casa que frequentamos, ou com a forma como sentimos a religião por meio dos ensinamentos dos guias espirituais. Devemos sempre lembrar, também, que parte dos ensinamentos de umbanda ocorrem oralmente e, por isso, nenhum livro ou texto dará conta de forma completa do que é a umbanda.

Um filme que didaticamente mostra com humor o valor que a nossa cultura dá ao texto escrito, bem como pontua as diferentes perspectivas da narração de uma história e a dificuldade do historiador ao escolher uma delas, é Narradores de Javé, filme brasileiro de 2003, dirigido por Eliane Caffé. Termino essa postagem com link para o filme:









3 de abr. de 2016

A Legitimação da Umbanda como Religião (notas)

Algum tempo atrás eu recebi um PDF do livro  O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda do Leal de Souza. A obra de 1932 (creio eu) retrata alguns aspectos da umbanda, principalmente da praticada na Tenda do Zélio de Moraes, cujo autor presidia a segunda filial.  

Achei interessante, inicialmente por ter já lido trecho do livro citado no Umbanda do João de Freitas, para quem já dediquei uma postagem aqui. Mas ao começar a leitura o interesse aumentou. Logo de cara:

O Sr. Leal de Souza, nos seus artigos sobre “O Espiritismo e as Sete Linhas de Umbanda”, não vai fazer propaganda, porém, elucidações, mostrando-nos, as diferenciações do espiritismo no Rio de Janeiro, as causas e os efeitos que atribui as suas práticas, dizendo-nos o que é como se pratica a feitiçaria, tratando não só dos aspectos científicos como ainda da Linha de Santo, dos Pais de Mesas, do uso do defumados, da água, da cachaça, dos pontos, em suma, da magia negra e da branca.
Esperamos que as autoridades incumbidas da fiscalização do espiritismo e muitas vezes desaparelhadas de recursos para diferencias o joio e o trigo, e o povo, sempre ávido de sensações e conhecimentos, compreendam, em sua elevação, os intuitos do Diário de Notícias.

Já de início fica clara a intenção da publicação, diferenciar o joio do trigo, dar a umbanda nascente de Zélio de Moraes um estatuto público diferente do dado aos demais rituais de espiritismo de umbanda perseguidos na época.

De fato, o livro traz algumas considerações gerais acerca da umbanda praticada nas tendas de Zélio e procura diferenciá-las das praticas de magia. Destaca muito do que qualquer médium da religião sabe: que as provas de incorporação às quais as entidades e médiuns eram submetidos, são hoje shows de exibicionismo; que a função de uma mediunidade consciente é o de dar oportunidade ao médium de aprender com a entidade com a qual trabalha; que não se deve cruzar braços e pernas durante as sessões, etc. Além, dentre algumas descrições parcas sobre as linhas de umbanda, os orixás, que hoje vemos de forma bem diferenciada dependendo da casa e da escola de umbanda.

Não vou destacar nesse momento as qualidades e o que deixa a desejar no livro, mas sim o seu valor histórico. Remeto aqui a uma observação que Beatriz Góes Dantas faz em seu livro "Vovô Nagô e Papai Branco" sobre a construção do Nagô Puro:

"Outro ponto que destaco do livro é o capítulo 4 que trata da "Construção e significado da pureza Nagô". Este capítulo traz, como elemento interessante, a origem daquilo que foi classificado como PURO nas religiões afro. Inicialmente esta designação partiu dos chefes de casa que estavam dispostos a, junto com intelectuais e antropólogos (Gilberto Freyre, Artur Ramos), a revitalizar a cultura negra, coisa que nem todos os terreiros e barracões estavam dispostos, pela desconfiança natural que se tinha dos "de fora" em uma época de perseguições violentas à religião. Posteriormente, quando essa "moda de revitalização" chegou à Bahia (com Verger e Jorge Amado, junto a outros antropólogos) a noção de pureza foi ressignificada, passando a se referir aos terreiros que continham mais traços comum com os remanescentes cultos africanos (remanescentes, pois hoje em dia a África é quase toda protestante e católica e o culto primitivo aos Orixás é fortemente combatido como prática de feitiçaria). Enfim, por um lado a pureza significava valores regionais típicos, por outro a pureza significava a proximidade do culto com a Mãe África. Mas é interessante destacar que, tanto de um lado como de outro, era consensual que a prática do culto visando o mal, ou fazer mal a outrém era, era desprezada.

Desde o princípio está envolvido no conceito de "pureza" a prática do culto com o objetivo de trazer força e prosperidade aos filhos de santo. A cura de males que possam ser causados por "Orixás insatisfeitos". A ideia mais comum é que cuidando do santo se garante uma vida feliz e próspera ao filho de santo."
O Valor Histórico das Obras de Leal, tem o mesmo contexto: o de tentar diferenciar a umbanda de Zélio das demais práticas do gênero. E, não podendo apelar para uma "pureza Nagô" ou "pureza Africana", apena para os conceitos de "bem e mal", aponta para um sincretismo cristão forte que não o nega:

A Linha Branca de Umbanda e Demanda tem o seu fundamento no exemplo de Jesus, expulsando a vergalho os vendilhões do templo. Às vezes, é necessário recorrer à energia para reprimir o sacrilégio, consistente na violação das leis de Deus em prejuízo das criaturas humanas.

Outras vezes apela para o caráter elevado que as entidades escondem, remetendo à herança espírita que me pergunto se é do autor ou da umbanda em si, muito embora ele remonte à fatos:

Uma ocasião, numa pequena reunião de cinco pessoas, um protetor caboclo descarregava os maus fluidos de uma senhora, enquanto também incorporado, um preto velho, Pai Antônio, fumava um cachimbo, observando a descarga.

- Cuidado, caboclo avisou o preto. O coração dessa filha não está batendo de acordo com o pulso.
- Como é que Pai Antônio viu isso? Deixe verificar, pediu um médico presente à sessão.

Depois da verificação, confirmou o aviso do preto, que o surpreendeu de novo, emitindo um termo técnico da medicina, e explicando que o fenômeno não provinha, como acreditava o clínico, de suas causas fisiológicas, porém de ação fluídica, tanto que terminada a descarga, se restabelecia a circulação normal no organismo da dama. E assim aconteceu.

O doutor, então, quis conversar sobre a sua ciência com o espírito humilde do preto, e, antes de meia hora, confessava, com um sorriso, e sem despeito, que o negro abordara assuntos que ele ainda não tivera oportunidade de versar, e estranhava:

- Pai Antonio não pode ser o espírito de um preto da África e não se compreende que baixe para fumar cachimbo e falar língua inferior ao cassanje (dialeto crioulo do português falado nessa região; por ext. português mal falado e escrito.)
- Eu sou preto, meu filho.
- Não, Pai Antonio. O senhor sabe mais medicina do que eu.
Por que fala desse modo? Há de ser por alguma razão.
O preto velho explicou:
- Eu não baixo em roda de doutores. Doutor, aqui só há um, que és tu, e nem sempre vens cá. Depois, meu filho, se eu começo a falar língua de branco, posso ficar tão pretensioso como tu, que dizes saber menos medicina de que eu, disse, numa linguagem, arrevesada, que traduzimos.

Os protetores da Linha Branca em geral se especializam, no espaço, em estudos ou trabalhos de sua predileção na Terra e baixam aos centros e incorporam para um objetivo definido. Acontece, porém, que muitas vezes são induzidos a erros pelos consulentes, com a cumplicidade dos presidentes de sessões. Uma pessoa os interroga sobre assunto de que não tem conhecimento pleno.

As obras de Leal de Souza e o acesso que este tinha a veículos da imprensa foram fundamentais para que a umbanda fosse legitimada enquanto expressão religiosa e, qualquer historiador que se preze da religião deverá passar pelas obras dele. Acredito que se a história de Zélio de Moraes e a construção da sua escola de umbanda como referência prática em inúmeros terreiros de hoje (mesmo àqueles que não praticam a umbanda de Zélio estritamente) se deve à Leal de Souza como divulgador da religião.

Há aqui, o que parece ser uma construção da religião, tal qual ocorreu com o discurso de "pureza" nas nações, um mesmo movimento, muito embora não tenha tido autoria de antropólogos. O que me faz, novamente, refletir sobre a construção de narrativas e a influência que essas construções passam a ter, ao longo dos anos, sobre a própria religião. Hoje, são antropólogos e historiadores que se voltam para a figura de Leal de Souza para tentar reconstruir esse momento de "surgimento" da umbanda.

É assim: a pessoa que me enviou o texto levantou uma bola, e eu como pesquisadora amadora, encontrei links com documentos que podem ser bem interessantes para quem se interessar nessa parte da história da umbanda:

Documentos Históricos da Umbanda - onde o livro de Leal de Souza que citei se encontra disponível para download, além de outros documentos interessantes.

Há também uma biografia de Leal de Souza (sim, isso muito me interessa...rs) escrita pelo historiador Diamantino Fernandes Trindade, que ressalta a figura do escritor como um intelectual reconhecido da época.
Reunião dos dirigentes das Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, presidida por Zélio de Moraes na TENSP












21 de fev. de 2016

Simbolismos do lado esquerdo - Parte I

A razão pela qual essa postagem tem uma "Parte I" no título reside no fato de não pretender esgotar o tema nessa postagem. Aqui apresentarei apenas uma problematização da divisão "direita" e "esquerda", sob um viés antropológico, problematizando essa divisão e a forma como ela atua no imaginário de quem vê a umbanda de fora. Não se trata de apresentar uma visão de "doutrina", mas apenas de entender como um simbolismo que não pertence apenas à umbanda, mas está presente nela e em várias culturas (alguns diriam até que está presente em um inconsciente coletivo) resulta em interpretações que, hoje o umbandista, com alguma dificuldade, se esforça em desconstruir. Também gostaria de deixar claro que o objetivo dessa postagem é o de questionar as relações que estabelecemos com a "esquerda" sob o ponto de vista de uma antropologia. Ou seja, trata-se menos de delinear as características doutrinárias reservadas a essa linha, e mais de observar que quando falamos "esquerdo" aparecem muitas relações simbólicas que não são vistas inicialmente e que refletem também na forma como concebemos a linha da esquerda, seja conscientemente ou inconscientemente.

É comum a todos os umbandistas a existência das linhas de direita e da linha de esquerda. E em conjunto com o trabalho dessas linhas vem uma série de preceitos relacionados que inclui o uso das mãos direita e esquerda, em certas ocasiões, dependendo de qual das linhas se trabalha - uso da mão direita ao lidar com as linhas da direita, uso da mão esquerda ao lidar com a linha de esquerda. E com o tempo observei que algo parecido e ligado aos lados direito e esquerdo de nosso corpo se repetem durante os trabalhos das entidades, mesmo as das linhas de direita, quando pretendem em algum momento "evocar" as forças da esquerda. Isso me fez refletir: 1) sobre os usos que nós mesmos fazemos sobre essa divisão "direita" e "esquerda"; 2) como "esquerda" e "direita" são compreendidos e empregados no senso comum e que, fatalmente, resultará em; 3) a forma como as linhas de "esquerda" parecem se opor antagonicamente as linhas de "direita".

É claro que, como boa nerd que sou, não fiz essa reflexão, nem tampouco escrevo essa postagem, sem antes ter procurado alguns textos que pudessem me ajudar a organizar o que eu já vinha refletindo a respeito. E foi pesquisando que encontrei o artigo A preeminência da mão direita: um estudo sobre a polaridade religiosa, do antropólogo Robert Hertz. A partir desse artigo, pude organizar melhor uma ideia que estava surgindo na minha mente de forma intuitiva, apenas.

O fato é que durante muito tempo tudo o que era relacionado ao esquerdo era escondido, ou impedido de atuar pelo simples fato de relacionarem este lado à coisas ruins, ocultas, obscuras, profanas, ou seja, a tudo o que é oposto ao bem. Eu não sabia muito bem como colocar isso como ponto de partida: inquisição? Onde canhotos eram considerados bruxos? Na índia? Onde tradicionalmente a limpeza higiênica de detritos humanos é realizada sempre com a mão esquerda (e por isso come-se apenas com a mão direita). Pelo sufismo islâmico dos dervixes que dançam com a mão direita estendida ao céu para colher as bênçãos divinas e a mão esquerda reta, voltada para a terra? Pelas falas cristãs:  Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.Mateus 6:3,4 Ou ainda a oração do Credo, que afirma a posição de Jesus à direita de Deus... Enfim, são tantas as culturas que distinguem os lados "direito" e "esquerdo", culturas seculares e milenares, que fica mesmo complicado tentar traçar um momento, ou um local onde isso possa ter surgido. 

As relações entre "direito" e "bom" X "esquerdo" e "profano", "mau", estão tão arraigados em nossas mentes que podemos facilmente perceber, junto com Hertz, que até mesmo na nossa linguagem usamos frequentemente os termos "direito" e "esquerdo" para designar o "certo e o "errado". A palavra sinistro em nossa língua possui essa raiz de significação. Segundo o dicionário AULETE, sinistro significa:
a.
1. Que provoca temor, que pressagia uma desgraça (ambiente sinistro, ameaça sinistra, silêncio sinistro); ASSUSTADOR
2. Que usa a mão esquerda; CANHOTO [ Antôn.: destro ]
3. Que indica perversidade; que causa mal (projetos sinistros).
4. Que inspira receio (olhar sinistro); ASSUSTADOR
sm.
5. Desastre, acidente: No sinistro morreram cinco pessoas.
6. Grande prejuízo material: A inundação não causou vítimas, mas o sinistro foi considerável.
7. Dano em qualquer bem segurado (pagamento do sinistro).
[F.: Do lat. sinistrum, de sinister, -tra, -trum 'esquerdo, canhoto'.]

Se formos mais longe, podemos até notar que o termo em inglês "Bright" (brilhante, luminoso) carrega um "right" (direito, certo) em sua composição.

Do mesmo modo, quando se fala em "linha de esquerda" na umbanda, os exus e pombo giras, muita gente pensa na associação com o diabo. Se for evangélico, então, nem se fala. Mas será que apenas eles pensam dessa forma? Será que não há algo na própria forma como essa linha é concebida que faz com que essa seja uma associação válida?

Mesmo que nos dias atuais exista um esforço em eliminar essa associação (Exu=Diabo, portanto àquele que pratica o mal) será que não existe algo na forma como compreendemos essas entidades que torna mais difícil a dissociação? Pensemos...

Arquetipicamente essas entidades são espíritos que representam representam a nossa ligação com a terra, consequentemente, trazem em seus gestuais elementos que nos tornam mais próximos a eles. A dubiedade de exu, a sensualidade das pombo-giras. Eles estão constantemente lidando, nos atendimentos, com as questões mais materiais - trabalho, amor, etc... São eles que vem ao socorro quando se lida com uma energia mais densa, pesada, a chamada demanda ou quebra de magia. Isso porque possuem contato mais direto com o oculto (que sempre foi relacionado ao lado esquerdo).

Hertz, no artigo cujo link coloquei acima, observa que uma das consequências da distinção "direito" X "esquerdo", que culminam nos papéis que as mãos esquerda e direita possuem na sociedade, é que ao lado esquerdo ficou, quando muito, reservada a função de auxiliar o lado direito, tido como o certo. O lado esquerdo, devido às construções de significados presentes desde sempre em diversas culturas, não possuía o "direito" de se desenvolver plenamente. Isso, Hertz afirma literalmente sobre o uso das mãos e da tentativa sistemática que existiu durante anos a fio de tornar crianças canhotas em destras. Mas será que, de certa forma, isso não pode ser notado também em relação à construção da umbanda?

Os primeiros terreiros de umbanda (aqueles que seguiam a linha de Zélio de Morais) não trabalhavam com a chamada "linha de esquerda". Aos poucos essas linhas foram aparecendo como linha "auxiliar", para firmar a defesa de uma casa (a tronqueira) e em alguns centros se fazia sessões com eles apenas para médiuns. Seja como for, a linha de esquerda não aparece como o pilar da umbanda. Quando se fala em umbanda, sempre se pensa que umbanda é feita principalmente com criança, caboclo e preto-velho. Ou seja, as linhas chamadas de "direita". Grande parte dos terreiros possuem nomes ou de santos católicos, ou de caboclos e pretos-velhos. Não é habitual vermos um centro de umbanda tendo um exu, ou pombo-gira, como guia chefe, e se vemos um, logo desconfiamos da índole da casa. Será que é mesmo umbanda, ou é mais um tentando usar impropriamente o nome da religião? No entanto, nos dias atuais, são raros os terreiros que não trabalhem com exus. Qual o papel deles, então? Não seria o de auxiliar os trabalhos realizados pelas linhas de direita?

Em resumo, inconscientemente, endossamos o papel auxiliar mencionado por Hertz no artigo, quando relegamos aos exus os trabalhos de limpeza pesada, bem como os trabalhos de magia que lidam com o que há de mais oculto, para auxiliar o bom andamento dos trabalhos da direita. Com isso, também endossamos a ideia de que os exus são as entidades mais "sinistras" da umbanda, por que apenas eles podem lidar com o oculto (mesmo que eles usem isso para a prática do bem). A sensualidade da pombo-giras, o jeito mais solto do exu, também fazem com que essa linha torne presente à mente do consulente coisas que ele talvez viesse esconder de um preto-velho por moralismo, ou por saber ser incorreto. São várias as situações em que, mesmo que tentemos desmistificar a figura de exu, desvencilhando ela da prática da "baixa magia" ou de uma associação com o "diabo", "o mal", nós mesmos pensamos neles como representando, ou indicando, a presença (mesmo que seja para combatê-la) de coisas que não são desejáveis dentro do serviço do bem.

Há também as situações onde, nas giras de direita, em casos de emergência, essa força da "esquerda" é chamada a servir. Assim como existem entidades de direita que trazem em si a possibilidade de trabalhar, também, nas linhas de esquerdas. Os chamados "quimbandeiros". E é justamente em relação ao trabalho dessas entidades "quimbandeiras" que o simbolismo dos "lados direito e esquerdo do corpo" se farão presentes em certos momentos. Seja na hora de preparar suas firmezas, seja na hora de aplicar um passe. Algum tempo atrás, ouvi de um dirigente de terreiro, que a presença de entidades da linha de direita "quimbandeiras" se justifica pelo fato de a umbanda na sua origem não trabalhar com as linhas de esquerda. E como em tudo é necessário um equilíbrio, a própria "linha de direita" encontrou um meio de trazer as forças da "esquerda" para dentro do terreiro.

Enfim, o assunto está longe de se esgotar e por isso pretendo, em algum momento, fazer a Parte II dessa postagem que versará justamente sobre a ideia de polaridade e complementariedade de forças.

Mas para quem deseja ler um pouco mais sobre o assunto, outro texto que também indico sobre o tema é O PODER DO ESQUERDO, publicado no blog "Estudos Bantos".